Antes de ser o adjunto grande que Mourinho escolheu para o acompanhar em Leiria, no Porto e em Londres, Brito foi um central regular que somou quase 200 jogos na I Divisão.
2016-01-09

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1977

É impossível não olhar hoje para Brito à luz daquilo que dele disse José Mourinho quando se lembrou de o chamar para adjunto, na U. Leiria. “Quero alguém do futebol, com sensibilidade para falar com os jogadores, que tenha autoridade no balneário e que seja grande”. O central forte e façanhudo que tinha sido jogador de Mourinho Félix (o pai) no Rio Ave passou a ser visto como o polícia do balneário muito por força desta descrição feita por José Mourinho (o filho), mas nem sempre foi assim. É que o Brito que chegou a Portugal meses depois da revolução de 1974 era um homem completamente diferente.

Formado no extinto América de Pernambuco, Baltemar Brito jogou nos dois grandes clubes da cidade – o Sport e o Santa Cruz – antes de decidir viajar para Portugal à procura de uma oportunidade. Chegou a Guimarães com mais dois compatriotas, Jeremias e Almiro, mas não chegou a jogar um minuto na equipa dirigida por Mário Wilson. O mais que conseguiu foi ir uma vez para o banco, em Fevereiro de 1975, num jogo em casa com o Olhanense. Porquê? Brito explica: “Eu vinha de uma terra muito quente e estava muito habituado ao feijão com arroz. Cheguei a Guimarães e peguei um frio danado, que nunca tinha sentido na vida, e só pensava em comida. Passei de uns 75 quilos para os 90 em três meses”. E tudo lhe servia para fugir ao rigor que os colegas tentavam incutir-lhe. “O Pedroto e o Ramalho tomaram conta de mim e impediam-me de comer, mas assim que me via livre deles atacava nos bolos”, continua o ex-central, que no final da época decidiu mudar de ares.

A regressão para a II Divisão, somada a uma maior habituação ao frio do Norte de Portugal, acabou por fazer-lhe bem. Impôs-se no Paços de Ferreira, onde passou duas épocas a lutar pela subida – quarto e terceiro lugares na Zona Norte – e no Verão de 1977 regressou ao escalão principal, para vestir a camisola do Feirense, que tinha acabado de subir. No Feirense, fez todos os jogos da época à exceção do primeiro, estreando-se na Liga a 10 de Setembro de 1977 com uma derrota em Setúbal por 3-1, na qual também viu o primeiro cartão amarelo. O último lugar final na tabela, porém, implicou novo regresso à II Divisão, onde Brito passou mais três anos: terceiro lugar na Zona Centro em 1978/79 com o Feirense; 11º na Zona Note com o P. Ferreira em 1979/80; e finalmente a subida, em 1980/81, quando foi totalista do Rio Ave que ganhou a Zona Norte sob os comandos de Mourinho Felix. Aos 29 anos, podia parecer tarde para Brito ainda deixar uma marca no futebol português, mas a verdade é que o pernambucano ainda veio a tempo.

A equipa de Mourinho foi a grande revelação da época de 1981/82, acabando o campeonato em quinto lugar, e Brito falhou apenas duas partidas em toda a época: a derrota por 5-1 em Espinho, e a eliminação da Taça de Portugal, frente ao Ginásio de Alcobaça (0-1). De caminho, fez os seus primeiros golos no campeonato, cada um a valer uma suada vitória por 1-0, frente a V. Setúbal e Amora, tendo ainda estado presente nas vitórias contra o Benfica, em Vila do Conde (1-0) e o FC Porto, nas Antas (2-1). A 7 de Março de 1982, numa vitória por 3-1 frente ao Boavista ainda no pelado do Campo da Avenida iniciou uma série de 100 jornadas consecutivas sempre a jogar no campeonato, mesmo tendo mudado de clube pelo meio. É que no Verão de 1982 Brito mudou-se para Setúbal, onde se tornou também indiscutível na equipa que Manuel de Oliveira conduziu ao sétimo lugar da tabela, ganhando mais uma vez ao FC Porto (3-1, no Bonfim). Ainda assim, no final da temporada, regressou ao Rio Ave. E em boa hora o fez, porque de novo sob as ordens de Mourinho Felix, Brito teve a felicidade de poder jogar uma final da Taça de Portugal, em cuja longa caminhada – oitavos, quartos e meias-finais foram sempre resolvidos em jogo de desempate – também não falhou um único minuto em campo. A final é que já se revelou intransponível, com vitória do FC Porto por 4-1.

Depois daquele jogo em Março de 1982, Brito só voltou a faltar a uma jornada de I Divisão em Agosto de 1985, e porque o Rio Ave desceu no campeonato anterior. Depois do nono lugar em 1983/84, a equipa onde Mário Reis substituiu Mourinho como treinador a meio da época de 1984/85 acabou essa Liga na 13ª posição, que a obrigava a jogar a Liguilla com os segundos colocados das três zonas da II Divisão. Perdida a vaga na divisão maior para o Chaves, por desvantagem no confronto direto, o Rio Ave caiu para a II Divisão e Brito acabou por se mudar para o rival Varzim, que também ia jogar para subir. Os vilacondenses ganharam a Zona Norte, mas os varzinistas acabaram em segundo e levaram a melhor na Liguilla, pelo que ambos subiram. E aos 34 anos, Brito ainda regressou para mais duas épocas no escalão principal. Tranquila a primeira, que o Varzim de Henrique Calisto acabou no sétimo lugar, muito mais conturbada a segunda, que por isso mesmo acabou em descida. Brito despediu-se dos relvados a 19 de Março de 1988, já com 36 anos, numa derrota em casa frente ao Portimonense (1-2), em que até saiu ao intervalo.

Até final da época, Brito só assumiu algum protagonismo porque, a duas jornadas do final, com a permanência quase impossível, a direção demitiu Calisto e pediu a Brito que tomasse conta da equipa. O Varzim ainda empatou com o Benfica na Luz (2-2) e com o Belenenses em casa (1-1), mas manteve o 17º lugar e caiu mesmo para a II Divisão. Baltemar Brito, esse, começava ali uma carreira de treinador que o manteve em equipas de escalões inferiores até José Mourinho se lembrar dele para substituir Mozer como adjunto, quando assumiu o comando da U. Leiria. O pernambucano foi com Mourinho para o FC Porto e para o Chelsea, até decidir assumir-se como técnico principal. E também nessa qualidade tem histórias para contar, como a de quando teve de fugir da Líbia – onde dirigia o Al Ittihad – um dia antes do encerramento do aeroporto de Tripoli, no seguimento da guerra que levou à deposição de Khadaffi, ou a de quando acabou demitido do Grémio Osasco, do Brasil, por ter contestado a decisão da direção lhe juntar ao plantel – que liderava a segunda divisão paulista – os veteranos Dodô, de 38 anos, e Viola, de 44. É que, tendo ele próprio sido um exemplo de longevidade, também percebe que convém não se exagerar.