Médio dado aos equilíbrios, era um dos jogadores preferidos de Manuel de Oliveira, que tentava sempre levá-lo para onde fosse. Jogou três anos no Sporting, mas o melhor dele viu-se num super-Barreirense ou num surpreendente Marítimo.
2017-11-25

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1969

O Barreirense de 1969 é uma coisa irrepetível e recordada com saudade por todos os que vivem o clube daquele subúrbio industrial de Lisboa. Uma equipa jovem, recém-coroada campeã da II Divisão, com um treinador que estava na moda, acabou o campeonato em quarto lugar e fez a sua parte na revelação de talentos que outros haviam de aproveitar. A despontar nessa equipa estava Valter, um médio que não gostava de defender mas que nunca virava a cara à luta. Havia de chegar à seleção A precisamente em 1974, ano em que começou o irreversível declínio do clube e ele se mudou para um grande. A aposta no Sporting, porém, nunca o levou aos mais altos voos e Valter acabou por ter na longevidade o que não alcançou no estrelato: jogou para lá dos 40 anos e só parou quando percebeu que os problemas que tinha num joelho não se compadeciam com os pelados da III Divisão, onde exercia as funções de treinador-jogador do Estrela de Vendas Novas.

Filho da terra, Valter fez a formação futebolística no Barreirense, com cuja equipa principal começou a treinar ainda com idade de júnior, no ano da descida à II Divisão. Não jogou em todo o campeonato de 1967/68, no qual a equipa se quedou pelo último lugar, mas foi por ele que começou a renovação: a 19 de Maio de 1968, uma semana depois de findo o campeonato, Vieirinha deu-lhe pela primeira vez a titularidade, numa partida com o Benfica que valia para os quartos-de-final da Taça de Portugal. O jogo acabou empatado a duas bolas e, quatro dias depois, Valter manteve-se no onze que chegou a estar em vantagem na Luz (1-0), acabando por se inclinar face ao maior poderio dos encarnados – e a um bis de José Augusto, outro filho do Barreiro. Antes de se começar a remontada, houve ainda tempo para o Barreirense vencer a Taça Ribeiro dos Reis, prova de final de época em que os grandes ou não participavam ou davam minutos às reservas: na final, o Barreirense venceu o Leixões por 2-0. Estava aberto o caminho para a subida de divisão, que a equipa liderada por Manuel de Oliveira haveria de conseguir logo à primeira tentativa, ganhando a Zona Sul do segundo escalão e impondo-se na final ao Beira Mar: 3-3 em Setúbal e 2-1 na negra em Coimbra.

Fazendo parte daquelas conquistas, Valter estava pronto para o campeonato principal. Manuel de Oliveira, porém, só o estreou à quarta jornada, uma visita a Alvalade na qual os alvi-rubros encaixaram a terceira derrota consecutiva (0-3). Uma quarta se seguiria, deixando o Barreirense em último lugar e os adeptos a pensar em nova despromoção, mas a recuperação que a equipa encetou a partir daí foi impressionante: a meio do campeonato, já era quinto colocado, tendo Valter feito golos ao Leixões (4-0, a 16 de Novembro) e ao Varzim (2-1, fora); no final, foi quarto, garantindo a qualificação para a Taça UEFA na última jornada, com uma vitória por 1-0 frente ao Belenenses, no Restelo. Com Valter no onze. Como estaria em quase todas as partidas da época seguinte: o Barreirense não conseguiu repetir a época quase perfeita, acabando num mais modesto décimo lugar, mas Valter foi, com o guarda-redes Bento, o único a alinhar em todas as partidas da época (campeonato, Taça de Portugal e Taça das Feiras), ainda que em três delas tenha saído do banco. A estreia europeia fê-la a 16 de Setembro de 1970, num 2-0 ao Dínamo de Zagreb, no Barreiro, que os jugoslavos depois conseguiram anular com um retumbante 6-1 na segunda mão.

Durante mais três anos, foi presença assídua na equipa do Barreirense, fosse qual fosse o treinador. Ironicamente, foi na época que pior correu ao coletivo que Valter mais se destacou: em finais de Março de 1974, estava o Barreirense a lutar arduamente pela manutenção, quando José Maria Pedroto chamou Valter para um desafio particular que a seleção nacional ia fazer com a Inglaterra, no Estádio da Luz, no dia 3 de Abril. Deu-lhe mesmo a primeira (e única) internacionalização, fazendo-o entrar ao intervalo para o lugar de Toni, numa partida que acabou como começou: empatada a zero. Duas semanas depois, Valter assinava pelo Sporting, que pagou 1500 contos pelo seu passe ao Barreirense. No recomeço do campeonato, a 21 de Abril, a equipa da margem sul do Tejo ainda conseguiu empatar a zero com o FC Porto, nas Antas, mas nas três jornadas que restavam até final fez apenas mais um ponto. Na última, em casa com o Sporting, era preciso ganhar para ficar na I Divisão. Só que os leões também tinham de vencer, para serem campeões. Impuseram-se os mais fortes, por 3-0, e o Barreirense desceu. Valter, que saiu aos 69’, já com o resultado feito, não só não desceu como entrou num plantel campeão.

Em Alvalade, porém, o médio não encontrou aquilo que esperava. A confusão naquele Sporting era descomunal: Di Stefano, o treinador, foi embora após a primeira jornada e nunca se entendeu bem, sequer, se tinha chegado a entrar. Se esperava consolidar a vaga na seleção, Valter acabou por marcar passo. Não só passou três épocas no Sporting sem ganhar um único título como foram mais as vezes que ficou fora das escolhas dos treinadores do que aquelas em que foi chamado a jogar. Na primeira época, só foi titular cinco vezes, uma delas na Taça de Portugal. Na segunda, com a entrada de Juca, que já o liderara no Barreiro, tornou-se mais assíduo nas escolhas, mas nem por isso ajudou a evitar um quinto lugar que deixou os leões fora das competições europeias. E mesmo tendo-se imposto no último ano de contrato – marcou aí, na Taça de Portugal, o seu único golo à leão, num 6-2 ao Penalva do Castelo, e jogou 25 dos 34 jogos oficiais da época – acabou por escolher sair assim que teve um convite do Marítimo, que celebrava a primeira subida à I Divisão. Ainda por cima, os madeirenses pagavam-lhe mais que os lisboetas.

Ainda hoje Valter diz que as três épocas que passou na madeira foram as melhores da sua longa carreira. No primeiro jogo que fez pelos verde-rubros, a 16 de Outubro de 1977, fez um golo e uma assistência e a equipa ganhou por 3-0 ao Feirense. É verdade que só voltaria a marcar mais uma vez nessa época – frente à Naval, na Taça de Portugal – mas acabou por ser importante para uma muito festejada manutenção, obtida com um 12º lugar na tabela. A equipa melhorou na sua segunda época, com a chegada de Manuel de Oliveira – que também já o conhecia do Barreirense – e Valter conseguiu, pela segunda vez na carreira, ser totalista no campeonato: o Marítimo foi décimo e ele teve a sua temporada mais goleadora, com quatro golos, um dos quais a Benfica e ao seu ex-colega Bento. E quando Manuel de Oliveira saiu do Marítimo e se ocupou do Portimonense, em Fevereiro de 1980, o seu conterrâneo não demorou a segui-lo: no Verão, assinou pelo clube algarvio, depois de ajudar o Marítimo a conseguir in-extremis mais uma manutenção.

Mais uma vez totalista no oitavo lugar do Portimonense em 1980/81 – temporada na qual fez o golo da vitória sobre o Sporting (1-0) – Valter ainda foi nessa altura chamado a uma seleção B, que jogou um particular contra a Alemanha, em Coimbra (derrota por 2-0). Mas já estava com 32 anos quando, em inícios de Dezembro de 1981, Manuel de Oliveira deu o lugar a Artur Jorge no comando da equipa. Ele, que tinha sido titular nos 38 jogos do anterior treinador à frente do Portimonense, só começou uma partida com o novo comandante. Mensagem percebida: em Julho de 1982 estava perto de casa, para iniciar a época no Amora FC de José Moniz. Recuperou a preponderância numa equipa – falhou apenas um jogo em toda a época, um empate caseiro com o Vitória SC, e por estar suspenso, na sequência de uma expulsão frente ao Benfica, na Luz, por protestar com o árbitro – mas não conseguiu o objetivo principal, que era a permanência. O Amora foi 15º, desceu de divisão. A certeza da despromoção teve-a a 22 de Maio, numa derrota caseira com o Marítimo (1-2). AS despedida da I Divisão, após mais de 300 jogos, fê-la duas semanas depois, a 5 de Junho, ganhando em casa ao Rio Ave por 3-2.

Valter, contudo, não ficou no Amora FC. Seguiu durante um ano para o Estrela da Amadora, que naquela altura lançava as primeiras bases de uma equipa que haveria de chegar à I Divisão, mas tendo falhado a subida regressou ao Barreirense. Ali, primeiro com José Moniz e depois com Manuel de Oliveira, encontrou um clube muito diferente do que deixara dez anos antes. Passou por lá três épocas, sempre mais perto de descer à III Divisão do que de regressar ao escalão principal. E quando, a caminho dos 38 anos, se pensava que iria pendurar as chuteiras, deixou que o amor pelo futebol falasse mais alto: em 1987 assinou pelo Estrela de Vendas Novas, onde se tornou treinador-jogador. Jogou mais três anos, pendurando as chuteiras aos 40 e encetando aí uma carreira de treinador que ainda o manteve ocupado durante mais uns 15 anos, sempre nos escalões secundários. Entre os clubes que dirigiu, destacou-se o Barreirense, onde no entanto não foi capaz de evitar a queda na III Divisão, em 2007, depois de entrar a meio da época já com o caldo entornado.