Um dos primeiros a brilhar nos três grandes de Portugal, Alhinho foi mais que um defesa-central. Com uma consciência de cidadania muito acima da média, tornou-se polo aglutinador dos que lutavam pelos direitos dos africanos.
2016-01-10

1 de 13
1970

Carlos Alhinho, o sexto de quinze irmãos nascidos da união de Alexandre com Zeferina, foi mais do que o melhor futebolista de uma família que deu mais dois jogadores à I Divisão portuguesa ou que o melhor futebolista cabo-verdiano do Século XX, conforme distinção que recebeu. Veio de Cabo Verde para Portugal com a ideia no estudo, que quis sempre aperfeiçoar-se, mas foi o futebol que o deu a conhecer, porque representou os três grandes – e foi campeão em dois deles –, chegou a internacional e quando se fez treinador tornou-se uma espécie de polo aglutinador de compatriotas. É que Carlos Alhinho, tragicamente desaparecido num acidente difícil de explicar, num elevador, em Angola, com 59 anos, teve sempre uma consciência de cidadania muito acima da média, o que contribuiu para que viesse a tornar-se uma espécie de defensor oficioso dos direitos dos africanos no Portugal saído da revolução.

Desencaminhado para as tropelias atrás de uma bola pelos irmãos mais velhos, Carlos entrou na Académica do Mindelo com onze anos. Mostrava talento, mas interessava-lhe mais ter um curso, tendo ele escolhido que gostaria de ser engenheiro técnico agrário. Foi aí que, sendo a Académica do Mindelo filial da de Coimbra, o miúdo se lembrou de escrever a Jorge Humberto, o conterrâneo cabo-verdiano que tinha regressado à Briosa depois das aventuras italianas, no Inter e no Vicenza, pedindo-lhe que interferisse na sua vinda para o continente. A somar à interferência de Jorge Humberto havia ainda mais um fator a favor: é que Eduardo, um dos irmãos de Carlos, já estava a estudar em Coimbra e podia acolhê-lo. Assim sendo, aos 16 anos, Carlos Alhinho viajou mesmo para Coimbra, onde passou a integrar a equipa de juniores da Académica. Era um tempo em que os estudantes conseguiam renovar frequentemente o seu elenco, tanto era o talento que tinham a germinar nas categorias inferiores, pelo que se tornou inevitável que chegasse a vez de Alhinho. Após cinco rondas seguidas sem ganhar, que levaram a Académica do primeiro para o sétimo lugar da tabela, no Outono de 1968, Mário Wilson foi substituído pelo ex-guarda-redes João Maló como treinador da equipa. Face a uma estreia de arromba – visita ao Benfica –, a primeira aposta de Maló foi em Alhinho, que nesse dia 1 de Dezembro de 1968 se estreou na equipa principal formando dupla de centrais com Belo. Surpresa, a Académica esteve por muito tempo a vencer e só sofre o golo da derrota por 3-2 em cima do apito final. Alhinho, esse, veio para ficar, só saindo da equipa quando o azar lhe bateu à porta.

Foi a 30 de Março de 1969, no jogo em casa com o Benfica, que o jovem defesa-central fraturou o perónio, vendo-se obrigado a sair de maca ainda na primeira parte. Era o fim da época para o promissor futebolista, que assim se viu privado de jogar a final da Taça de Portugal, para a qual a Académica se qualificou, vindo a perder com o Benfica, mas apenas no prolongamento. Alhinho só voltou a jogar em Setembro – e com um parafuso no perónio que anos mais tarde veio a dar que falar. Mas lá chegaremos… Totalista no campeonato de 1969/70, o jovem central chegou à seleção B e estreou-se nas competições europeias ainda em Setembro, com um empate a zero frente ao Kuopio, da Finlândia. A Académica só caiu à terceira eliminatória da Taça das Taças, frente ao Manchester City, sofreu apenas dois golos em seis desafios na prova, e Alhinho fez mesmo nela o seu primeiro golo como sénior, a 26 de Novembro, na vitória em casa por 2-0 contra o Magdeburgo, da RDA. O campeonato não correu particularmente bem, como se vê no 10º lugar final, mas melhores tempos estavam para vir. A chegada de Juca ao comando da equipa lançou as bases para a melhoria de 1970/71, em que Alhinho voltou a ser totalista e os estudantes acabaram no quinto lugar. A 2 de Maio de 1971, na última jornada, fez mesmo o seu primeiro golo no campeonato, mas disso não retirou grandes dividendos, pois a Académica perdeu por 5-1 com o Benfica na Luz.

Nem os três golos de Alhinho (nas vitórias contra V. Guimarães, Belenenses e U. Tomar) em 29 jogos (falhou a visita ao Atlético, em Janeiro de 1972) ajudaram a Académica a evitar a descida de divisão. Com grande empenho de Armando Ferreira e Abraão Sorin, Alhinho transferiu-se em Julho para o Sporting, que por ele pagou 1200 contos, uma verba avultada para aqueles tempos, ainda por cima por um defesa. Em Alvalade, ainda assim, começou por ser alternativa a Bastos e José Carlos: Ronnie Allen estreou-o a 22 de Outubro de 1972, num empate a zero no Montijo, mas só a partir de Janeiro fez dele titular com regularidade. Mesmo assim, Alhinho ainda foi a tempo de ser decisivo no primeiro troféu da sua carreira, já com Mário Lino em vez do treinador inglês: a cruzamento de Wagner, fez o golo da vitória (1-0) frente à CUF, na meia-final da Taça de Portugal, jogando depois os 90 minutos da final, ganha por 3-2 ao V. Setúbal. O destaque permitiu-lhe ainda chegar à seleção nacional, pela qual se estreou a 28 de Março de 1973, num empate a uma bola com a Irlanda do Norte, em Coventry, a contar para a qualificação do Mundial de 1974, na RFA. Foi José Augusto quem deu a primeira de 14 internacionalizações a um jogador que se manteve na equipa até Maio de 1982, despedindo-se numa derrota por 3-1 contra o Brasil, em São Luís do Maranhão.

A nível de clubes, a equipa do Sporting que ganhou a Taça de Portugal de 1973 era já a base daquela que em 1974 viria a ser campeã nacional, a renovar a vitória na Taça de Portugal e a atingir a meia-final da Taça das Taças. Alhinho só falhou um dos 43 desafios que o Sporting jogou nessa época (a vitória contra o Boavista, em Alvalade, nos quartos-de-final da Taça de Portugal, em Maio), participando na segunda final da prova, desta vez ganha ao Benfica, por 2-1, e sendo apanhado em Magdeburgo, onde o Sporting jogava a meia-final da competição europeia, no 25 de Abril de 1974. Alhinho manteve o estatuto de intocável para a época seguinte, onde jogou todos os jogos, mas esse primeiro Sporting pós-revolução transformou-se numa confusão permanente, resultando na perda da superioridade que a equipa revelara. Finda essa época, Alhinho esteve com um pé no Atlético de Madrid, que se ofereceu para pagar por ele 3500 contos. Chegou a deslocar-se à capital espanhola, onde fez exames médicos que motivaram uma confusão enorme, porque lhe descobriram o tal parafuso no perónio, que vinha da fratura de 1969. Que assim não podia ser, diziam de Madrid. Que podia, sim senhores, pois desde essa altura Alhinho falhara apenas um jogo em cinco campeonatos, mais 13 no seu ano de afirmação pelo Sporting, mas nunca por questões físicas. Afinal, o que se passou foi muito mais simples: o Atlético queria mesmo era o brasileiro Luís Pereira, contratado ao Palmeiras.

Seja porque houve uma interferência excessiva do empresário do defesa brasileiro, como se escreveu nessa altura na imprensa portuguesa, ou porque as opções políticas de Alhinho não eram bem-vistas numa Espanha ainda franquista, como também chegou a ser dito, o cabo-verdiano voltou a Portugal para se tornar uma peça na estratégia de afirmação do FC Porto. Com dinheiro para gastar, os dragões aproveitaram para o contratar – a ele e ao seu grande amigo Dinis – sem dar cavaco ao Sporting. Eram os novos tempos, em que, dentro do país, os jogadores eram livres de decidir o futuro quando acabavam os contratos. Do Sporting vieram acusações de “atos de gangsterismo”, mas os dirigentes portistas retorquiram com vários casos em que os leões tinham feito algo de semelhante, pelo que o caso não foi além de um bate-boca para animar o defeso. Alhinho só se estreou na equipa de Stankovic a 26 de Outubro, no Bessa, numa derrota frente ao Boavista (1-0). Finda a época sem deixar marcas, o internacional seguiu mesmo para a Liga espanhola, onde assinou pelo Betis de Sevilha. Na Andaluzia, contudo, nunca foi feliz, pois estava tapado pelo húngaro Ladinski e pelo holandês Mühren. Como só podiam jogar dois estrangeiros, Alhinho acabou por regressar a Portugal, assinando então pelo Benfica. Estreou-se na equipa de John Mortimore a 24 de Outubro de 1976, também contra o Boavista, mas com uma vitória por 2-1, e haveria de dar um contributo importante para mais um título de campeão nacional.

Mesmo só tendo falhado três jogos da estreia até final da época, Alhinho era um permanente insatisfeito, que queria conhecer novas realidades e também, porque não, engrossar a conta bancária. Após o final da primeira época no Benfica teve um convite da Bélgica, vindo do Racing White de Molenbeek, que tinha ficado em quarto lugar na última Liga e fizera carreira na Taça UEFA. Aceitou e, mesmo tendo a carreira do clube sido uma desilusão, aproveitou para dar os primeiros passos como técnico dos escalões de formação, fazendo uso do diploma de treinador que tinha há uns anos. A Bélgica, porém, não era para ele e em 1978 Alhinho voltou ao Benfica de Mortimore. Na Luz, veio a ser mais uma vez campeão nacional – ainda que já numa fase de menor utilização, com o húngaro Lajos Baroti, em 1981 – e a ganhar duas Taças de Portugal, em 1979/80 e 1980/81. Em nenhuma delas, porém, jogou a final. Aos 32 anos, percebeu que era altura de descer um degrau para continuar ativo e aceitou o convite do Portimonense. Ali, transformado em médio, viveu uma espécie de segunda juventude, que até o fez regressar à seleção, três anos depois da última convocatória. Contribuiu com seis golos – entre eles um bis num 2-1 ao Sp. Braga – para o sexto lugar do Portimonense de Artur Jorge em 1981/82 e com mais três na campanha de 1982/83, que os algarvios acabaram na nona posição.

E em 1983 pôde finalmente cumprir um sonho: assinou pelo Farense onde jogou pela primeira vez ao lado de um dos irmãos mais novos, Alexandre. A 3 de Setembro de 1983, estiveram ambos numa vitória por 2-1 frente ao V. Setúbal. Sete meses depois, a 8 de Abril de 1984, Alhinho despedia-se da I Divisão, jogando os últimos sete minutos de um empate em casa (1-1) frente ao Varzim. Seguia-se uma carreira de treinador iniciada de pronto no Lusitano de Évora, na II Divisão, mas que o levaria a honras várias, como as de dirigir as seleções de Cabo Verde e Angola (que qualificou pela primeira vez para a fase final da Taça de África das Nações, em 1996), a trabalhar também em clubes de Espanha, Angola, Qatar, Bahrain, Marrocos e Arábia Saudita e a conduzir um Académico de Viseu de raiz cabo-verdiana na I Divisão portuguesa de 1988/89. Alhinho faleceu em Benguela, em Maio de 2008, quando ia assinar contrato com o 1º de Maio, clube local: caiu do sexto andar no poço do elevador do Hotel M’ombaka, que foi depois encerrado por evidente falta de condições de segurança.