A dedicação ao FC Porto validou a máxima segundo a qual o coração de João Pinto só tinha uma cor: “azul e branco”. Foram quase 600 jogos e 24 títulos conquistados, entre campeonatos nacionais e a glória europeia e mundial.
2017-11-21

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1982

Sempre que os interessados em detetar uma linha de sucessão no FC Porto perguntavam a Jorge Nuno Pinto da Costa quem era o seu número dois, o presidente respondia da mesma forma: “é o João Pinto”. Apesar da presença forte e carismática, nascida do esforço e do empenho, João Pinto nunca teve aspirações a esse nível, mas o número que envergou na camisola durante 17 anos tornou-se tão sinónimo de liderança no clube como a braçadeira de capitão: quando ele abandonou a carreira de jogador, em 1997, passou ambos a Jorge Costa. Para trás, deixava quase 600 jogos oficiais, mais de 400 dos quais no campeonato, bem como 24 títulos ganhos, entre os quais a primeira Taça dos Campeões Europeus do clube – troféu que ele quase se recusava a largar depois de o ter vencido em campo, na final contra o Bayern.

João Pinto não era um driblador brilhante, não rematava particularmente bem, não lhe saíam dos pés os melhores cruzamentos, mas nada disso o impediu de ser uma referência para a sua geração. Indestrutível, nunca parava de correr, ou não tivesse o fundista Carlos Lopes sido um dos seus ídolos de infância. Conhecia de cor os valores do trabalho e liderava pelo exemplo: não exigia a ninguém que fizesse algo que não levasse a cabo ele próprio. Tornou-se, assim, um dos melhores defesas laterais da Europa, sempre equilibrado e consistente e capaz de formar com Jaime Magalhães uma asa direita de qualidade superior. À medida que ia ganhando experiência, incorporava no seu futebol novas armas, como as diagonais pelo corredor central que a dada altura se tornaram uma das suas imagens de marca. Tudo junto, levou Bobby Robson, o treinador que com ele iniciou o percurso do pentacampeonato, a dizer que João Pinto parecia ter “dois corações e quatro pernas”.

Filho de um funcionário da Salvador Caetano que tinha sido defesa-central do Oliveira do Douro, João Pinto desistiu cedo de estudar mas só abdicou do emprego como estofador na fábrica de que o pai era o funcionário mais antigo quando, em 1980, assinou o primeiro contrato como profissional do FC Porto. Por essa altura já tinha sido internacional de sub17 e sub19, mas nem assim aceitava trocar o certo pelo incerto. Essa época de 1980/81, porém, deu-lhe para ter mais alguma certeza de que o seu futuro estava no futebol. Foi o ano do Verão Quente, em que vários jogadores só ao fim de algumas semanas de pré-época se juntaram ao grupo “oficial”, em protesto pela forma como Pedroto e Pinto da Costa tinham sido levados a sair do clube, e João Pinto aproveitou essas semanas para se mostrar a Herman Stessl. O novo treinador não chegou a utilizá-lo nessa primeira época como sénior, mas ainda o levou para o banco num par de vezes, a primeira das quais a 13 de Setembro de 1980, numa vitória sobre o SC Espinho, nas Antas, por 2-1.

A estreia, porém, ainda esperou mais um ano e picos. Gabriel era dono da lateral direita, Lima Pereira ocupava a esquerda, mas também atuava ao meio e, a 2 de Dezembro de 1981, na Luz, em desafio da Supertaça em que o FC Porto já perdia por 2-0 com o Benfica, Stessl terá tentado dar alguma fluidez ao corredor esquerdo, fazendo entrar João Pinto para o lugar de Teixeira, a 19 minutos do final. Não resultou ali mas, uma semana depois, com Lima Pereira ao lado de Simões no meio, Gabriel à direita e João Pinto à esquerda, o FC Porto ganhou a segunda mão por 4-1 e ficou com a Supertaça. Estava ganho o primeiro dos 24 troféus do futuro capitão do clube. E pelo meio, a 6 de Dezembro, João Pinto estreou-se no campeonato, alinhando os 90 minutos de uma vitória tangencial sobre o Estoril, nas Antas (1-0). Ainda fez sete jogos nesse campeonato, mas só com o regresso de Pedroto, em 1982, se assumiu como titular.

A época de 1982/83 foi, aliás, a do salto definitivo para o estrelato: Gabriel teve um ano difícil e João Pinto foi mesmo o lateral mais utilizado do plantel. Fez a estreia europeia, a 15 de Setembro de 1982, quando Pedroto o chamou para render Sousa, aos 85’, de forma a ajudar a segurar um 1-0 na Holanda, frente ao Utrecht. A 16 de Fevereiro, já sendo titular regular no clube, jogou pela primeira vez na seleção A, entrando para o lugar do sportinguista Virgílio ao intervalo de uma derrota caseira com a França (0-2), em Guimarães. Uma semana depois, face à não dispensa de vários jogadores do Benfica para um jogo particular, foi mesmo titular numa histórica vitória de Portugal frente à RFA (1-0), no Restelo. Levaria mais uns meses a impor-se na seleção, ainda presa a Pietra como opção principal, mas a partir da troca de Otto Glória por Fernando Cabrita, na sequência dos 0-5 de Moscovo que quase impediram a entrada no Euro’84, tornou-se indiscutível. Antes disso, fez o primeiro golo como profissional, a fechar a contagem nos 9-1 à Académica com que o FC Porto carimbou a presença na final da Taça de Portugal. A final, disputada com o Benfica apenas no início da nova época, perdê-la-ia, em pleno Estádio das Antas, por 1-0.

Aquele era ainda um FC Porto em construção, uns degraus atrás do Benfica de Eriksson. Ainda assim, João Pinto era um dos pilares do crescimento. Titular absoluto também da seleção, a partir de Setembro de 1983, acabaria mesmo por se tornar, à data da sua retirada, o mais internacional de todos os portugueses, com 70 partidas, 42 das quais como capitão. Fez um grande Europeu de 1984, dando-se a conhecer à Europa, até por vir na sequência da campanha portista na Taça das Taças: João Pinto fez as nove partidas na prova, incluindo a final, perdida face à Juventus, em Berna (1-2). Já não foi, ainda assim, um ano vazio de títulos, pois o FC Porto ganharia a Supertaça (2-1 ao Benfica na Luz, depois de um 0-0 em casa) e a Taça de Portugal (4-1 ao Rio Ave, no Jamor). E ganharia, sobretudo, uma equipa com hábitos de vencedora. Seria já sem Pedroto, em 1984/85, que João Pinto se sagraria pela primeira vez campeão nacional, como indiscutível no onze montado por Artur Jorge: a sua importância mede-se bem pelo facto de ter sido, com Eurico, Quim e Futre, o único jogador do plantel a marcar presença nos 43 jogos oficiais da época, incluindo a Supertaça ganha ao Benfica em quatro desafios e a final da Taça de Portugal perdida ante o mesmo adversário.

Os títulos tornaram-se, a partir daí, o pão nosso de cada dia de um jogador que não olhava para a competição de outra forma que não a de vencer. A vontade de jogar levava-o a ultrapassar limites como o que suplantou em Janeiro de 1986, quando teve de ser substituído ao intervalo de um Portugal-Finlândia, com dificuldades respiratórias. Ainda jogou contra o Estoril, para a Taça de Portugal, dois dias depois, mas no final da partida teve de ser hospitalizado. Foi-lhe descoberto líquido na pleura, provavelmente resultado de uma pancada, o que o levou a ter de ser operado e a não jogar mais nessa época. A sua importância mede-se por outro fator: foi, mesmo assim, convocado por José Torres para a fase final do Mundial, ainda que no México não tenha chegado a ser utilizado. Voltaria, em força, na temporada seguinte, que acabou com a conquista da Taça dos Campeões por parte do FC Porto, graças à vitória (2-1) sobre o Bayern em Viena. Feito capitão de equipa em função da lesão de Gomes, foi a ele que coube a honra de erguer a Taça, que não largou enquanto não chegou ao balneário. Ficaram célebres as fotos de João Pinto com a tampa da taça na cabeça.

O estatuto de capitão, João Pinto passou a tê-lo apenas em 1989, quando Gomes saiu para o Sporting, já depois das vitórias na Supertaça europeia (contra o Ajax) ou na Taça Intercontinental (na neve de Tóquio, com o Peñarol). O lateral foi ainda a tempo de liderar a equipa em inúmeras conquistas. Bicampeão nacional com Carlos Alberto Silva (1991/92 e 1992/93) e com Bobby Robson (1994/95 e 1995/96), participou ainda em 13 jogos na temporada do primeiro tricampeonato da história do FC Porto (1996/97), sob o comando de António Oliveira. Aí, no entanto, a titularidade na lateral direita já era mais de Secretário ou até Sérgio Conceição. Ainda foi dessa temporada a sua última internacionalização: depois de ter falhado a fase final do Europeu de 1996, fez a 9 de Novembro desse mesmo ano parte da equipa que ganhou à Ucrânia por 1-0, nas Antas, em partida de apuramento para o Mundial de 1998. Já era há dois anos o mais internacional dos jogadores portugueses, mas só nessa data se tornou o primeiro a atingir as 70 partidas pela seleção.

Despediu-se a 15 de Junho de 1997, jogando os 90 minutos da partida da consagração dos tricampeões, um 3-0 ao Gil Vicente. Desempenhou papel fundamental no pentacampeonato histórico do clube, não tanto pelo que jogou, mas sobretudo pelo que construiu em termos de balneário ao longo de mutos anos de vitórias. Após a retirada, continuou ligado ao clube, primeiro como treinador dos juniores depois como adjunto de Jesualdo Ferreira – e em ambas as facetas voltou a ser campeão nacional. Foi ainda treinador principal no SC Covilhã e no GD Chaves, antes de voltar ao Dragão, desta vez como conselheiro da SAD, funções que ainda desempenha.