Extremo veloz e de finta desconcertante, chegou a Portugal já com 27 anos e carreira feita no Brasil. Uma longevidade assinalável permitiu-lhe jogar por mais uma década, com seis anos na I Divisão, sempre a bom nível.
2017-11-13

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1978

O Sporting da segunda metade dos anos 80 podia ser um “case study” de insucesso desportivo originado fora do campo. Guerras diretivas no seio de um clube órfão da liderança forte de João Rocha levaram ao aparecimento do mito do Natal, segundo o qual a equipa arrancava forte mas acabava sempre por cair, mesmo tendo treinadores credenciados e jogadores com currículo e qualidade. Um desses jogadores foi Silvinho, um ponta-esquerda de seleção brasileira, que chegou em 1986 para reforçar o ataque leonino mas, apesar do rendimento que ia mostrado semana após semana, foi dois anos depois incluído como moeda de troca para a contratação do defesa Miguel ao Vitória de Guimarães. Em Portugal, Silvinho ainda jogou no Tirsense, bem como em várias equipas da II Liga e da II Divisão B, prolongando a atividade até aos 38 anos, altura em que voltou ao Brasil.

Foi no Brasil que tudo começou. Silvinho despontou no América de Rio Preto, no estado de São Paulo. Davam-lhe dormida e 800 cruzeiros por mês de ajudas de custo, pelo que ele não hesitou e foi jogar para 300 quilómetros da cidade natal, Franca. Em 1979, antes de fazer 20 anos, foi chamado para a seleção brasileira que foi jogar os Pan-Americanos, em Porto Rico. Voltou de lá com a medalha de ouro, a condição de estrela daquela equipa de jovens promessas e mais esperança de se impor na equipa do Internacional de Porto Alegre, que antes do torneio já o tinha contratado. A mudança era grande, de São Paulo para o sul do Brasil, além de que no Inter morava Mário Sérgio, um concorrente de peso pela posição na equipa que ficou conhecida como “Esquadrão Imortal”, por ter ganho o Brasileirão sem derrotas. O moleque jogou pouco, mas aprendeu muito. E na verdade só um par de anos depois conseguiu assumir-se como titular pleno do “Colorado”.

Silvino ainda foi a tempo de ganhar muita coisa como membro do onze-base do Inter. Foi campeão brasileiro em 1979 e tetracampeão gaúcho entre 1981 e 1984, com a particularidade de ter marcado um golaço de chapéu que decidiu a final de 1981. Em 1984 teve também a honra de ser selecionado para a equipa do Brasil que foi representar o país nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, voltando de lá com uma medalha de prata. Daí que, em 1986, quando o clube de Porto Alegre procurava novas promessas e começava a libertar as certezas, lhe tenha sido dada a possibilidade de emigrar para a Europa. Silvinho, que ganhara a fama de cair muitas vezes por se revelar incapaz de evitar as cargas dos laterais adversários, assinou então pelo Sporting, clube que estava no início do que viria a ser um longo jejum de títulos nacionais após o campeonato de 1982. À chegada, podia ter percebido: esta foi a época em que Manuel José começou a trabalhar em Alvalade com apenas 13 jogadores. Silvinho começou o campeonato no banco e apenas se estreou à terceira jornada, entrando ao intervalo de um jogo em casa com o Salgueiros para ajudar a desfazer um 0-0 que ameaçava eternizar-se. Ainda pôde participar nos históricos 7-1 ao Benfica, entrando a 11’ do fim para o lugar de Litos, mas o seu primeiro ano em Alvalade foi mesmo de adaptação.

O Sporting acabou o campeonato em quarto lugar e Silvinho só se assumiu verdadeiramente como titular quando Manuel José saiu e para o seu lugar chegou o inglês Keith Burkinshaw, em Janeiro. Ainda fez dois golos e jogou a final da Taça de Portugal, ainda que perdendo-a com o Benfica, por 2-1. Essa foi, no entanto, a chave para o único troféu que o extremo viria a ganhar com a camisola verde-e-branca: em 1987/88, marcou nas duas partidas da Supertaça, frente ao Benfica, ajudando a duas vitórias (3-0 na Luz e 1-0 em Alvalade). A segunda época de Silvinho, aliás, foi muito melhor do que a primeira, mas o Sporting voltou a não ir além do quarto lugar na tabela. Isso motivou a revolução “gonçalvista”, com a eleição de um novo presidente e a chegada das famosas “unhas do leão”. Uma dessas unhas era Miguel, defesa central que chegou do Vitória de Guimarães, que em troca exigiu três jogadores: Germano, Vítor Santos e Silvinho. E, mesmo tendo o extremo sido titular durante boa parte da temporada, acabou mesmo por ser cedido para o Minho.

Em Guimarães, as coisas correram-lhe ao contrário. Fez uma excelente primeira época, sob o comando de Geninho, na qual apesar do modesto nono lugar no campeonato, a equipa ganhou a Supertaça ao FC Porto (2-0 em casa e 0-0 nas Antas). Mas à segunda época, com o regresso do treinador Paulo Autuori e a sua preferência por um sistema com três defesas centrais e laterais que fizessem todo o corredor, transformou-se em “arma secreta”. O Vitória subiu na tabela – foi quarto classificado – mas Silvinho passou à condição de suplente utilizado e, depois, de dispensável. Ainda assim, aos 31 anos, achava que tinha muito para dar ao futebol, pelo que assinou pelo Tirsense. O Professor Neca deu-lhe uma posição móvel no ataque e ele respondeu com golos: sete, o máximo que marcou num campeonato. Não chegaram, ainda assim, para evitar a despromoção, fruto do 16º lugar final (em 20 equipas).

Silvnho ficou mais duas épocas em Santo Tirso. Na primeira ajudou a equipa a regressar à I Divisão, na segunda não conseguiu evitar nova descida. Despediu-se do campeonato principal a 6 de Junho de 1993, com uma derrota (0-1) frente ao Farense no São Luís que significou a salvação do Salgueiros (que ao mesmo tempo empatava em Espinho). O extremo brasileiro ainda jogou mais duas épocas na II Divisão de Honra, com as camisolas do Nacional (nove golos) e do FC Paços de Ferreira. Dali, José Rachão ainda o levou com ele para o FC Maia, com cujas cores fez a época de 1995/96, na II Divisão B. Aos 37 anos, pensar-se-ia que era o fim, mas não: Silvinho ainda foi fazer uma perninha no EC Novo Hamburgo, equipa da II Divisão do estadual de Rio Grande do Sul, no Brasil. Só depois voltou a Portugal, onde começou a trabalhar fora do futebol e a explorar o jeito que tinha com o pandeiro, atuando no restaurante do ex-futebolista Edmilson, no Porto.