Assis era um lateral de raça, lutador, daqueles que nunca dava uma bola por perdida. Não chegou a afirmar-se verdadeiramente no Belenenses, clube que o trouxera do Algarve para a capital, e foi em Faro que se tornou um clássico dos anos 70.
2017-11-27

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1967

Algarvio de nascimento, Assis tentou o futebol na capital. Ainda era júnior quando se estreou nos seniores do Belenenses, estava a década de 60 a dar os primeiros passos e o balneário do Restelo tinha monstros como Vicente, Yaúca ou Matateu, mas foi apenas no regresso ao Algarve que mostrou qualidades. A concorrência nos azuis era demasiado dura e só no Farense é que ele teve regularidade de utilização e pôde mostrar a rija têmpera de que era feito, ou não tivesse mais tarde escolhido o nome Ninja Café para o restaurante que ainda hoje explora na Cova da Piedade. Opção válida para a direita e para a esquerda, ainda chegou perto da centena e meia de partidas na I Divisão antes de se assumir como treinador especialista em subidas nos escalões inferiores.

A história de Assis começa de forma aventureira: todos os registos o dão como tendo nascido a 27 de Novembro, mas ele na verdade nascera a 8 de Outubro. Só que a família vivia na ilha da Culatra e as viagens ao “continente” não eram assim tão regulares, pelo que o rapaz só foi registado com quase dois meses de vida. Isso não o impediu de jogar à bola e de participar nos torneios populares que, anos mais tarde, se realizavam em Olhão. Calhou em sorte destacar-se numa final, disputada no Estádio Padinha antes de um jogo entre o Olhanense e o Belenenses. Os olheiros azuis já não o deixaram escapar e levaram-no para Lisboa, onde integrou a mesma equipa de juniores de Peres ou Rodrigues, por exemplo. E um dia, não podendo contar com o lateral direito Rosendo (que ainda era primo de Assis), que se lesionara antes de uma deslocação ao Barreiro, para defrontar a CUF, Otto Glória apostou no miúdo, que dessa forma se estreou na I Divisão aos 18 anos, a 30 de Outubro de 1960.

O jogo acabou empatado a duas bolas e Assis ainda jogou mais três vezes pelos seniores nessa época, uma delas nos quartos-de-final da Taça de Portugal, frente ao Sporting de Lourenço Marques, em Alvalade. O problema, então, foi o serviço militar: Assis foi colocado em Queluz e chegou a ser mobilizado para a guerra em Angola. Teve a felicidade de o clube conseguir trocá-lo por um voluntário e foi então cumprir o tempo de incorporação em Porto Brandão, na margem sul do Tejo. Sacrificou o futebol, mas ao menos evitou a guerra. Assis ainda jogou no Almada AC e no CD Cova da Piedade, antes de o chamarem de volta ao Restelo – mas mesmo aí nunca foi capaz de roubar o lugar a Rodrigues, o seu ex-colega dos juniores que entretanto assumira a lateral direita e até se tornara capitão de equipa.

Só quando ao Belenenses chegou Manuel de Oliveira é que o lateral algarvio pôde mostrar alguma utilidade. Titular na ponta final da época de 1967/68, revelou polivalência na época seguinte, na qual Angel Zubieta e, depois, Mário Wilson lhe deram metade dos jogos da equipa, funcionando como solução válida tanto à esquerda como à direita. Wilson, porém, voltou a preteri-lo por Rodrigues em Outubro de 1969: a derrota em casa (1-2) com a Académica, na sexta ronda desse campeonato, marcou a última vez que Assis vestiu oficialmente a camisola do Belenenses. Aos 28 anos, depois de uma época quase inteira a jogar nas reservas e com menos de 30 jogos na I Divisão, aceitou o convite do Farense, cujo treinador, Manuel de Oliveira, se lembrava dele no Restelo. Seguiu de regresso ao Algarve, com esperança mas sem sonhar sequer que estava ainda a tempo de relançar a carreira.

O Farense acabara de subir de divisão e, apesar dos muitos reforços que o clube assegurou – alguns vindos do Sporting, a casa-mãe – o ex-Belenenses tornou-se indiscutível na lateral direita, iniciando como titular os 27 jogos oficiais que o clube fez na época e sendo substituído apenas duas vezes. Foi um dos protagonistas do Farense-Belenenses que, à conta da rivalidade entre os dois treinadores – Manuel de Oliveira e Joaquim Meirim – fez correr muita tinta, logo à terceira jornada: e ganhou, por 1-0, na primeira vez que defrontou o seu clube de formação. Esteve ainda na histórica vitória (também por 1-0) do Farense sobre o Benfica, a 15 de Novembro de 1970. E foi uma das chaves da manutenção da equipa algarvia, conseguida in-extremis, no último dia do campeonato, graças a um empate a zero em Setúbal. O Farense até tinha acabado a primeira volta em posição europeia, mas fez apenas quatro golos – e cinco pontos – na segunda metade do campeonato, ficando entre os grandes apenas porque era uma equipa defensivamente muito forte.

A chegada a Faro de Caneira, ex-colega de Assis no Belenenses, no Verão de 1971, motivou a passagem do algarvio para a esquerda da defesa, mas ele não se encolheu e continuou a ser preponderante no onze de Manuel de Oliveira, falhando apenas as primeiras quatro jornadas. A 19 de Março de 1972 festejou mesmo um golo, o seu primeiro no campeonato. E foi um golo importante, marcado a Damas, porque permitiu ao Farense empatar no São Luís com o Sporting (1-1). Assis viria a fazer mais dois, ambos ao Barreirense, nos dois jogos da época de 1972/73, outra temporada com permanência garantida apenas na última jornada, graças a uma vitória decisiva sobre o Boavista (2-0), em Faro. Aí, estreou-se noutras funções: as de treinador-jogador. Manuel de Oliveira saiu após o empate com o Leixões, em Matosinhos, que deixava o Farense em posição de jogar a Liguilha para escapar à despromoção. A direção decidiu então entregar a equipa a Assis e ao central João Almeida, com a quase certeza de que uma vitória no último dia chegaria para fazer a festa: bastaria que, além disso, entre Beira Mar (que ia a Tomar) e CD Montijo (que defrontava o super-Benfica de Hagan, na Luz), pelo menos um deles não vencesse. Assis e Almeida escalaram-se ambos como titulares, o Farense ganhou, e os rivais perderam ambos, soltando a festa em Faro.

O mais perto que Assis esteve de um troféu foi, no entanto, na Taça de Portugal. Em 1972/73, ainda com Manuel de Oliveira aos comandos e com Assis como totalista na campanha, o Farense eliminou o FC Porto (1-0 em Faro), nos quartos-de-final, mas caiu depois, nas meias-finais, em casa, frente ao Vitória FC (0-1, com golo de Torres), não conseguindo por isso chegar à final com o Sporting. A carreira de jogador de Assis aproximava-se, contudo, do final. No sétimo lugar que o Farense conseguiu com Carlos Silva, em 1973/74, já só fez pouco mais de metade dos desafios. E já cheirava a retirada quando se ocupou da equipa de juniores do Farense, em 1974, e passou um ano sem jogar. Regressaria ao ativo e 1975/76, jogando pela última vez a 7 de Março de 1976, no Estádio da Luz, contra o Benfica. A derrota (0-3), na estreia do regressado Manuel de Oliveira, já deixava o Farense na 15ª posição a que a equipa não conseguiria fugir nas últimas sete jornadas, acabando por ser despromovida.

Assis emigrou então para o Canadá, onde assumiu as funções de treinador do First Portuguese, clube da comunidade lusitana de Toronto. Teve uma longa carreira de técnico, tornando-se uma lenda em clubes como o Esperança de Lagos – onde foi campeão nacional da III Divisão, subiu duas vezes e conseguiu a melhor classificação de sempre, um terceiro lugar na Zona Sul do segundo escalão – ou o GD Sesimbra. Dirigiu ainda o Atlético, o Elvas, o CD Cova da Piedade, o Barreirense ou o Olhanense da sua cidade natal, entre muitos outros clubes da zona Sul, onde ganhou fama de milagreiro. Assis teve ainda um filho futebolista: Nuno Viola jogou no Esperança de Lagos debaixo das ordens do pai ou no Amora FC de Jesus, por exemplo.