Falar de Ion Timofte é falar de um pé esquerdo capaz de fazer coisas tão maravilhosas como contraditórias. De belos rendilhados a meio-campo, daqueles que tiravam os adversários do caminho, a potentes remates do meio da rua.
2017-12-16

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1990

Há remates fortes, há remates colocados e havia os remates de Timofte. Que eram fortes, colocados e longos. Longos porque pareciam nunca chegar ao fim, como se ganhassem potência a meio do caminho. Foi muito à conta destes remates que Timofte fez carreira no futebol português, primeiro como jovem sensação goleadora no FC Porto de Carlos Alberto Silva e depois como força inspiradora do Boavista de Jaime Pacheco, do qual só teve de abdicar antes de voltar a ser campeão nacional porque a partir de determinada altura o físico deixou de responder àquilo que o pé esquerdo fazia em campo.

Natural de Anina, no condado de Caras Severin, na zona sudoeste da Roménia, perto da fronteira com a Sérvia, Ion Timofte começou a jogar pelo Minerul local, na III Divisão, com 16 anos, numa altura em que as equipas daquele escalão tinham, por regra, de colocar dois juniores a jogar na equipa principal. O talento do rapaz, porém, faria com que ele se destacasse em quaisquer circunstâncias. E depressa ele chamou a atenção de clubes mais fortes: em Timisoara, um pouco mais a Norte, começaram a ouvir falar dele. Em 1988, o Politehnica local, que liderava a II Divisão, quis levá-lo para ajudar no esforço de subida, mas os responsáveis do Minerul não aceitaram. Como resultado, Timofte acabou no CSM Resita, clube vizinho, como forma de facilitar a transferência. O Poli subiu mesmo de divisão e no verão de 1989 o jogador chegou finalmente a um palco mais de acordo com a sua qualidade: assinou pela equipa violeta e foi uma das armas com que ela logrou uma qualificação europeia logo no ano de regresso ao escalão principal.

Timofte fez nove golos no primeiro campeonato, jogando como segundo avançado. No segundo melhorou a marca: fez dez. Mas nem foi só isso a camar a atenção para ele. No início da época, o Poli eliminou o Atlético de Madrid, com Paulo Futre, Baltazar, Donato e Tomislav Ivic da Taça UEFA: 2-0 em Timisoara e 0-1 em Madrid. É verdade que na segunda eliminatória os romenos se viram impotentes para travar a avalanche ofensiva do Sporting e, com o 0-7 de Alvalade – a primeira vez que Timofte jogou em Portugal – a coisas ficaram logo resolvidas. Mas em Abril Mircea Radulescu deu a Timofte a estreia na seleção: entrou para o lugar de Raducioiu, a cinco minutos do fim de um empate a zero com a Suíça, em Neuchatel. Duas semanas depois, na sua segunda internacionalização, num particular, fez um golo: o jogo foi em Cáceres, contra a Espanha, a Roménia ganhou por 2-0 e nas bancadas estava um emissário do FC Porto. Pinto da Costa andava à procura de treinador para suceder a Artur Jorge, falou com Mircea Lucescu, que lhe recomendara o jovem louro do Poli Timisoara.

Estranhas foram as condições em que Timofte chegou ao Porto: veio por empréstimo de três anos. Lucescu, esse, acabou por não vir. Quem substituiu Artur Jorge foi o brasileiro Carlos Alberto Silva, mas isso não impediu uma primeira época retumbante do romeno. Estreou-se a 24 de Agosto de 1991 e logo com um golo, na vitória por 2-0 sobre o Estoril, no António Coimbra da Mota. O treinador brasileiro utilizava Timofte a partir da esquerda do meio-campo, o que o obrigava a mais algum trabalho defensivo do que aquele a que estava habituado. Mas esse facto não o impediu de marcar 13 golos na primeira época. Desses, alguns foram especiais, como os dois ao Benfica. A 29 de Janeiro de 1992, pertenceu-lhe o golo solitário na vitória por 1-0 na segunda mão da Supertaça, nas Antas, que permitiu levar a prova para finalíssima – já jogada na época seguinte – e a 22 de Março saiu do banco para ocupar o lugar de Jorge Couto nos últimos 25 minutos de jogo e fez em cima do minuto 90 o golo da vitória portista (3-2). A sete jornadas do fim, o FC Porto aumentava para sete pontos a vantagem sobre os encarnados e dava um passo decisivo para a conquista do troféu.

A jogar num campeonato periférico, Timofte foi perdendo a carruagem que levava os jogadores à seleção romena, por essa altura cheia de estrelas que atuavam nas maiores Ligas europeias. Foi por isso que nunca esteve numa grande competição de seleções e encerrou a carreira com apenas dez internacionalizações – e tinha sete no final da época de 1991/92. A época de 1992/93 começou-a tarde. Por causa de uma lesão, só regressou a 8 de Novembro, alinhando na última meia-hora de uma receção ao Benfica. E a cinco minutos do fim, de penalti, fez o golo solitário de mais uma vitória sobre as águias. Aos onze golos que fez nesse campeonato, juntou mais dois na Taça de Portugal (um deles ao Benfica, forçando uma segunda partida mas não impedindo a eliminação nos oitavos-de-final) e um na Liga dos Campeões (ao IFK Gotemburgo). Especial foi o que marcou a 30 de Maio, em Aveiro: o FC Porto ganhou por 1-0 ao Beira Mar e, como o Benfica não conseguiu ganhar no Estoril, garantiu a alegria matemática de mais um campeonato, a uma jornada do fim.

A saída de Carlos Alberto Silva para abrir alas ao regresso de Tomislav Ivic, no Verão de 1993, não correu da melhor forma ao FC Porto. Timofte, mais uma vez, magoou-se no início da época e pouco jogou com Ivic: depois da partida inaugural, na Supertaça, só esteve disponível em finais de Novembro, numa épica vitória por 1-0 frente ao Sporting, em Alvalade, posteriormente classificada como “massacre de futebol defensivo”. O campeonato, contudo, correu mal, e em Janeiro Ivic deu lugar a Bobby Robson, que antes tinha sido despedido de Alvalade. Os dragões ainda foram a tempo de acabar em segundo lugar, atrás do Benfica, e de ganhar a Taça de Portugal, numa finalíssima contra o Sporting. Timofte foi titular nos dois jogos mas, no final da época, quando era altura de acionar a cláusula de opção para ficar com o seu passe, o FC Porto não o fez. Mexeu-se o Boavista, clube vizinho, e o romeno pôde continuar na idade do Porto, mas de xadrez vestido. E a 23 de Setembro, à terceira vez que jogou com a nova camisola, deixou marcas: bis ao Sporting, num empate (2-2) em Alvalade.

Aquele Boavista, dirigido por Manuel José, ainda andava à procura do crescimento. Na primeira época, quedou-se pelo nono lugar da tabela, com quatro golos apenas do esquerdino romeno (mais um na Taça de Portugal). Seria melhor o ano seguinte, com a quarta posição final a prenunciar que vinham aí grandes feitos. Timofte acabou a temporada de 1995/96 com oito golos (um deles na Taça de Portugal) e pôde até fazer os seus últimos dois jogos pela seleção, o que lhe permitiu acalentar alguma esperança de marcar presença na lista final que ia jogar a fase final do Euro’96. Não aconteceu assim. A época de 1995/96 acabou por ficar marcada, para ele, pelo adeus à seleção e pela única expulsão da sua carreira: a 17 de Setembro de 1995, Jorge Coroado mostrou-lhe dois amarelos numa vitória por 3-2 em Chaves.

Ainda assim, nada fazia prever o ocaso na carreira de Timofte em 1996/97. Ainda não chegara aos 30 anos, mas a verdade é que com a saída de Manuel José o romeno desapareceu do onze do Boavista. Com Zoran Filipovic, João Alves e Mário Reis – os treinadores que se sucederam no comando da equipa nessa época – só foi titular uma vez, nuns 7-0 ao Gil Vicente, a 27 de Abril de 1997. Era um jogador de físico estranho: parecia pesado, lento nos movimentos e nem ao banco foi na final da Taça de Portugal, em que o Boavista bateu o Benfica por 3-2. Contribuíra para a equipa lá chegar, porém, com três presenças, sempre como suplente utilizado, e um golo, nos 4-0 ao Oriental, na quinta eliminatória. Vieram os 30 anos e, mesmo tendo feito um dos golos na vitória por 2-0 sobre o FC Porto com que a equipa abriu a época e a disputa da Supertaça, Timofte não mudava de estatuto. Até que Mário Reis saiu e ao Bessa chegou Jaime Pacheco. Tudo mudou.

Jaime Pacheco estreou-se em meados de Dezembro, com um empate a zero no terreno do Varzim, que deixava o Boavista na 15ª posição da tabela. Timofte foi titular nesse jogo, como haveria de ser em todos aqueles em que estava em condições de dar o seu contributo, até final da época. E fez nove golos (dos dez que marcou nesse campeonato) nas 21 jornadas que ainda havia por jogar, dois dos quais logo num dérbi da cidade, em vésperas de Natal, em que o FC Porto ganhou por 4-3 no Bessa. O Boavista ainda acabou a Liga em sexto lugar. E Pacheco tinha recuperado aquela que podia ser uma das suas pedras-base no ataque a posições superiores. No segundo lugar de 1998/99, Timofte não acabou muitos jogos, mas começou-os quase todos: falhou apenas duas partidas e fez 15 golos, aos quais juntou mais um na Taça de Portugal. Fez golos, por exemplo, nos 2-0 com que o Boavista venceu o FC Porto nas Antas, nos 2-1 com que a equipa se impôs ao Benfica no Bessa e nos dois empates (2-2 em casa e 1-1 em Alvalade) frente ao Sporting.

O prémio imediato foi a qualificação para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões, frente ao Brondby. Timofte ainda fez esses dois jogos, bem como outros três na fase de grupos, mas em 1999/00 já não foi capaz de dar o mesmo rendimento. Ainda fez dois golos nessa época, um ao Feyenoord, a valer um empate (1-1) na Banheira de Roterdão, outro nos 8-2 ao U. Paredes, na Taça de Portugal, que a 12 de Janeiro de 2000 viria a ser o seu último golo como profissional. Despediu-se a 14 de Maio, alinhando em vez de Douala nos últimos 23 minutos de um empate (2-2) com o SC Braga, no Bessa, que manteve o Boavista em quarto na tabela final. Já não estaria no plantel que, na época seguinte, conquistou o histórico título de campeão. Timofte retirou-se e ainda veio a assumir funções de dirigente, tanto no Poli Timisoara como no Boavista (diretor-executivo, em 2015/16). Atualmente vive na Roménia.