Começou com extremo-esquerdo, mas tinha uma consciência tática muito acima da média, que levou os treinadores a puxá-lo para posições mais interiores a meio-campo. Foi um líder muito para lá do currículo impressionante em títulos pelo Benfica.
2017-12-14

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1962

O físico não lhe adivinhava carreira no futebol. Era baixote, mas compensava o handicap com uma habilidade fora do normal para conduzir a bola com os dois pés: o direito, porque era um destro natural, mas também o esquerdo, que se habituou a usar mais em campo. Driblava como ninguém, porque além de saber fintar também sabia parar. Simões conhecia os segredos do drible utilitário, feito em benefício da equipa e não do artista, e utilizou-os para ajudar a construir a lenda de Eusébio, dos Magriços e do Benfica europeu.

Nos 14 anos em que jogou no Benfica, antes de arriscar no “soccer” dos Estados Unidos, ganhou dez campeonatos nacionais, cinco Taças de Portugal e uma Taça dos Campeões Europeus. Membro destacado da seleção que brilhou no Mundial de 1966, mostrou consciência social ao afrontar o poder dos clubes sobre os futebolistas, em cujo sindicato se envolveu desde o início. Ainda no ativo, tornou-se deputado pelo CDS. Depois, fez-se treinador, desenrascou-se como dirigente e reconverteu-se como comentador, função que, passados os 70 anos, o ocupa por estes dias.

António Simões Costa nasceu a 14 de Dezembro de 1943, em Corroios. Tinha, como o irmão, Aníbal, jeito para o futebol, o que levou os dirigentes do Almada a pedirem à dona Palmira, mãe dos petizes, para os inscreverem nas camadas jovens. Aníbal preferiu continuar a estudar, mas António aceitou, trocando a escola pelo emprego numa firma de máquinas de escrever. E depressa chamou a atenção dos grandes clubes de Lisboa. Foi mostrar-se ao Belenenses, que lhe pagava os transportes e 15 escudos por treino. Gostaram, quiseram ficar com ele, mas o Almada pediu 50 contos pela transferência, desde logo inviabilizada. Pensava o Sporting ter torneado a dificuldade com uma inovadora proposta – Simões treinava-se em Alvalade, recebia 750 escudos por mês, mas ao fim-de-semana ia jogar pelo Almada – até que o Benfica se antecipou. Ao ver um Almada-Montijo em juniores, de olho noutros dois rapazes, Fernando Caiado ficou maravilhado com o pequeno Simões. Fez-se o negócio e em finais de 1959 o esquerdino foi para os juniores do Benfica.

O facto de ter feito parte da seleção nacional de juniores que Pedroto conduziu ao título europeu da categoria, em Abril de 1961, não lhe chegou para integrar a equipa do Benfica que ganhou a Taça dos Campeões, mês e meio depois. A 20 de Setembro, zangado com a derrota copiosa sofrida na segunda mão da Taça Intercontinental, contra o Peñarol (0-5, depois do 1-0 na Luz), Bela Gutmann incluiu os jovens Simões e Eusébio em vez de Cavém e Santana no desempate. Voltou a perder, agora por 2-1, mas os miúdos deram boa conta de si. Eusébio começou o campeonato a titular, na semana seguinte, mas Simões só voltou a ter uma oportunidade em Novembro, contra o Caldas, na Taça de Portugal e a extremo-direito. Fez, ainda assim, um golo, na vitória encarnada por 5-3. Pela vaga na esquerda teve que esperar até Janeiro, mesmo tendo voltado a marcar nos 11-0 da segunda mão. Cavém foi expulso em Aveiro e, contra o Sporting, Simões estreou-se no campeonato nacional e na posição que haveria de celebrizá-lo. Não mais a largou, completando 311 desafios (com 45 golos) pelo Benfica na I Divisão.

Embora tenha acabado o primeiro campeonato em terceiro lugar, Simões esteve nessa época nas finais da Taça de Portugal (3-0 ao Vitória de Setúbal) e da Taça dos Campeões Europeus (5-3 ao Real Madrid). O sucesso levou-o à seleção em Maio de 1962, com apenas 18 anos: pela mão de Armando Ferreira, entrou para o lugar de Serafim num particular com o Brasil. Na seleção andou 11 anos, fazendo todos os jogos de qualificação e da fase final do Mundial de 1966, no qual até marcou de cabeça ao brasileiro Manga. Aliás, dois dos três golos de Simões nas suas 46 internacionalizações foram feitos de cabeça – curioso para quem era conhecido como “Rato Mickey” e mede apenas 1,73m. O outro pontuou a sua despedida da equipa das quinas, em Outubro de 1973, num empate caseiro com a Bulgária (2-2), numa altura em que a equipa já não tinha hipótese de se qualificar para o Mundial. Mas não nos adiantemos na história, para não corrermos o risco de deixar de fora muitas conquistas.

Terminada a época de estreia como titular do Benfica, Simões manteve o estatuto com a chegada de Fernando Riera. Em 1962/63 fez o campeonato mais goleador da carreira – dez golos, incluindo dois decisivos nas vitórias frente ao FC Porto nas Antas e ao Sporting em Alvalade – tornando-se pela primeira vez campeão nacional. E, mesmo sem golos na caminhada até à decisão, repetiu a presença na final da Taça dos Campeões Europeus, na qual o Benfica foi batido pelo Milan, em Wembley (1-2). Não foi a única final que jogou nessa época: em Setembro e Outubro de 1962 já tinha sido escolha inicial para os dois jogos com o Santos (2-3 no Maracanã e 2-5 na Luz), na decisão de mais uma Taça Intercontinental. Nesse aspeto correr-lhe-ia melhor 1963/64: mais uma vez campeão nacional, na equipa agora liderada pelo húngaro Lajos Czeiler, e vitória retumbante (6-2 ao FC Porto) na final da Taça de Portugal, com um golo e uma assistência. Nesse ano, mesmo tendo marcado menos vezes no campeonato (só cinco golos), Simões juntou-lhes mais dois na Taça de Portugal e outros tantos na Taça dos Campeões, prova na qual, porém, o Benfica não passou dos oitavos-de-final.

Menos utilizado no campeonato de 1964/65 (mais um título, com o novo treinador, Elek Schwartz, a dar jogos na ponta esquerda a Serafim e Pedras), Simões manteve a importância internacional. Não falhou um minuto na caminhada até à final da Taça dos Campeões Europeus, marcando de caminho dois golos, um deles na goleada (5-1) ao Real Madrid, em Fevereiro. Na final, porém, o Benfica voltaria a ser infeliz: 0-1 com o Inter em San Siro, no jogo que o guarda-redes Costa Pereira abandonou, lesionado, forçando o central Germano a ir para a baliza. Costa Pereira perdeu as redes para Nascimento na ponta final da época, voltando apenas a tempo da final da Taça de Portugal, já Julho tinha começado. Aí, porém, com Simões a jogar os 90 minutos, o Benfica voltou a baquear: 1-3 frente ao Vitória de Setúbal.

Quem sabe se para fazer face à maldição das finais, o Benfica recuperou Bela Gutmann, o treinador que tinha sido bicampeão europeu. A coisa, no entanto, não correu bem: a equipa encarnada falhou pela primeira vez o tetracampeonato, acabando atrás do Sporting, e ficou-se nos quartos-de-final tanto da Taça de Portugal como da Taça dos Campeões Europeus, afastada pelo SC Braga e pelo Manchester United. Simões fez sete golos, todos no campeonato, e face à quebra europeia do Benfica talvez poucos esperassem o que veio a passar-se na fase final do Mundial, em que a seleção era estreante. Ali, sempre com ele à esquerda, os Magriços foram até às meias-finais, regressando a casa como heróis com um terceiro lugar que elevava muito as expectativas dos adeptos para as provas que se seguiam. Aquela haveria, contudo, de ser a última participação de Simões e de todos os da sua geração na fase final de uma grande competição.

O fracasso de Gutmann deu lugar ao regresso de Riera, que levou o Benfica a mais um título nacional, em 1966/67. Simões começava a ser cada vez mais requisitado para fazer terceiro médio num 4x2x4 que se aproximava do 4x3x3 – processo que só se completaria na época seguinte, quando Otto Glória, que entretanto tomara conta da equipa do Benfica, quis fazer dele o seu Zagallo. Disso se ressentiu necessariamente a produção goleadora do jogador: só quatro golos (três no campeonato e um na Taça de Portugal) em 1966/67 e apenas um em 1967/68, a época em que somou a mais um título de campeão nacional a sua última presença numa final da Taça dos Campeões Europeus. Em Wembley, onde dois anos antes já perdera o acesso à final do Mundial, Simões voltou a sair derrotado, desta vez pelo Manchester United (4-1, ainda que apenas no prolongamento). O Benfica europeu entrava ali em hibernação. Restava-lhe a incontestável supremacia nacional.

Tricampeão pela segunda vez com Otto Glória em 1968/69, Simões voltou a celebrar um golo importante nessa época: na final da Taça de Portugal, o Benfica perdia com a Académica (1-0) quando, a cinco minutos do fim, foi ele o mais rápido a chegar à bola para uma recarga a um primeiro remate de Eusébio. Fez o 1-1 e levou o jogo para prolongamento, no qual um golo de Eusébio garantiu que a taça ia para a Luz. E, mesmo tendo falhado pela segunda vez o tetra – o Sporting foi campeão de 1969/70 – Simões repetiu nessa época a vitória na final da Taça de Portugal: desta vez 3-1 aos leões, com dois golos de Artur Jorge e um de Torres. Já foi ele a erguer a taça, pois sucedera a Coluna – suplente desde a substituição de Otto Glória por José Augusto, a meio da época – como capitão de equipa. E já foi ele o capitão de Jimmy Hagan no terceiro tricampeonato da sua carreira. Sob os comandos do treinador inglês, Simões foi, com Toni e o guarda-redes José Henrique, o único a entrar como titular em todos os jogos do arranque mais bem-sucedido na história do campeonato nacional: 23 vitórias seguidas nas primeiras 23 jornadas de 1972/73, assegurando logo ali, em Março, a certeza matemática do título. Até final, aquele Benfica cedeu apenas dois empates.

Nos três anos com Hagan, porém, o Benfica pouco mais ganhou dos que os campeonatos. Ainda esteve em duas finais da Taça de Portugal, perdendo uma (1-4 com o Sporting, em 1971) e ganhando outra (3-2 ao Sporting, após prolongamento, em 1972). Na segunda, Simões não jogou: lesionara-se em Março, o que o impediu também de jogar as meias-finais da Taça dos Campeões Europeus (0-1 e 0-0 com o Ajax, na melhor performance europeia do Benfica de Hagan) e de estar na Mini-Copa, uma espécie de Mundalito organizado pelo Brasil onde a equipa portuguesa chegou à final. Com a saída de Hagan, no arranque da época de 1973/74, o Benfica caiu na desorganização e, pela segunda vez na sua carreira, Simões acabou uma época sem ganhar um único troféu. A última oportunidade perdeu-a a 9 de Junho, na final da Taça de Portugal, em que os encarnados foram batidos (1-2 após prolongamento) pelo Sporting, que tinha sido campeão, mas já libertara Yazalde para jogar o Mundial pela Argentina.

Depois disso, Simões ainda foi pela décima vez campeão, capitaneando em 26 dos 30 desafios do Benfica em 1974/75, prova durante a qual foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, como independente nas listas do CDS. A escolha da direita na vida foi, para quem alinhara à esquerda no campo por tantos anos, mal compreendida por alguns adeptos, que se deixaram levar pelo momento político e chegaram a apertá-lo num Benfica-CUF, em Março de 1975. Simões continuou a pensar pela própria cabeça. Já tinha provado que o fazia, por exemplo, em Novembro de 1967, quando perguntou ao diretor do futebol do Benfica quando é que o clube ia pagar os salários em atraso. Somado a uma entrevista ao “Século Ilustrado”, o incidente redundou na suspensão por um mês, que o jogador contestou através do então jovem advogado Jorge Sampaio. As coisas chegaram a azedar, com exigências de indemnizações de parte a parte e o Sporting interessado, até que tudo resultou numa renovação de contrato, passando Simões a ser o terceiro mais bem pago na Luz. E os atrasos nos pagamentos não voltaram a verificar-se tão cedo.

Após o final do campeonato de 1974/75, porém, Simões deixou mesmo o Benfica. A 11 de Maio de 1975, quando faltavam 18 minutos para acabar o jogo da consagração dos campeões, Pavic substituiu-o por Jordão. Simões já não ficou para jogar a fase decisiva da Taça de Portugal, cuja final o Benfica perderia para o Boavista, em Junho. A 23 de Maio estava a entrar no Nickerson Field com a camisola dos Boston Minutemen, da North American Soccer League, pontuando a estreia com uma vitória por 3-0 sobre os Los Angeles Aztecs. Nos defesos americanos, ainda jogou pelo Estoril de José Torres e pelo União de Tomar de Eusébio. Despediu-se do campeonato da I Divisão a 4 de Abril de 1976, num empate caseiro do Estoril frente ao Vitória de Setúbal (1-1). Três semanas antes tinha defrontado (e perdido por 4-0, com hat-trick de Jordão) o Benfica, cuja camisola aprendera a honrar.

Mas era nos Estados Unidos que optara por se fixar. Esteve nos San Jose Earthquakes e nos Dallas Tornado antes de a NASL falir e de enveredar pelo futebol indoor: defendeu as cores dos Detroit Lightning, dos Chicago Horizons e dos Kansas City Comets na Major Indoor Soccer League. Deixou de jogar aos 38 anos, mas manteve as ligações ao futebol e aos Estados Unidos, onde sempre foi Tony e não António. Como treinador, ajudou Francisco Marcos, um português radicado no Texas, na reconstrução do futebol nos EUA: os dois foram pioneiros da Southwest Soccer League, semente original da atual Major League Soccer. De regresso a Portugal, Simões ainda trabalhou com Oliveira na seleção nacional, com Nelo Vingada no Marítimo e no Golfo Pérsico, antes de se dedicar ao trabalho de gabinetes, como diretor do Benfica de Vilarinho e Vieira.