É um dos últimos heróis do Atlético na I Divisão, graças ao bis que valeu uma vitória sobre o FC Porto, nas Antas, em Outubro de 1971. Tinha apetência pelo golo, mas estranhamente só fez três épocas no campeonato principal.
2017-11-23

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1968

A tarde de glória de Raimundo aconteceu nas Antas, em Outubro de 1971. Fazia parte de uma equipa do Atlético com nomes que já tinham sido grandes, como o guardião Carvalho ou Pedras, e outros que viriam a sê-lo no futuro, como Esmoriz, Baltasar ou Nogueira, mas foi ele o herói de uma histórica vitória do Atlético no relvado do FC Porto. Fez dois golos e uma assistência para Prieto para um 3-1 que deixava os alcantarenses no quarto lugar do campeonato e a sonhar com uma grande classificação. Raimundo estaria muito longe de saber aquela seria a última vitória do Atlético no terreno de um grande em jogos de campeonato e que nos mais de 40 anos entretanto passados ela só seria repetida em desafio da Taça de Portugal, em 2007, com direito a clamor por tomba-gigantes.

Raimundo era um jovem de 24 anos, com inícios promissores mas seguros no campeonato. Nascido na margem sul do Tejo, crescera nos viveiros do Amora FC antes de chegar ao Atlético, em 1968. Peres Bandeira deu-lhe a estreia a 8 de Setembro, fazendo-o entrar para o lugar do peruano Rudolfo Seminário – irmão do Juan Seminário do Sporting – ao intervalo de um jogo em Tomar cujo placar já não mexeu: estava 1-1 e 1-1 ficou. A incapacidade ofensiva da equipa de Alcântara – dois golos apenas nas primeiras quatro jornadas – e o facto de ter sido ele a fabricar o tento de Tito que valera um empate face à CUF, na Tapadinha, levou o treinador a dar-lhe a primeira titularidade a 6 de Outubro, numa visita à Académica. O Atlético marcou duas vezes, chegou a estar em vantagem, mas perdeu por 4-2. Raimundo, esse, já não perdeu a vaga no onze e a 3 de Novembro, na Luz, fez ao Benfica, num remate de longe, o seu primeiro golo no campeonato.

Os alcantarenses perderam o jogo (3-4), mas venderam cara a derrota. Raimundo marcou mais seis golos nessa época, com destaque para um bis à CUF (a 26 de Janeiro de 1969) ou para um golo no sempre apetecível dérbi com o Belenenses (vitória alcantarense por 3-1) e ainda com a particularidade de também ter marcado ao FC Porto nas Antas, ainda que neste caso com derrota final por 4-1. A verdade é que o 13º lugar final levou o Atlético a descer de divisão. Só regressaria em 1971, após um terceiro lugar na Zona Sul do escalão secundário em 1969/70 e um primeiro em 1970/71, época em que o Atlético só parou na final do campeonato, perdida por 3-1 para o Beira Mar, em Leiria.  E o regresso de Raimundo ao principal campeonato foi retumbante, com cinco golos nas primeiras cinco jornadas a permitirem-lhe chegar a meados de Outubro a par do benfiquista Artur Jorge, do portista Flávio e do sadino Torres no topo da tabela dos goleadores. Até final da época, perdeu algum gás, ficando-se por uma dezena de golos (mais um na Taça de Portugal), que lhe permitiram ser o melhor marcador do Atlético e ajudar a equipa a conseguir manter-se sem problemas de maior na I Divisão.

Pior correria a época de 1972/73. Liderado pelo inglês Ted Smith, o Atlético acabou por descer de divisão. Raimundo marcou cinco golos nesse campeonato, os últimos a 19 de Novembro de 1972, quando ajudou o Atlético a vencer o União de Tomar por 4-0 com um hat-trick. A última vez que jogou futebol de I Divisão foi a 11 de Junho de 1973, numa derrota (1-2) do Atlético frente à CUF, no Barreiro (1-2). Um golo de Capitão-Mor, a 15’ do fim, desfez um empate que teria permitido ao Atlético pelo menos jogar a Liguilha, com os segundos classificados das três zonas da II Divisão. Assim, quem teve essa hipótese foi o União de Coimbra. E Raimundo nem seguiu com a equipa alcantarense para a II Divisão: assinou pelo Estoril de Jimmy Hagan e foi para o terceiro escalão. Esteve depois nas duas subidas consecutivas da equipa da Linha – cinco golos na caminhada até ao título de campeão nacional da II Divisão em 1975 – mas já não voltou ao principal campeonato. É hoje mediador de seguros e proprietário de um talho na Costa de Caparica.