Teve uma carreira curta nos relvados, porque começou tarde e acabou cedo. Compensou com um sucesso retumbante no início da fase de treinador. Mesmo assim, a jogar, ainda ganhou dois campeonatos e uma Taça das Taças.
2018-01-09

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1958

Lino é o exemplo claro do que era a insularidade no Portugal dos anos 50, mas também do que vale a vontade de vencer. A pequena estatura nunca o impediu de impor a endurance e o espírito competitivo com que encarava cada desarme, apesar de ter começado na linha avançada. A distância, essa sim, podia ter impedido a afirmação daquele que foi o primeiro açoriano a jogar pela seleção nacional. Foi, ainda assim, duas vezes campeão nacional pelo Sporting, uma delas já como segunda escolha para as laterais da defesa, tendo igualmente sido ele quem começou a campanha que conduziu à vitória na final da Taça das Taças, em 1964. Aos 30 anos, porém, decidiu acabar a carreira para dar início a outra: juntou Mário ao nome de guerra e chegou também a campeão nacional pelo seu clube do coração.

Na escola, na cidade da Horta, Lino já se destacara no atletismo, sobretudo em corridas de longa distância. Ao futebol chegou por necessidade, aos 13 anos: um dos juniores do Faial Sport magoou-se antes de um jogo com o Sporting da Horta e ele, que estava ali perto, foi repescado para atuar. Saiu-se bem e desde logo se fixou na equipa. Em 1955, tendo o rapaz feito 18 anos, chegou à equipa de honra do clube, a jogar como interior direito. O treinador, um antigo jogador do Vitória SC, chegou a prometê-lo aos de Guimarães, mas a verdade é que os vimaranenses nesse ano desceram de divisão e a transferência não avançou. Em vez disso, Lino acabou a época de 1954/55 a viajar até Angra do Heroísmo, onde o Faial Sport ia participar nas comemorações do aniversário do Lusitânia. Marcou o golo do empate e os responsáveis do Lusitânia já não quiseram deixá-lo ir embora, tendo concretizado a transferência por 15 contos, um recorde no futebol dos Açores.

Pelo Lusitânia, Lino ainda participou na vitória por 1-0 frente ao Angrense, que valeu à sua nova equipa o título de campeã regional. Foi em Angra, de resto, que se tornou defesa lateral, fruto da visão de Janos Biri, um treinador consagrado que entretanto chegara ao Lusitânia. Lino, no entanto, queria mais do que os títulos de campeão regional e as qualificações para a final insular de acesso à Taça de Portugal – que nunca venceu. A chamada para o serviço militar pareceu-lhe, por isso, uma oportunidade. Seduzido por um capitão sportinguista, Lobo da Costa, preferiu ser colocado na Pontinha a ficar nos Açores, sempre com a ideia na entrada no plantel leonino. Só que o tempo ia passando e a chamada para treinar em Alvalade nunca mais chegava. A primeira oferta que teve foi, aliás, do Benfica. Queriam que fosse treinar à experiência. Lino acabou por não ir, porque estava empenhado em manobras militares, e foi quando já tentara saber na secretaria do Estádio da Luz quando podia comparecer em alternativa que Lobo da Costa e Abrantes Mendes – ex-jogador e agora dirigente leonino – foram buscá-lo para ver o que ele valia.

Depois de o verem jogar numa equipa de examinados contra os juniores, naquele início de 1958, os responsáveis leoninos optaram por contratá-lo. Podiam fazê-lo, ao abrigo da lei especial para militares. Problemático era quando Lino acabasse o serviço militar: aí, o Sporting concordou em levar a sua equipa de honra a fazer dois jogos amigáveis aos Açores, cuja receita reverteria para o Lusitânia e para o jogador. A transferência acabou por render 300 contos ao clube açoriano e Lino jogou pelos leões em 1958/59. A estreia oficial fê-la logo a 14 de Setembro, lançado por Enrique Fernández como defesa-esquerdo titular na vitória por 1-0 que os campeões nacionais obtiveram na deslocação ao terreno do Barreirense, na primeira jornada. Foi depois um dos sacrificados na sequência dos 3-4 cedidos em casa ao SC Braga, na segunda ronda, mas a derrota por 4-0 frente ao Benfica, na Luz, em meados de Dezembro, reabriu-lhe as portas da titularidade, agora ocupando à direita a vaga retirada a Caldeira.

A primeira época de Lino não foi famosa, porque apesar de ter chegado rapidamente à seleção militar, o Sporting acabou o campeonato em quarto lugar. E teve ainda outro dissabor. É que depois de ter feito praticamente toda a campanha na Taça de Portugal, ficou fora da segunda mão das meias-finais, por ter sido expulso aos 15’ da primeira: o Sporting tinha ganho por 2-1 ao Benfica em Alvalade, mas perdeu depois por 3-1 na Luz e foram os encarnados a aceder ao jogo decisivo. O açoriano tinha-se já estabelecido como defesa-direito, sendo nessa posição que fez a segunda época. Titular absoluto para Fernando Vaz, faltou a apenas dois jogos de campeonato e fez até o seu primeiro golo na competição: a 6 de Dezembro de 1959, aproveitou um passe do interior-direito Romeu para abrir o marcador nos 5-2 ao Boavista, no Bessa. Na Taça, foi fixo e jogou sempre até à final, que os leões perderam para o Belenenses, por 2-1, depois de se terem colocado em vantagem.

Lino tornara-se uma máquina fiável. Tanto o argentino Alfredo González como o brasileiro Otto Glória, que o substituiu em Abril de 1961, apostaram tudo nele, de modo que o açoriano não falhou um único minuto da temporada de 1960/61 – foi mesmo o único totalista dos leões. Fez mais três golos – dois no campeonato, ao SC Braga e ao Salgueiros, e outro na Taça de Portugal, ao Vitória FC – e chegou à seleção nacional, lançado por Armando Ferreira, a 19 de Março de 1961, nos 6-0 ao Luxemburgo, mas continuava sem ganhar um troféu. Os leões acabaram a Liga em segundo, a quatro pontos do Benfica, e caíram na Taça frente ao FC Porto, devido a um 1-4 nas Antas, nas meias-finais.

Otto Glória estava, contudo, a burilar uma equipa campeã. Já comandados por Juca, que sucedeu ao brasileiro em Outubro, os leões ganharam mesmo o campeonato de 1961/62. Lino fez 25 dos 26 jogos que levaram à conquista, incluindo o emocionante dérbi que pôs o carimbo na prova. Sporting e FC Porto entraram para a última jornada com os mesmos 41 pontos, cabendo aos dragões deslocar-se a Guimarães e aos leões receber o Benfica, que no início desse mês de Maio se sagrara bicampeão europeu. Ao Sporting bastava ganhar – como se isso pudesse ser dito quando o adversário era tão forte. Com Lino a defesa-direito, o Sporting chegou ao intervalo a vencer por 3-1. A meio da segunda parte, Augusto Silva inaugurou o marcador para o Vitória. A festa começava.

Lino, que em Setembro de 1961 se estreara finalmente nas competições europeias – e logo com o golo que permitiu ao Sporting empatar em casa com o Partizan – era finalmente campeão nacional. Fez mais um golo nessa época: ao Belenenses, na segunda mão dos quartos de final da Taça de Portugal, insuficientes, contudo, para que a equipa seguisse em frente. Sem o saber, já se despedira também da seleção: a derrota por 2-1 com o Brasil, em Maio de 1962, no Pacaembu, foi o seu sexto e último jogo de quinas ao peito. O açoriano ainda fez uma boa época em 1962/63, mas já não esteve em campo na final da Taça de Portugal em que a equipa ganhou por 4-0 ao Vitória SC: jogou Pedro Gomes, que acabaria por lhe ganhar o lugar à direita de uma defesa onde Hilário era inamovível à esquerda. Os quatro jogos que fez na caminhada até à final permitem-lhe colocar o nome entre os vencedores, da mesma forma que as cinco presenças – e um golo, nos 16-1 ao Apoel – na campanha que conduziria o Sporting à vitória na final da Taça das Taças de 1963/64 lhe valem também um lugar na equipa que conquistou a única taça europeia do palmarés do Sporting.

Pedro Gomes e Morais eram, no entanto, as apostas mais comuns para a direita da defesa. Lino compunha o plantel e fazia alguns jogos. Ainda jogou as quatro primeiras jornadas no título nacional de 1965/66, alinhando noutras quatro em 1967/68. Envergou pela última vez a camisola verde-e-branca de forma oficial a 11 de Dezembro de 1966, num empate a duas bolas frente ao Varzim. Tinha 29 anos e uma ideia: treinar os juniores do clube, ao mesmo tempo que ia matando saudades jogando nas reservas. E a aposta dar-lhe-ia frutos. Em Novembro de 1968, quando uma sequência de três empates levou à demissão de Fernando Caiado, Mário Lino foi chamado como treinador interino até ao regresso de Armando Ferreira, em Fevereiro do ano seguinte. Manteve-se como adjunto deste e depois de Fernando Vaz, que viria a substituir em Fevereiro de 1972. Logo nessa época, levou a equipa à final da Taça de Portugal (derrota por 2-3 com o Benfica). Vingar-se-ia um ano depois, quando, tendo substituído Ronnie Allen na ponta final da época, conquistou a primeira Taça de Portugal como treinador, ganhando por 3-2 ao Vitória FC na final. Foi já como treinador principal que iniciou a época de 1973/74, uma das mais brilhantes do historial do Sporting, com vitória no campeonato e na Taça (2-1 ao Benfica) e uma presença nas meias-finais da Taça das Taças.

Essa final da Taça de Portugal marcaria o fim da relação do treinador Mário Lino com o Sporting. Já não se sentou no banco, por causa de um desentendimento com a direção – foi Osvaldo Silva quem dirigiu a equipa – e encetou aí uma longa carreira de treinador fora de Alvalade, que o levou a equipas como o SC Braga ou o Boavista (onde ganhou uma Supertaça) e que só terminaria em 1990, no GD Peniche, para regressar a Alvalade. Foi nessa altura convidado por Sousa Cintra para secretário técnico, tendo então dedicado os últimos anos da sua vida ativa a funções no departamento de futebol do clube.