Jogou um pouco na sombra do irmão Fernando, muito mais brilhante. Mas chegou perto dos 200 jogos na I Divisão por um Boavista ao qual dedicou a carreira e onde foi pau para toda a obra, de extremo direito a defesa esquerdo.
2017-11-19

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1948

Falar do Boavista dos anos 40 e 50 é um pouco falar dos irmãos Caiado. Eram três. Um, Fernando, era brilhante e parou lá pouco tempo, chamado ao Benfica para mostrar todo o seu esplendor. Outro, José, era o menos talentoso e não durou muito tempo no onze principal axadrezado. Quem mais se dedicou à causa acabou por ser o mais velho, António, que fez doze épocas no clube, onde ocupou todas as posições menos a de guarda-redes, marcando presença assídua numa subida de divisão e no quinto lugar de 1952 que, durante décadas, foi a coroa de glória do futebol do clube.

Ficam por esclarecer as razões pelas quais, sendo natural de Leça da Palmeira, António Caiado aparece em 1942/43 a jogar pelo Almada AC, no regional de Setúbal, e depois pelo Atlético, na II Divisão. Tendo em conta que estava entre os 19 e os 20 anos, é possível que tenha tido a ver com o serviço militar. Não é possível, além disso, saber por onde andou até 1945, quando surgiu na equipa do Farense. Certo é que por essa altura o Boavista conseguiu a subida à I Divisão, com Fernando no papel de estrela. E que em 1946 a ele se juntou António. Juan Martin, o treinador axadrezado, deu-lhe a estreia a 22 de Novembro de 1946, numa vitória por 2-1 no terreno do Estoril, como avançado-centro. Dias depois, a 1 de Dezembro, fez o primeiro dos cinco golos que haveria de marcar nesse campeonato, a pontuar a derrota por 2-1 frente ao Vitória SC, no Lima, que então servia de casa aos boavisteiros.

O ano de estreia teria mais dois episódios assinaláveis para António Caiado. A 1 de Fevereiro de 1947 o Boavista apresentou pela primeira vez os três manos Caiado em conjunto. O resultado é que não foi famoso: derrota por 7-1 com o Belenenses (ainda que o golo boavisteiro tenha sido de Fernando). Mais tarde, a 8 de Junho, António foi expulso, por agressão, logo aos 7 minutos de um jogo em casa com a Académica, que mesmo assim o Boavista acabou por vencer por 7-1. A “brincadeira” custou-lhe dois jogos de suspensão, mas ainda conseguiu estar de volta para o empate (3-3) com o FC Porto, em que os axadrezados carimbaram, à penúltima jornada, a manutenção na I Divisão. A segunda época, ainda com o mesmo treinador, marcou o início do recuo de António Caiado no terreno: começou por ser extremo direito, mas acabou-a como defesa direito. Marcou na primeira jornada (um 2-0 em Setúbal, ao Vitória) o único golo de uma temporada em que primou pela regularidade e pela defesa dos interesses da equipa, não falhando um único minuto dos 27 jogos que conduziram a mais um nono lugar do Boavista no campeonato e à eliminação na Taça de Portugal, logo à primeira, frente à Académica.Esteve, ainda, na vitória (2-1) sobre o Sporting, que viria a ser campeão.

António Caiado manteve a regularidade em 1948/49: como defesa-direito, voltou a fazer em campo todos os minutos do Boavista nessa época. A equipa é que não correspondeu da mesma forma e, sendo última, caiu na II Divisão. É verdade que o regresso foi rápido e retumbante, pois os axadrezados impuseram-se na fase final do escalão secundário, com seis vitórias em outros tatos jogos contra Oriental, Académico de Viseu e União de Montemor. E no regresso ao escalão principal, em 1950, António Caiado já apareceu como médio-centro. O treinador, Eduardo Augusto, queria aproveitar o rigor defensivo e de marcação do mais velho dos Caiado, utilizando-o numa posição que no WM equivalia ao defesa central dos tempos modernos. E, apesar de alguns percalços, como um autogolo que custou ao Boavista um empate em casa com o Benfica (1-1), na antepenúltima jornada, voltou a fazer todos os minutos do campeonato e da carreira da equipa na Taça de Portugal, onde caiu eliminada pelo Estoril.

Foi com a chegada do argentino Lino Taioli para treinador, mas também com o crescimento de Fernando Caiado e Serafim Batista, que em 1951 se formou o melhor Boavista até à data. António Caiado foi, mais uma vez, um pêndulo numa equipa que nessa época de 1951/52 foi capaz de ganhar ao FC Porto, ao Sporting e ao Belenenses e acabou o campeonato em quinto lugar: foi sempre titular até às quatro derradeiras jornadas, às quais faltou, presumivelmente lesionado, e nas quais o Boavista somou três derrotas, sofrendo 12 golos. Foi o auge de uma equipa inevitavelmente afetada pela saída do seu melhor jogador – Fernando Caiado assinou no final dessa época pelo Benfica. António Caiado voltou a ser totalista no nono lugar de 1952/53 e, transformado em defesa-esquerdo pelo espanhol Aparício, falhou apenas duas partidas na sofrida permanência de 1953/54. A chegada às meias-finais dessa edição da Taça de Portugal (eliminação pelo Vitória FC) podia fazer pressupor uma equipa em crescendo, mas não foi isso que se viu.

Em 1955, já liderados por Janos Zorgo, os boavisteiros voltaram a descer de divisão. Totalista em mais um campeonato, António Caiado esteve no jogo da desilusão: a 17 de Abril de 1955, na penúltima jornada, o Boavista precisava de pelo menos pontuar no terreno do Barreirense para manter a esperança de alcançar o SC Covilhã na antepenúltima posição. Perdeu por 1-0 e de nada lhe serviu, já, a vitória por 3-1 frente à Académica, uma semana depois, na última jornada. Esse acabaria por ser o último jogo de António Caiado na I Divisão. Passou mais três épocas no escalão secundário, ficando em duas delas à beira da subida: em 1955/56 ganhou a Zona Norte mas foi depois quarto na fase final, atrás de Oriental, Vitória SC e Salgueiros; e em 1957/58, tendo sido terceiro na Zona Norte, voltou a ser quarto na fase final, desta vez atrás de SC Covilhã, Vitória SC e Farense. Nessa altura, com 34 anos, retirou-se, assistindo já como espectador à subida consumada em 1958/59.