Olhava-se para ele, para a sua estatura mediana, e parecia não ter físico de ponta-de-lança. Mas Horácio dava o peito às bolas, nunca desistia de um lance e tinha o faro de golo de um rato de área. Leixões e Varzim que o digam.
2017-12-02

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1966

Horácio e o irmão, Chico Faria, nasceram numa das mais brilhantes fornadas de bebés do Leixões, debaixo da supervisão de Óscar Marques. Mas enquanto Chico deu o salto para o Sporting; enquanto Fonseca, Praia e Barros saíram para o Benfica; enquanto Albertino e mais tarde Frasco seguiram o caminho do FC Porto, Horácio foi ficando. António Teixeira, o treinador que mais partido tirou das capacidades goleadoras deste avançado, ainda o quis com ele no FC Porto, mas o Leixões nunca acedeu a transferi-lo. “Então e depois quem é que nos marca os golos?”, terá dito o presidente, quando um dia o confrontaram com essa possibilidade. Horácio jogou, por isso, nove anos no Leixões, até que a liberdade de Abril acabou com a lei de opção e lhe permitiu seguir para o Varzim. Ao todo, passou dos 100 golos na I Divisão, feito raro para quem, nos anos 70, não jogava por um dos grandes.

Dois anos mais velho do que o irmão, Horácio chegou antes dele à equipa principal do Leixões. Ele era o goleador dos juniores, Chico brilhava nos juvenis como extremo rapidíssimo e também com golo, mas os responsáveis leixonenses já esfregavam as mãos com a parceria que os dois manos Faria poderiam estabelecer na equipa principal. Ainda assim, cada coisa a seu tempo. A 18 de Setembro de 1966, Manuel de Oliveira incluiu o pequeno Horácio na equipa titular do Leixões para a primeira jornada do campeonato, uma receção à Sanjoanense. Os leixonenses ganharam por 1-0, mas Horácio depressa perdeu a vaga para aquele que viria a ser o seu grande amigo no futebol, o extremo Esteves. Voltaria um mês depois, a 16 de Outubro, para um jogo com o Beira Mar no qual fez o seu primeiro golo nos seniores: o Leixões ganhou por 4-1, Horácio marcou o último, a cruzamento de Esteves, esteve na origem do segundo, marcado por Esteves e recarga a um remate seu, e ainda deu cabo da cabeça a Abdul, que foi expulso a 15’ do fim por tê-lo agredido.

Horácio haveria de fazer mais um golo nessa primeira época, em jogo da Taça de Portugal frente ao Torres Novas, mas acabou por não ser tão utilizado quando se esperaria. Outro galo cantaria na sua segunda época. Aos 19/20 anos, estabeleceu-se como um dos principais goleadores do campeonato e foi pela primeira de oito épocas consecutivas o melhor marcador do Leixões. Para os 17 golos que fez nessa época – mais três na Taça de Portugal – muito contribuiu a estreia do irmão, lançado pelo novo treinador, António Teixeira, logo na primeira ronda. Horácio não estava nessa tarde, pelo que a primeira vez que os dois jogaram juntos foi uma semana depois, nas Antas, contra o FC Porto. O Leixões perdeu esse jogo por 1-0, mas a parceria atacante dos manos Faria começaria a dar frutos em breve: a 24 de Setembro de 1967, à terceira jornada, o Leixões ganhou por 3-0 ao Varzim, com dois golos de Horácio e duas assistências de Chico. Ao todo, nesta segunda temporada, Horácio assinou quatro bis – depois desse ao Varzim, bisou nos 3-0 ao Barreirense, nos 2-1 à Sanjoanense e nos 7-0 ao União de Tomar, na Taça de Portugal – cometendo ainda a proeza de marcar em oito jornadas consecutivas, incluindo golos ao FC Porto e ao Sporting.

A parceria não duraria muito tempo, contudo. No final da época, Chico seguiu para o Sporting. E disso se ressentiram Horácio e o Leixões, que sob o comando de José Águas só na última jornada teve a certeza da manutenção. A época, para Horácio, ficou marcada pela presença na Taça das Feiras, ainda que com eliminação logo à primeira, pelos romenos do Arges Pitesti. O avançado fez o golo leixonense no empate caseiro (1-1), mas não foi depois capaz de pôr termo ao 0-0 da segunda mão. Tudo melhorou em 1969/70, por duas razões: os regressos de António Teixeira ao comando da equipa e de Esteves para a banda direita do ataque. Horácio voltou a ultrapassar a dezena de golos – fez 15 no campeonato, incluindo cinco no mesmo jogo, ao Boavista, a 14 de Dezembro de 1969, aos quais somou mais seis na campanha da Taça de Portugal, em que os leixonenses atingiram as meias-finais. Horácio marcou aos três grandes nesse campeonato – uma vez ao Benfica, duas ao FC Porto e uma ao Sporting – mas nem por isso o Leixões teve uma classificação tranquila: só assegurou a manutenção na penúltima jornada, com um empate a zero na Póvoa de Varzim.

E pior correria a temporada seguinte. António Teixeira seguiu para o FC Porto e quis levar Horácio com ele. A direção do Leixões, que nesse Verão já tinha vendido Barros ao Benfica e Bené ao FC Porto, negou-lhe esse desejo. E Horácio apresentou-se a António Medeiros para começar o campeonato. Apesar de duas pequenas lesões lhe terem roubado três jogos, marcou mais sete golos no campeonato, três dos quais decisivos, nos 5-0 ao Varzim com que os leixonenses fecharam as contas, agarrando a oportunidade de jogar a Liguilha. Aí, voltou a destacar-se, participando na virada ante o Marinhense que garantiu (4-1) a manutenção. Mas o Leixões não voltaria a ser a mesma equipa, capaz de bater o pé aos grandes e de andar pela UEFA com um mínimo de consistência. Em 1971/72, apesar dos 14 golos de Horácio – nove na Liga e cinco na Taça de Portugal, prova na qual marcou em todos os jogos até à eliminação, nos quartos-de-final, pelo Sporting – o Leixões teve quatro treinadores e voltou a precisar de jogar a Liguilha, desta vez com Peniche, Riopele e Beira Mar.

As coisas melhoraram em 1972/73, com o regresso de António Teixeira. Horácio voltou a chegar aos dois dígitos nos golos – fez onze no campeonato, incluído dois nas duas vitórias sobre o FC Porto, que ainda lhe estava atravessado – e a equipa acabou confortável a meio da tabela, mas tudo foi sol de pouca dura. Em 1973/74, já sem Teixeira, despedido e substituído por Haroldo de Campos a quatro jornadas do fim, a Liguilha foi o que se pôde arranjar. É que tudo parecia muito mais negro: aquando da chicotada psicológica, na sequência de uma derrota em casa com o Oriental, o Leixões era penúltimo e ia direto para a II Divisão; as vitórias frente à CUF (3-1) e, sobretudo, face ao FC Porto, na última jornada (2-0, com o primeiro golo de Horácio), deram à equipa a tábua de salvação que ela voltou a aproveitar. Jogando a Liguilha com Atlético, Beira Mar e AD Fafe voltou a ficar entre os grandes.

A história de Horácio no Leixões estava, contudo, a chegar perto da interrupção. Após o 25 de Abril e o final da Lei de Opção, que obrigava os jogadores a renovar contrato com os seus clubes desde que estes manifestassem vontade de os manter, o atacante foi mesmo ter com António Teixeira. A diferença é que, em vez de ir para o FC Porto, foi com Cacheira, Praia e Montóia para o Varzim, que jogava na II Divisão. Os resultados foram excelentes: o Varzim venceu a Zona Norte cm 19 pontos de avanço sobre o segundo, o Salgueiros, e além de subir de divisão ainda ganhou a final, batendo o Portimonense por 3-1. Horácio justificou o estatuto de melhor marcador da equipa com um golo nessa final, regressando rapidamente ao futebol que interessava: a 5 de Setembro de 1976 estava de regresso à I Divisão, abrindo uma caminhada que levou a equipa de António Teixeira até um excelente sétimo lugar. Horácio experimentou o melhor e o pior: um hat-trick nos 7-2 ao CD Montijo ou três golos ao Sporting (dois nos 3-4 em casa e um no empate a uma bola em Alvalade), mas também a primeira expulsão da carreira, no Bessa, a deixá-lo de castigo para o seu predileto jogo com o FC Porto.

Esta foi a última grande época de Horácio, que estava a chegar aos 30 anos. Como sempre se cuidou ainda foi mantendo o rendimento elevado em mais duas temporadas: fez 12 golos em 1977/78 (seis no campeonato e seis na Taça de Portugal, incluindo um na derrota por 1-2 ante o Sporting, na meia-final) e mais dez em 1978/79 (nove na Liga e um na Taça), época que o Varzim de António Teixeira terminou num extraordinário quinto lugar. No ano seguinte, contudo, perdeu a vaga no onze para o ex-sadino Palhares, mas ainda marcou nove vezes, quatro delas em mais uma caminhada de sucesso na Taça de Portugal, na qual o Varzim voltou a baquear apenas nas meias-finais, desta vez face ao Benfica (e com um golo de Horácio no 1-2 na Póvoa). Horácio ainda ficou no plantel formado por José Carlos, mas raramente foi opção. Marcou o último golo no campeonato a 7 de Fevereiro de 1981, num 2-0 caseiro contra o Amora. Despediu-se como titular na última jornada, a 1 de Junho: o empate a zero em Penafiel não chegou para evitar a descida.

Horácio seguiu então com o seu antigo colega Henrique Calisto para o Salgueiros. Ainda ajudou a equipa de Paranhos a festejar a subida de divisão, através de uma das suas especialidades: a Liguilha. Segundo na Zona Norte, precisamente atrás do Varzim, o Salgueiros impôs-se depois a Penafiel, Académica e Farense para celebrar o regresso à I Divisão. Horácio, no entanto, baixou um patamar e, aos 34 anos, foi jogar para a III Divisão, para o União de Paredes. No final da época, decidiu retirar-se. António Teixeira levou-o como adjunto para o FC Famalicão e ele continuava a matar o bicho da bola jogando torneios de amadores em Matosinhos. Mesmo mais lento e com menos agilidade, no Leixões ainda viram nele condições para dar uma ajuda na tentativa de regressar à I Divisão e, na segunda metade da época de 1984/85, lá o convenceram a voltar a calçar as chuteiras. Pôde, assim, retirar-se no clube do coração, clube que depois ainda serviu durante mais de 20 anos, como treinador das camadas mais jovens, ao mesmo tempo que trabalhava numa empresa de metalomecânica.