Chegou do Brasil para acrescentar criatividade e golos ao campeonato português. Foi ídolo em Guimarães, mas acabou cedo, vítima da má interpretação de uma lesão gravíssima.
2018-01-05

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1971

Logo à chegada, Jorge Gonçalves mostrou ao que vinha. Aos golos. Apareceu em Guimarães, vindo do Brasil, no início do Outono de 1970, com a garantia dada pelo treinador, Jorge Vieira, de que seria o avançado-centro de que a equipa necessitava. Ao segundo jogo, a contar para as competições europeias, fez um golo. E lesionou-se. Basicamente, estas são as duas imagens de marca deste atacante de boa técnica e faro pela baliza que acabou a carreira aos 27 anos devido à destruição do seu joelho direito.

De onde vinha Jorge Gonçalves? Já vi escrito que brilhara no Flamengo, de onde saíra em conflito com Dorival Yustrich, o “Homão” que já tinha feito parte da história do FC Porto e entretanto chegara à Gávea para não deixar pedra sobre pedra. A crise Yustrich existiu, motivada pelo desejo do treinador afastar o defesa Brito – a quem chamava “Cachaceiro” e não perdoava o vício do tabaco – e pela reação enérgica do grupo em defesa do companheiro, mas não encontro nela nenhuma referência a Jorge Gonçalves. Aliás, nem nesse ano nem nos anteriores este atacante fez parte dos onzes do mais popular clube brasileiro. É impossível, portanto, confirmar essa parte da história ou a sua passagem pela Portuguesa de Desportos, por empréstimo, como também já li que acontecera. Certo é que vinha garantido por Jorge Vieira, o treinador que depois de ter passado por Belenenses e Vitória SC, passou parte do ano de 1970 no Brasil antes de regressar para comandar os vimaranenses. E que o Vitória SC gastou na transferência 600 contos, mais 150 de luvas e lhe prometeu 20 contos de salário mensal.

A estreia de Jorge Gonçalves aconteceu a 14 de Outubro de 1970, na Escócia, em partida da segunda eliminatória da Taça das Cidades com Feira face ao Hibernian. Os portugueses foram batidos por 2-0 e ele já não fez parte das escolhas do técnico para os dois jogos que se seguiram, de campeonato. Regressou duas semanas depois, na segunda mão europeia, e para fazer estragos: aos 20’, a passe de Zezinho, abriu o ativo. Ademir ainda fez o 2-0 antes do intervalo, abrindo boas perspetivas de apuramento, mas o adversário marcou já na segunda parte um golo que afastou os portugueses. E, logo ali, Jorge Gonçalves lesionou-se, o que o levou a perder mais três jornadas de campeonato. A estreia na prova nacional fê-la a 22 de Novembro, num empate caseiro (0-0) com o Sporting, que viria a sagrar-se campeão. Antes do Natal, porém, lesionou-se com gravidade no jogo em casa com o Belenenses, o que lhe motivou mais três meses de ausência competitiva.

Jorge Gonçalves ainda voltou a tempo de ajudar o Vitória a assegurar a manutenção – esteve nas vitórias magras frente a Boavista e Farense, em Abril – mas acabou esse campeonato sem um único golo. O seu primeiro tento “nacional” aconteceu a 16 de Maio, marcado a Tibi numa emocionante partida da Taça de Portugal em que o Leixões se impôs por 4-3 no Estádio do Mar, eliminando os vimaranenses logo à primeira barreira. Muitos já começariam a achar que o investimento em Jorge Gonçalves não se justificava, mas a segunda época do brasileiro foi retumbante. Acabou-a como melhor marcador da equipa que Mário Wilson conduziu a um tranquilo sexto lugar final – e mesmo assim perdeu dois meses de competição por causa de uma fratura da clavícula após choque com Damas, em finais de Outubro. Dos 15 golos que fez no campeonato, destacam-se o “hat-trick” ao Farense, em Março, bem como o bis ao FC Porto, que valeu ao Vitória SC um sucesso por 2-1 nas Antas, no mesmo mês.

Esses 15 golos – e mais um à Académica, na Taça de Portugal – valeram a Jorge Gonçalves  estatuto de ídolo dos adeptos do Vitória e a cobiça dos grandes. Falou-se de uma ida para o FC Porto, mas os dirigentes minhotos não cederam e o brasileiro apresentou-se a serviço no início da época seguinte. Marcou logo na primeira jornada, nos 4-0 ao Boavista, e estava num grande momento quando o azar voltou a bater-lhe à porta. Em finais de Outubro, o Vitória voltou a vencer o FC Porto nas Antas por 2-1, ainda que desta vez Jorge Gonçalves só tenha feito o golo inaugural. Somou-lhe outro nos 3-3 ao União de Tomar e um terceiro em jornadas seguidas no empate a duas bolas contra o Farense, no São Luís. Nesse jogo, a 12 de Novembro de 1972, voltou a sair lesionado, desta vez no joelho direito, pouco depois do início da segunda parte. Não jogou contra a CUF, mas duas semanas depois estava na esquipa que recebeu o Benfica no Municipal de Guimarães (e que perdeu por 2-1). Jorge Gonçalves ainda fez seis jogos (e dois golos, ao Atlético e a Leixões), mas cada vez mancava mais. Era claro que não estava em condições.

A 7 de Janeiro de 1973, antes do intervalo de um jogo com o Beira Mar em casa, teve de desistir. Foram reavaliar-lhe o joelho e andava há quase dois meses a jogar com uma rotura total dos ligamentos do joelho – internos, externos e o cruzado. Acabou ali a época e, ainda que ele não o soubesse, era como se tivesse acabado também a carreira. Jorge Gonçalves foi operado e terá ido recuperar para o Brasil, o que o levou a perder toda a época de 1973/74. Regressou em finais de 1974, aparentemente em condições de reatar a carreira. Regressou à competição a 5 de Janeiro de 1975 – o dia do seu 27º aniversário – e foi ele a dar a prenda aos adeptos: em Espinho, entrou a 20 minutos do final para o lugar de Alfredo e ainda fez o terceiro golo de uma grande recuperação vimaranense, de 0-2 para 3-2. Mário Wilson ainda o fez jogar como titular duas vezes, no empate caseiro com o Sporting (0-0) e na derrota (1-2) frente ao Belenenses, no Restelo. Mas era claro que Jorge Gonçalves não era o mesmo. Despediu-se do campeonato a 16 de Fevereiro de 1975, entrando para o lugar de Tito nos descontos de um empate a três bolas com a Académica, em Coimbra.

No final dessa época o clube organizou-lhe uma festa de despedida, um jogo de homenagem com o FC Porto, precisamente o adversário que mais sentiu na pele a sua qualidade. Jorge Gonçalves ficou a viver em Guimarães e ainda foi treinador – e por vezes treinador-jogador – em equipas do regional, como eram na altura o Felgueiras ou o Caçadores das Taipas. Para ganhar a vida, dedicou-se ao negócio do ferro velho, que o ocupou até ao final da vida, passada no bairro de Nossa Senhora da Conceição. Veio a falecer com 62 anos, em Março de 2010.