No Vitória FC, tinha como carta de recomendação o primo, Carlos Cardoso, um dos membros da super-equipa ali montada por Pedroto. Infelizmente tinha-o também à sua frente na luta por um lugar na equipa, o que o levou a ter de fazer carreira em Portimão.
2018-01-07

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1973

Setúbal vivia os tempos do melhor Vitória FC de sempre. O clube conseguira juntar um lote de jogadores de fazer inveja até aos grandes e, sob a liderança, primeiro de Fernando Vaz e depois de José Maria Pedroto, fez carreira nas provas nacionais e até internacionais. Foi nesse contexto que chegou dos juniores um Cardoso, segundo da linhagem, porque era primo do capitão de equipa. Chamava-se Carlos Cardoso, como ele, mas isso já seria confusão a mais, pelo que para o futebol ficou conhecido pelo segundo nome: João. João Cardoso era um defesa central de físico avantajado, mas sem a qualidade do primo, o que sempre o impediu de fazer carreira naquele Vitória FC. Mas tinha futebol de I Divisão, como mostrou quando José Augusto se lembrou dele e o levou para um Portimonense a dar os primeiros passos no escalão principal do futebol português. Foi ali, no Algarve, que mostrou o melhor de si mesmo.

Mas não nos adiantemos. No início era o super-Vitória FC, com Carlos Cardoso e José Mendes – esse, que depois jogou no Sporting – a formarem uma excelente dupla de centrais. Eram dois internacionais, o que explica bem a dificuldade que João Cardoso sentiu para se impor na equipa. Na sua primeira época de sénior, concluída pelo Vitória em quarto lugar da tabela, Pedroto só lhe deu um jogo: colocou-o em campo no lugar de Rebelo a 23 minutos do fim da última partida do campeonato, um empate a zero em Faro, a 2 de Maio de 1971. A segunda época foi pelo mesmo caminho, com pouca utilização, atrás do primo Carlos e de José Mendes. João pôde mesmo assim festejar em campo o histórico segundo lugar final dos sadinos: jogou como titular no empate a zero frente ao Belenenses com que a equipa encerrou a prova, no Restelo. É certo que à terceira época ainda beneficiou de um mau momento do primo, entre Novembro e Fevereiro, para se impor na equipa, fazendo até a estreia europeia nos dois jogos contra o Inter de Milão (2-0 em Setúbal, 0-1 em San Siro), mas no Verão de 1973 Pedroto deu-lhe a guia de marcha. O rapaz precisava de jogar.

João Cardoso foi assim parar ao Montijo, onde José Caraballo, o treinador, o fez subir no terreno. Jogava a meio-campo, o que a 6 de Janeiro de 1974, na véspera do seu 22º aniversário, lhe permitiu marcar o seu único golo em quase 200 jogos de campeonato. Foi nuns 8-1 ao Oriental e João Cardoso marcou o segundo, em recarga a remate de Celestino. Ainda assim, nem ele jogou muito – só 14 jogos no campeonato, mais um na Taça de Portugal – nem o CD Montijo fugiu à última posição, acabando por descer de divisão. De regresso ao Bonfim, onde Pedroto tinha dado lugar a José Augusto, João Cardoso voltou à condição de suplente. Aproveitou bem a primeira oportunidade que teve, no entanto. A 1 de Dezembro de 1974, não podendo José Mendes defrontar o Benfica na Luz, José Augusto chamou-o a ele. O Vitória FC perdeu por 2-0, mas João Cardoso ficou na equipa e tornou-se mesmo fixo no onze quando José Torres assumiu o comando técnico, nos finais desse mês. Jogou, por exemplo, no empate a uma bola com o FC Porto nas Antas ou nos 2-1 ao Benfica no Bonfim, uma das duas derrotas sofridas pelas águias rumo à conquista do título.

Com José Mendes de saída para o Sporting, Mário Lino, o treinador que chegou a Setúbal em 1975, estabilizou a equipa com os dois Cardoso a formar dupla de centrais. Em Dezembro, porém, após uma derrota pesada em Guimarães (0-4), João Cardoso foi sacrificado e deu o lugar a Sabu. Não mais foi titular nessa época e, mesmo na seguinte, com Fernando Vaz, contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que foi chamado ao onze. Restava-lhe a saída e João Cardoso aproveitou o chamamento de José Augusto, o treinador que primeiro confiara nele em Setúbal e que estava agora em Portimão. Curioso é que em meados de Outubro José Augusto foi demitido, quem o substituiu foi Mário Lino, mas João Cardoso manteve sempre o estatuto de indiscutível na equipa do Portimonense, formando dupla de centrais com o brasileiro Paulo César. Os algarvios acabaram por descer, ultrapassados na última jornada pelo Marítimo – que venceu o Varzim por 2-0, enquanto o Portimonense sofreu a 13 minutos do fim, em Alvalade, o golo de Manoel que sentenciou uma derrota com o Sporting (0-1) e condenou a equipa à II Divisão.  

João Cardoso falhou apenas uma das 33 partidas do Portimonense nessa época, voltando a ser fulcral na subida de divisão que se seguiu: primeiro lugar da Zona Sul e vitória no torneio de apuramento do campeão, contra o SC Espinho e a UD Leiria. De regresso ao escalão principal, veio como patrão da equipa montada por António Medeiros, que depois Manuel de Oliveira conduziu a um tranquilo oitavo lugar final: mesmo tendo sido substituído duas vezes, ele foi o único titular nas 30 partidas do Portimonense nesse campeonato, somando-lhe ainda a presença no onze em todos os jogos da Taça de Portugal. A importância que teve na repetição do oitavo lugar na época seguinte – embora aqui falhando dois jogos – reabriu-lhe então as portas do Bonfim. No verão de 1981, aos 29 anos, João Cardoso regressou ao Vitória para ser titular. Não o foi por muito tempo, porém. Em 1982/83, Manuel de Oliveira, entretanto chegado ao Vitória, passou a apostar mais em Brito, contratado ao Rio Ave, e João Cardoso perdeu importância na equipa.

Vestiu a camisola do Vitória pela última vez a 5 de Junho de 1983, substituindo Edmundo – futuro internacional e benfiquista – a 20 minutos do fim de uma vitória por 1-0 no terreno do Varzim que garantiu o sétimo lugar final. E, sempre rodeado de ex-companheiros, João Cardoso serviu ainda uma série de equipas nos escalões secundários: jogou com Narciso no Benfica de Castelo Branco, com Paulo Campos, Rodrigues Dias e Paulo César no Recreio de Águeda e com Nelson Moutinho no Olhanense, antes de baixar de patamar para representar o Juventude de Évora no terceiro escalão e o Comércio e Indústria no regional de Setúbal.