Ficaram famosas as “paellas” cozinhadas por João Rocha. Mas a atenção do ex-presidente do Sporting ao que se passa em Espanha trouxe também Keita, o primeiro Bola de Ouro africano, para o futebol português. Já veterano, mas a tempo de brilhar.
2017-12-06

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1967

A história de Keita é emblemática do sucesso dos futebolistas africanos em momento de libertação de todo um continente. Prodígio juvenil no Mali, foi para França à experiência e no meio de aventuras que desencorajariam a maioria. Na Europa, enquanto se habituava ao frio, deixou marcas nas redes adversárias. Marcou uma época em Saint-Étienne, vingou-se das injustiças com as cores do Olympique de Marselha, foi uma das imagens de marca de uma Liga espanhola em expansão e ainda teve tempo para espalhar classe nos três anos que, já veterano, passou em Portugal. Mas, além de tudo isso, soube conduzir a ida de forma inteligente, tendo assegurado que, no regresso ao Mali, se tornaria uma das figuras mais influentes do desporto e da sociedade do país.

O que mais impressionava em Keita era a velocidade. E a mobilidade, a forma como aparecia onde não era suposto para desbaratar as defesas adversárias. Elegante, tinha uma técnica muito acima da média, que lhe permitia finalizar, criar, descobrir caminhos, combinar com os colegas. Muito cedo se tornou uma estrela no árido futebol maliano, conduzindo o Stade Malien à final da Taça dos Campeões Africanos em 1965 e repetindo a proeza com o Real Bamako em 1967. Em ambas perdeu, mas assegurou a admiração de todos os que o viam jogar. É preciso entender o contexto, porém: não havia internet, televisão à escala global. O que se passava em África, numa África em processo de libertação do jugo europeu, ficava muitas vezes em África. Até que alguém desse com a língua nos dentes. Foi o que aconteceu em 1967, quando Charles Dagher, um libanês bem relacionado com a direção da AS Saint-Étienne, passou uns tempos em Bamako. Dagher viu Keita e ficou maravilhado. Disso deu conta ao clube, que aceitou dar um teste ao jovem africano e lhe enviou uma carta a convidá-lo.

Foi assim que Keita chegou à Europa. Ou melhor: devia ter sido assim. Temendo não poder sair do Mali, o jovem futebolista fugiu, atravessou a fronteira a salto, para a Libéria. Em Monrovia, onde ia apanhar o avião para Paris, foi assaltado: levaram-lhe tudo. Entrou, mesmo assim, no avião, que a 14 de Setembro de 1967 o conduziu ao aeroporto de Orly. Ali chegado, não tendo ninguém à espera dele – era um miúdo que ia fazer um teste, não uma estrela contratada a peso de ouro – teve de penar para convencer um taxista a conduzi-lo a Saint-Étienne, mostrando-lhe a carta assinada por Roger Rocher. A história até inspirou várias anedotas acerca da tarifa “Paris-Saint-Étienne” e uma canção: “Un táxi pour Geoffroy-Guichard”, escrita e interpretada por Jacques Monty. Tudo porque o impacto de Keita no futebol francês foi brutal. É verdade que, com Robert Herbin, Aimé Jacquet e os jovens Larqué, Revelli ou Beretta, o Saint-Étienne já era campeão francês. Com Keita no apoio a Revelli, ganharam mais três campeonatos seguidos. O maliano fez 12 golos na primeira época e juntou-lhes 21 em cada uma das duas seguintes. E em 1970, quando a France-Football decidiu criar o prémio, para juntar ao europeu, foi mesmo eleito o primeiro Bola de Ouro africano de sempre.

Keita jogou pelos verdes de Saint-Étienne até 1972. Nas últimas duas épocas, porém, perdeu o título nacional para o Olympique de Marselha. Fez 42 golos no primeiro desses campeonatos, o que lhe valeu a Bota de Prata europeia, apenas atrás do marselhês Skoblar. E em 1972, depois de conduzir a seleção do Mali à final da Taça de África das Nações, surpreendeu o futebol francês ao assinar pelo Olympique de Marselha. Estalou a bomba. O clube alegava que ele ainda estava sob contrato e não podia mudar-se. Houve batalha jurídica, baseada no facto de o jogador ter assinado dois contratos em 1969, confiando na boa-fé do clube, que só devia registar um deles, mas Keita fez finca-pé e saiu mesmo. Suspenso por seis meses, só pôde jogar pelos marselheses em Novembro. E quis o destino que o primeiro jogo de branco fosse contra a AS Saint-Étienne: Keita fez dois golos e, ao segundo, dirigiu um manguito a Roger Rocher, o presidente do clube verde que o jogador entendia ter-lhe traído a confiança. A verdade é que aquela foi a época menos produtiva de Keita em França: ficou-se pelos dez golos e o OM acabou a Liga em terceiro lugar, abrindo caminho ao domínio do FC Nantes.

Depois de um ano em Marselha, Keita chegou a Espanha, onde Alfredo Di Stefano o convencera a juntar-se ao Valência CF como uma das estrelas estrangeiras. Era a altura da abertura da Liga espanhola ao Mundo. Aquele Valência, porém, estava longe de ser uma potência e, depois de três anos a meio da tabela, desistiu do maliano, que ainda por cima estava a caminho dos 30 anos e marcara apenas 23 golos em três épocas. Foi assim que Keita apareceu no Sporting. Livre. Alertado por um dos seus filhos, que estava em Espanha, que a rádio dissera que o Valência CF não ia renovar o contrato a Keita, João Rocha meteu-se no carro e foi falar com ele. Convenceu-o, apesar da relutância inicial. O passado recente de colonialismo português em África – a guerra acabara há pouco – enchia Keita de dúvidas, mas ainda assim o jogador assinou por três anos. E não podia sonhar com melhor estreia: a 5 de Setembro de 1976 Jimmy Hagan deu-lhe um lugar no onze que abriu o campeonato, com um retumbante 3-0 ao Benfica. Keita não marcou, mas dois dos três golos leoninos surgiram e recarga a remates seus.

Aquele Sporting estava na ressaca da sua pior época em muitos anos – estava mesmo fora das provas europeias – e arrancou fulgurante na Liga. Uma semana depois, em Guimarães, Keita fez os primeiros de 15 golos que marcou naquele campeonato, bisando num 3-1 ao Vitória SC. Foi, no entanto, a época da mais estrondosa quebra do Sporting: depois de terem chegado a ver o Benfica a seis pontos, à passagem do ano (e numa época em que a vitória valia apenas dois), os leões acabaram o campeonato em segundo, a nove pontos de distância. Para isso muito terão contribuído os seis pontos perdidos em seis jogos sem a estrela maliana, em Janeiro e Fevereiro. Em resultado do fracasso, Rocha mudou de treinador: Jimmy Hagan deu lugar ao brasileiro Paulo Emílio. E juntou mais um atacante de luxo ao tridente ofensivo composto por Manoel, Manuel Fernandes e Keita: de Saragoça chegou Jordão. A lesão grave sofrida pelo novo recruta – uma perna partida na Luz, contra o Benfica, em Fevereiro – e a ausência do maliano entre Outubro e Janeiro não ajudaram em nada a candidatura leonina.

O Sporting acabou o campeonato em terceiro lugar, tendo no entanto ganho a Taça de Portugal, o único troféu conquistado por Keita em Alvalade, já com Rodrigues Dias aos comandos. Autor de sete golos na Liga, o maliano marcou mais dois na Taça de Portugal, um deles decisivo nos 2-1 frente ao Varzim, na meia-final. Jogou a final e a finalíssima, contra o FC Porto (1-1 e 2-1), sofrendo um penalti no primeiro jogo e assistindo Manuel Fernandes para um golo no segundo. A última tentativa de Keita para ser campeão português, em 1978/79, também não foi bem sucedida. Os leões seguiam a três pontos do campeão, o FC Porto, que visitavam nas Antas, em finais de Março. O empate a zero não era propriamente o resultado desejado, mas mantinha tudo em aberto para a reta final do campeonato. Seguia-se, a 8 de Abril de 1979, a receção ao Benfica, que entretanto alcançara o FC Porto na liderança. A derrota por 1-0 em Alvalade era uma espécie de abdicação. Foi o último jogo de Keita pelo Sporting – o último golo fizera-o a 10 de Fevereiro, num 4-0 em casa ao Estoril.

O maliano já nem jogou a fase decisiva da Taça de Portugal, que os leões desta vez perderam, na finalíssima, para o Boavista. Em finais de Abril estreava-se pelos New England Tea Men, na então pujante North American Soccer League. A equipa, onde também alinhavam os ex-leões Artur e Alhinho, nunca fez grandes resultados, mas Keita ainda fez seis golos nesse campeonato e onze no seguinte. A derrota por 4-0 em Tampa, a 30 de Agosto de 1980, na primeira ronda dos “play-off”, foi mesmo o último jogo que fez como profissional. Trabalhou no marketing de um banco norte-americano antes de regressar ao Mali e de investir em hotelaria. Reconhecido como o mais reputado dos futebolistas da história do Mali, chegou a presidente da Federação de Futebol e lançou o primeiro centro de formação do país. Os genes futebolísticos, de resto, prolongaram-se na família, pois teve três sobrinhos a fazer carreira no futebol europeu: Seydou Keita jogou no FC Barcelona, Valência CF e AS Roma; Momo Sissoko no Valência CF, Juventus, Liverpool e Paris Saint-Germain; e Sidi Keita no RC Lens e no RC Estrasburgo.