Chegou a Portugal em 1939, a fugir da guerra, integrado no lote dos primeiros argentinos do nosso campeonato. Por cá fez história como avançado de qualidade mas sobretudo como treinador apaixonado e intenso.
2017-11-29

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1935

Óscar Tellechea cresceu à sombra do irmão, Horácio, avançado-centro de qualidade capaz de disputar um lugar na famosa linha atacante do Estudiantes que ficou lembrada na história como os “Professores”. Foi com o irmão que se aventurou, primeiro, no Uruguai, e depois em França. A guerra trá-lo-ia para Portugal, integrado com Sbarra, Tarrio e Scopelli no lote dos primeiros argentinos a jogar no nosso campeonato. Ainda fez três épocas na I Divisão, disputando uma final da Taça de Portugal, mas foi como treinador que mais saudades deixou um pouco por todo o país.

Mesmo nunca tendo eles sido campeões, não há adepto dos Estudiantes que não fale com admiração dos “Professores”. Ferreyra, Scopelli, Zozaya, Guaita e Lauri formavam a linha avançada que dava lições de vermelho e branco na Argentina do início da década de 30. Para os render, quando eles emigraram para a Europa em busca de fama e dinheiro, o Estudiantes apostou em Marconi e nos dois irmãos Tellechea. Horácio, mais velho, era um avançado-centro possante. Óscar, o mais novo, um interior direito capaz de atenuar as saudades que os adeptos tinham de Scopelli, por aquele tempo já a vestir a camisola da Roma. Aquela era, no entanto, uma era de grande competitividade no futebol argentino e, para ganharem títulos, os irmãos Tellechea tiveram que cruzar o Rio da Prata e assinar pelo Peñarol. Campeões uruguaios pelos ferroviários de Montevideu, vieram integrados na equipa que fez a tradicional digressão europeia no final de 1936 e já não voltaram a casa, fazendo o que faziam tantos futebolistas sul-americanos por aquela altura.  

Os Tellechea assinaram pelo FC Sochaux, integrando uma equipa de sucesso, que acabou o campeonato em segundo lugar, com os mesmos pontos do Olympique de Marselha, mas ganhou a final da Taça de França ao Racing de Estrasburgo. Nenhum deles marcou presença neste jogo, porém, sinal do que estava para vir: Conrad Ross, o treinador, dispensou-os. Ficaram um ano na II Divisão, no SR Colmar, e em 1938 seguiram para o mais ambicioso FC Metz. Sucede que em França o ambiente já não era muito confortável: Hitler ainda estava virado para Leste, mas já se percebia que mais cedo ou mais tarde a guerra chegaria também a França. Em inícios de 1939, os dois irmãos Tellechea, mas também Alejandro Scopelli, Raul Sbarra e Óscar Tarrio chegaram a Portugal: ficam quase todos no Belenenses, indo Óscar Tellechea e Sbarra parar ao Porto, onde assinaram a ficha pelo Académico.

Classificados em segundo lugar no polémico campeonato regional de 1939 – o que levou ao alargamento da I Divisão nacional de dez para doze equipas, para que o FC Porto, terceiro no regional, pudesse defender o título nacional – os “estudantes” da Invicta garantiram a presença na I Divisão. E a 14 de Janeiro de 1940, Óscar Tellechea estreava-se na I Divisão portuguesa, alinhando nas Amoreiras numa derrota por 1-0 frente ao Benfica. O argentino fez, aliás, todas as partidas do Académico nesse campeonato, marcando seis golos, o primeiro dos quais a 25 de Fevereiro, numa derrota por 3-2 nas Salésias, frente ao Belenenses, na qual o seu irmão Horácio até ficou em branco. Acabou a época em grande, com um hat-trick nos 8-2 à Académica, mas a equipa não deu seguimento a esse bom momento e foi eliminada da Taça de Portugal logo à primeira, pelo Barreirense.

Nesse Verão, porém, Óscar arranjou forma de se juntar a Horácio no Belenenses, equipa bem mais ambiciosa mas que acabara de perder Scopelli, de regresso à América do Sul. Os azuis acabaram o regional em terceiro lugar, apenas atrás de Sporting e Benfica, mas ganharam em casa a ambos. Óscar até marcou nos 8-3 aos encarnados. No campeonato nacional viria a fazer mais oito golos, incluindo um “hat-trick” ao Boavista, um bis nos 5-1 ao Sporting e mais um ao Benfica, numa vitória por 5-3. Sempre sem o irmão, que se lesionou e perdeu três meses de campeonato. Quando ele voltou, em Maio, para jogar a Taça de Portugal, o Belenenses parecia imparável: Óscar fez mais cinco golos nos sete jogos da caminhada que os azuis protagonizaram até à final, incluindo o decisivo no prolongamento da “negra” contra o Benfica, a estabelecer o 3-2 com que tudo se resolveu. A final, porém, mesmo jogada em casa, nas Salésias, foi de má memória para o Belenenses, que perdeu por 4-1 com o Sporting.

Finda a temporada, Óscar Tellechea baxou de patamar. Passou dois anos no Estoril, sagrando-se campeão nacional da II Divisão em 1941/42. Em 1943 juntou-se no FC Famalicão ao húngaro Janos Szabó, com quem já tinha jogado em França e que também estava refugiado em Portugal. Com os dois, os famalicenses ganharam por três anos seguidos a sua série da II Divisão, logrando mesmo a subida de escalão em 1946, quando terminaram a fase final em segundo lugar, apenas atrás do Estoril. A abrir o apetite para o que aí vinha, aliás, os famalicenses chegaram mesmo ás meias-finas da Taça de Portugal, eliminando de caminho dois primo-divisionários: o Olhanense e o Elvas. A um passo da final, porém, caíram com estrondo, perdendo por 11-0 com o Sporting de Peyroteo.

Óscar Tellechea, porém, não se retiraria sem jogar mais uma época na I Divisão. Já alinhava a meio-campo, de onde podia ver melhor o jogo e apurar o sentido tático. Lesionou-se em Março de 1947, num jogo com o Atlético, e só por isso faltou a seis das oito partidas dessa equipa em que não alinhou. Ainda esteve, mesmo assim, nos dois jogos com o FC Porto: um empate no Lima (3-3) e uma vitória (2-1) no Campo do Freião. Mesmo assim, quando a 2 de Julho de 1947, entraram para a última jornada, os minhotos sabiam que enfrentavam uma missão quase impossível: tinham de vencer o Belenenses e esperar que o Elvas perdesse em Guimarães para evitarem a despromoção. Não aconteceu uma coisa nem a outra. Óscar Tellechea despediu-se da I Divisão com uma derrota por 5-1. No final da época respondeu ao convite do seu ex-colega e amigo Sbarra, que era treinador do Académico de Viseu, na III Divisão: os dois conseguiram a subida (o Académico perdeu a final nacional com o CD Cova da Piedade) e, no final da época, por razões de saúde, Sbarra deixou o comando da equipa a Tellechea.

Começava ali uma carreira que haveria de ser longa. Primeiro como treinador-jogador, pois Óscar foi acumulando funções até ficar a um pequeno passo da subida à I Divisão, em 1950: o Académico ganhou a sua Zona, mas perdeu a promoção na fase final para o Oriental e o Boavista. Finda a temporada, foi chamado a ocupar-se do Belenenses. Não durou ali sequer até final da época, mas destacar-se-ia ainda antes do Verão, quando conduziu a Académica à final da Taça de Portugal. Perdeu com o Benfica (5-1, com póquer de Rogério), mas essa final, uma outra que disputou com o Torreense (0-2 com o FC Porto, em 1956), os títulos de campeão nacional de juniores com a Académica nos anos 50 e várias subidas de divisão (Torreense, Beira Mar, União de Tomar…) fizeram dele um dos treinadores mais reputados do futebol nacional por aqueles tempos. Crê-se que a última equipa de que se ocupou terá sido o Oliveira do Bairro, na II Divisão, em 1978/79.