Abreu era um médio alto e elegante, que via o jogo lá de cima e impunha a passada larga na Académica. Foi chave na Briosa enquanto a medicina não se tornou mais importante do que o futebol e chegou mesmo a capitanear a seleção B de Portugal.
2017-12-20

1 de 10
1950

O futebol popular, em Olhão, no final dos anos 40 era um autêntico alfobre de talentos. Dali, dos jogos de rapazes, saíram muitos futuros craques da I Divisão. E assim se explicava, em boa parte, a pujança dos clubes algarvios por aqueles tempos. É que aquilo que aconteceu a Abreu repetiu um padrão tantas vezes visto: destacou-se nos jogos populares, entrou para os juniores do Olhanense e assim que teve idade e capacidade estava a jogar na equipa principal do clube. Era o primeiro passo de uma carreira que o levaria a tornar-se uma das referências dos anos 50 na Académica e a jogar com as cores nacionais, pela seleção militar e pela seleção B, de que até foi capitão.

O salto dos juniores para os seniores do Olhanense, Abreu deu-o ainda com 18 anos. A 1 de Outubro de 1950, o espanhol Pepe Lopez chamou-o a integrar o onze que ia receber o FC Porto, em jogo da terceira jornada do campeonato nacional. O Olhanense perdeu por 4-0 frente à equipa que, no final, acabou a prova em segundo lugar, mas Abreu segurou a vaga de titular. Esteve, por exemplo, na vitória por 2-0 frente ao Benfica, no Estádio Padinha, a 3 de Dezembro. E a 21 de Janeiro, já com os 19 anos feitos, marcou o seu primeiro golo, numa derrota em Setúbal, por 2-1, frente ao Vitória FC. Soares tinha falhando um penalti favorável ao Olhanense, logo a abrir, e quando o árbitro, Borges Leal, assinalou um segundo castigo máximo, foi o jovem Abreu quem avançou. Bateu o guardião Batista e tornou-se a partir dali o marcador de bolas paradas da equipa, o que lhe permitiu fazer mais dois golos até ao final do campeonato: um livre direto que abriu a vitória sobre o Estoril (3-2) e um penalti que deu os dois pontos frente ao Boavista (1-0).

Não chegou, ainda assim, para impedir a despromoção do Olhanense, que foi último da tabela do campeonato. Abreu, no entanto, seguiu para Coimbra. Queria estudar medicina – acabou por se formar – e assinou pela Académica. Chegado à Briosa, só entrou na equipa à quarta jornada, uma derrota por 5-3 frente ao Estoril. Mais uma vez, porém, pegou de estaca. Oscar Tellechea, o treinador, nunca mais abdicou dele, até ele sofrer uma lesão grave, na Covilhã, a 30 de Março. Perdeu, assim, os últimos três jogos da época: a vitória (2-1) sobre o Belenenses, com que os estudantes asseguraram o sétimo lugar final, e depois a eliminação da Taça de Portugal, aos pés do mesmo Belenenses. Abreu tornou-se desde o primeiro momento um jogador importante no novo clube, alinhando fosse como médio ou como defesa-direito no WM de Tellechea. No 11º lugar de 1952/53, por exemplo, só falhou dois jogos em toda a época (as derrotas, seguidas, com o FC Porto e o Boavista). E, mesmo tendo começado a jogar apenas em Novembro, recuperou na sofrida permanência de 1953/54 (penúltimo lugar) a capacidade para fazer golos: marcou ao Benfica, na derrota dos estudantes por 1-2.

Aquela era uma Académica em crescimento. O clube trabalhava bem nas camadas jovens, chegou a ser campeão nacional de juniores, e a lei estudantil permitia-lhe reforçar-se com armas que não estavam ao alcance da concorrência. As chegadas de Ramín, Pérides e Faia, por exemplo, permitiram um salto de qualidade na época de 1954/55. Abreu manteve a titularidade, saindo da equipa apenas nas derradeiras sete jornadas de um campeonato que os estudantes terminaram tranquilamente a meio da tabela. De caminho, voltou a marcar ao Benfica (derrota por 3-1). Não estava em campo, porém, quando os estudantes foram afastados pelos encarnados, nas meias-finais da Taça de Portugal (0-6 em Santarém).

Já sem a regularidade de outros anos, Abreu ainda fez mais três épocas intensas. Em Março de 1957 vestiu pela última vez a camisola de uma seleção nacional, alinhando pela equipa B frente à segunda equipa de França. E em 1957/58, após André ter falhado um penalti, contra o Oriental, passou a ser ele a assumir essa responsabilidade também na Académica, acabando por chegar à sua época mais goleadora de sempre, com quatro golos, dois deles a Sporting e Belenenses, em importantes empates, no mês de Dezembro. No Verão de 1958, porém, o futebol tornou-se menos importante na vida de Abreu. Nas quatro épocas até final da carreira, o médico falhou mais jogos do que aqueles em que esteve. Já estava licenciado e tinha em Coimbra a companhia do irmão mais novo, Leonel, um defesa-direito que, no entanto, não viria a revelar a mesma qualidade e influência na equipa.

A 11 de Março de 1962, Francisco Abreu vestia pela última vez a camisola da Briosa, atuando a meio-campo numa vitória por 2-0 frente ao Lusitano de Évora em que o seu irmão foi defesa-direito. Meses antes, a 5 de Novembro, fez o seu último golo, àquele que era o seu adversário predileto: o Benfica. Foi num golo de Abreu, a passe de Crispim, que começou a reviravolta (de 0-1 para 3-1) da Académica face aos então campeões europeus, que levou Vítor Santos a criar a expressão “Pardalitos do Choupal”.