Cresceu como esperança do Partizan, mas não se impôs. O desmoronamento da Jugoslávia trouxe-o para Portugal e foi no Farense que passou mais tempo durante a carreira. Acabou por se fixar por cá e dar um filho à seleção nacional de basquetebol.
2017-12-12

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1984

Milonja Djukic parece ser um daqueles futebolistas para quem quanto mais duro e difícil, melhor. É verdade que, acabada a carreira no Farense, escolheu o Algarve para se estabelecer, o que indica ser sensível aos prazeres da vida. Mas em campo era outra coisa. Um portento de força, era um daqueles avançados indestrutíveis, de lutar por cada bola, de impor o físico no corpo-a-corpo. Chegou a Portugal ainda jovem, com 25 anos, numa altura em que a Jugoslávia se desmoronava, depois de ter jogado por clubes sérvios, montenegrinos e eslovenos e de uma passagem breve pela Turquia. E durante sete épocas foi uma referência de um Farense que, no tempo dele, chegou a ser europeu.

Natural de Berane, a antiga cidade de Ivangrado, no que é hoje a República do Montenegro, Milonja Djukic começou a jogar futebol no Crvena Stijena, dos arredores de Podgorica, a maior cidade das redondezas. Cedo se destacou e conseguiu entrada no Partizan, um dos dois maiores clubes de Belgrado. E a verdade é que aos 19 anos já fazia parelha com Mance, outro jovem promissor, no ataque dos alvi-negros. Mance dava imprevisibilidade e criatividade, que Djukic complementava com presença na área e pragmatismo. Finalizada a temporada em terceiro lugar, Djukic chegou ao fim com cinco golos, dois dos quais num jogo épico, um 4-1 ao Hajduk Split, jogado no meio de um enorme nevão. Um desafio que vale a pena recordar neste resumo: (https://www.youtube.com/watch?v=3UHYuwefT4I).

À segunda época, mesmo perdendo algum protagonismo na equipa, Djukic ganhou aquele que viria a ser o seu único título de campeão jugoslavo. Foi, ainda assim, um título demorado. No final da época, o Partizan e o Crvena Zvezda acabaram com os mesmos pontos, com vantagem para os alvi-negros, mas a Federação suspeitou de corrupção e mandou repetir seis jogos da última jornada. O Partizan recusou-se a repetir o seu jogo, em que vencera o FK Zeljeznicar, e em consequência disso a Federação declarou campeão o Crvena Zvezda. Uma decisão que veio a ser revertida um ano depois, o que permitiu ao Partizan considerar-se campeão jugoslavo daquela época. Por essa altura, porém, já Djukic andava num périplo pelo país em busca de afirmação. Foi campeão da II Divisão com o Vojvodina, em 1986/87, e ainda iniciou a nova época em Novi Sad, ao lado de outros jogadores que vieram depois parar a Portugal, como Vujacic, Gacesa ou Milovac, mas no Inverno optou por se aproximar de casa e assinou pelo Sutjeska Niksic. Ali, apesar da despromoção, destacou-se, com sete golos na segunda metade da época, o que lhe permitiu o regresso ao Partizan.

E apesar de ter feito cinco golos e de ter ajudado a ganhar a Taça da Jugoslávia (mesmo não alinhando nos 6-1 ao Velez Mostar com que a equipa ganhou a final), Djukic foi uma das vítimas do modesto sexto lugar que o Partizan obteve na Liga. Ainda passou um ano no Olimpija Ljubljana, no que hoje é a Eslovénia, antes de se ver envolvido numa rocambolesca transferência para a Turquia. O Trabzonspor pagou dez milhões de dólares a um empresário por três jugoslavos, dos quais só Djukic veio verdadeiramente a render alguma coisa: na Turquia, ainda fez seis golos na Liga, mas três na primeira eliminatória das provas europeias, aos irlandeses do Bray Wanderers, mas a verdade é que um ano depois estava a chegar ao Farense como jogador livre. Estreou-se oficialmente a 18 de Agosto de 1991, lançado por Paco Fortes para o lugar de Mané nos últimos 12 minutos da vitória por 3-1 sobre o Marítmo com que os algarvios abriram o campeonato. Só foi titular à décima jornada, a 3 de Novembro, em Guimarães, onde apesar da derrota (3-1) fez o seu primeiro golo no campeonato português.

Autor de mais dois golos nesse primeiro campeonato – e um na Taça de Portugal – Djukic não era um goleador frequente, mas deixava tudo em campo e tornara-se uma das imagens do Farense de Paco Fortes: aguerrido, como se viu nos dois empates arrancados nessa época ao Benfica ou no 0-0 a que forçou o FC Porto no São Luís.

A segunda época foi, nesse aspeto, melhor, com seis golos (entre eles o primeiro bis, ao GD Chaves, em Novembro de 1992) e uma vitória por 1-0 sobre o FC Porto em casa. O Farense repetiu o sexto lugar final e Djukic continuou a trabalhar em prol do coletivo: em 1993/94 fez só cinco golos, fruto até de uma lesão frente ao Estrela da Amadora, que lhe roubou quase dois meses de campeonato, mas voltou a ganhar ao FC Porto (1-0) e a empatar com o Benfica (0-0) em casa. E em 1994/95, mesmo vendo baixar o seu pecúlio goleador para apenas três golos, teve a alegria de marcar um no empate (1-1) com o Sporting em Alvalade ou de alinhar nos surpreendentes 4-1 ao Benfica, no São Luís. Esse Farense, que acabou a Liga na quinta posição, assegurou a entrada na Taça UEFA e permitiu a Djukic um último jogo internacional: esteve, em Setembro de 1995, na derrota (0-1) frente ao Olympique Lyon, no São Luís.

Até decidir pôr termo à carreira, em 1998, Djukic ainda fez mais três campeonatos, mas o Farense foi perdendo fulgor à medida que as ideias de Paco Fortes iam sendo ultrapassadas. O foco deixou de ser a qualificação europeia para ser a fuga à despromoção. Ainda conseguiu alguns empates com grandes em casa antes de se despedir, com um golo, a 17 de Maio de 1998: marcou o tento decisivo no 1-0 ao Rio Ave com que o Farense carimbou o 14º lugar e decidiu que não valia a pena continuar a lutar contra as lesões que já o iam prejudicando. Ficou, no entanto, no Algarve, onde os seus filhos cresceram. Filip Djukic, nascido em 1991, ainda jogou futebol, na III Divisão ou no distrital do Algarve. Stefan Djukic, dois anos mais velho, aproveitou a estatura (2,01m) para se dedicar ao basquetebol: representa atualmente a equipa francesa do Quimper UJAP e é internacional por Portugal.