A timidez contrastava com aquele mais de metro e oitenta por esses tempos tão invulgar no futebol nacional. Messias foi um defesa-central forte no jogo aéreo e na marcação, mas sempre sem muita continuidade num Benfica hegemónico.
2017-12-18

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1970

Tinha nome de salvador, era o Messias, mas nunca quis parecer mais do que aquilo que era mesmo: um jogador útil e complementar, modesto por natureza. Como era alto (1,82m) num país de baixinhos, chegava quase sempre mais acima do que os outros, mas nem isso lhe valeu para assegurar uma vaga de defesa central num Benfica que açambarcava tudo o que eram bons jogadores em nome de uma hegemonia que garantiu praticamente sem discussão durante quase duas décadas. Os maiores adversários, Messias tinha-os como amigos, no balneário: o maior problema era jogar no Benfica. E isso, ele nem sempre conseguia, até porque a natureza não lhe dera robustez a condizer com a altura e ele, magrinho, lesionava-se com alguma frequência.

Messias chegou de Moçambique com 19 anos, mas durante muito tempo não passou das reservas, dada a competição de Jacinto, Humberto Coelho ou até Coluna, que por essa altura já jogava a central. Foi graças a uma lesão de Humberto, a 23 de Novembro de 1969, em Setúbal, que Messias viu Otto Glória dar-lhe a estreia. O Benfica perdia por 1-0, fruto de um golo de Guerreiro, e faltavam 35 minutos para o fim da partida. Face à indisponibilidade de Humberto, Messias saltou para dentro do campo, mas já não foi a tempo de impedir a terceira derrota do clube então tricampeão (em apenas nove jornadas). A verdade é que enquanto Messias jogou, o Benfica não sofreu golos: além de se ter mantido esse 0-1 de Setúbal, a equipa ganhou depois por 3-0 ao Celtic Glasgow (estreia europeia de Messias, com prolongamento e eliminação fruto de moeda ao ar) e por 6-0 ao União de Tomar. A 14 de Dezembro, na deslocação ao Barreiro (2-2 com o Barreirense), Humberto voltou ao onze e Messias teve de voltar a esperar.

José Augusto, que substituiu Otto Glória como treinador quando se viu que a época não ia bem encaminhada, não lhe deu um só minuto de jogo. E, no seu primeiro ano em Portugal, Jimmy Hagan não foi muito além disso. O primeiro título de campeão nacional, Messias justificou-o apenas com 20 minutos em campo, na última jornada, em vez de Zeca. Além desse 5-1 à Académica (que já marcara quando Messias entrou), o moçambicano fez mais duas partidas na Taça de Portugal (11-0 ao Luso e 2-0 ao Independente), falhando, no entanto, a final, na qual os encarnados foram batidos pelo Sporting. Hagan, porém, acreditava em Messias: aqueles 20 minutos tinham sido mais do que um prémio. E, depois de o chamar algumas vezes como suplente utilizado para reforçar a defesa em jogos onde o Benfica estava em vantagem, acabaria por promovê-lo a titular, ao lado de Humberto Coelho, em finais de Janeiro de 1972. A ocasião era solene: uma receção ao FC Porto. E Messias portou-se tão bem na vitória encarnada por 1-0 que já não saiu do onze até final da época, terminada com mais um título de campeão nacional, uma Taça de Portugal (3-2 ao Sporting no prolongamento, com Messias em campo) e a presença nas meias-finais da Taça dos Campeões Europeus, onde os encarnados foram eliminados pelo Ajax (0-1 em Amesterdão e 0-0 na Luz).

Foi também na Taça dos Campeões Europeus que o Benfica sofreu, pela primeira vez, um golo com Messias em campo. Aconteceu a 8 de Março de 1972, ao 15º jogo do central moçambicano, e marcou-o Theo Laseroms, do Feyenoord. Fosse como fosse, no final da época, quando saiu a convocatória para a seleção nacional que ia disputar a MiniCopa, no Brasil, lá estava o nome de Messias, entre uma autêntica legião de jogadores do Benfica. E a 18 de Junho de 1972, estreava-se mesmo com a camisola de Portugal, lançado como titular por José Augusto nos 4-1 ao Chile, jogados no Recife. Messias fez os seis jogos de Portugal nessa competição, mas não voltaria a jogar pela seleção após a final, perdida para o Brasil (0-1), no Rio de Janeiro, a 9 de Julho. É que, depois de ter começado a época de 1972/73 como titular do Benfica, o moçambicano lesionou-se em Novembro, Rui Rodrigues recuperou o lugar – e a seleção só voltou a jogar em Março, frente à França, com o belenense Freitas ao lado de Humberto Coelho.

Messias fez, ainda assim, 16 jogos no ano do melhor Benfica de sempre, no que a campeonato diz respeito: 28 vitórias e dois empates em 30 jornadas e mais um tri. Em 1973/74, começou outra vez como titular, mas uma lesão grave, em Dezembro de 1973, voltou a atirá-lo para fora das opções do treinador, que já era Fernando Cabrita. Messias não voltou a jogar nessa época, falhando a final da Taça de Portugal (1-2 com o Sporting, após prolongamento), mas antes disso já fizera o seu primeiro golo com a camisola do Benfica: aconteceu a 19 de Setembro de 1973, a cruzamento de Simões, e valeu uma vitória por 1-0 frente ao Olympiakos, na Luz, em desafio da Taça dos Campeões Europeus. A ausência, desta vez, foi longa: após os 4-1 ao Olhanense, a 16 de Dezembro de 1973, Messias só voltou a jogar no início da época seguinte. Desta vez, porém, Milorad Pavic, o novo treinador, fez dele opção primária para o centro da defesa: Messias estabilizou ao lado de Humberto, alinhando como titular em 21 das 30 jornadas da I Divisão. E se mais não fez foi porque, mais uma vez, entre Outubro e Dezembro, teve de baixar à enfermaria, fruto de lesão.

O moçambicano jogou, a 15 de Junho de 1975, a sua segunda final da Taça de Portugal, mas desta vez o Benfica perdeu por 2-1 com o Boavista de Pedroto. Conseguiu, ainda assim, o seu quarto título de campeão nacional. E a este seguiu-se o quinto, em 1975/76, quando Mário Wilson teve pela frente a difícil tarefa de construir um onze sem Humberto Coelho. Messias foi o mais utilizado dos centrais, tendo Barros e Eurico partilhado a outra vaga, e até marcou aquele que veio a ser o seu único golo no campeonato. A vítima foi Silva Morais, guarda-redes do União de Tomar, que nesse dia 18 de Janeiro saiu da Luz vergado a um pesado 6-1. Acabaria por ser a chegada de Alhinho à Luz a pôr termo ao reinado de Messias, que em 1976/77, com Mortimore no papel de treinador, já pouco jogou. O central moçambicano fez apenas duas partidas em toda a época pelo Benfica (a derrota por 0-2 em Dresden, em Setembro, e um 3-1 em casa ao Leixões, a 19 de Dezembro, um dia depois de ter feito 28 anos). Quando os encarnados festejaram mais um tricampeonato, na Primavera de 1977, já ele estava nos Estados Unidos, atraído pelos dólares da NASL.

Messias foi titular absoluto dos Rochester Lancers (equipa onde também estavam Ibraím, Costa, Artur Jorge ou Manafá) entre inícios de Abril e finais de Junho. A 17 de Abril travou duro duelo com Pelé, num jogo com o Cosmos, que os nova-iorquinos venceram por 2-0. Mas em Julho voltou a Portugal, antes mesmo da disputa dos play-off, para os quais os Lancers se qualificaram. No final do Verão de 1977 foi anunciado como reforço (sonante) do Riopele, equipa fabril dos arredores de Famalicão que acabara de subir à I Divisão e onde também estava Barros, seu ex-colega na defesa do Benfica. Pelos minhotos, Messias ainda fez quatro jogos de campeonato e um da Taça de Portugal, todos entre Outubro e Novembro. Marcou um golo, nos 3-2 ao Barreirense, na Taça, e despediu-se dos relvados com uma derrota: 0-1 com o Belenenses no Restelo, a 26 de Novembro de 1977. Tinha 28 anos. O mundo do futebol não ouviu mais falar dele até se saber que tinha falecido, antes mesmo de completar 50 anos.