Chegou do Algarve para ser um garante de segurança defensiva. Inultrapassável naquela ponta final do campeonato ganho pelo Belenenses, foi um dos agraciados com a medalha de mérito e valor desportivo pelo clube.
2017-11-11

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1939

Não era uma das Torres de Belém, alcunha dada a Capela, Vasco e Feliciano, mas com eles e Serafim garantia que a defesa do Belenenses era das mais temidas do futebol português. Gomes era um médio centro forte na marcação e a cara de uma equipa do Belenenses que, em 1946, fez do arreganho a maior arma para a conquista do título nacional. Isso viu-se, por exemplo, na forma como, mesmo com ele lesionado e incapacitado por toda a segunda parte, os azuis deram a volta a um jogo com o FC Porto, que tinham estado a perder por 2-0: ganharam-no por 3-2 e mantiveram a liderança. Depois, no mês de ausência de Gomes, o Belenenses ainda sucumbiu em Olhão (0-2), perdendo o primeiro lugar para o Benfica. Mas, com ele de volta, a equipa azul impôs a sua lei nas últimas doze jornadas: 12 vitórias consecutivas valeram o único título de campeão nacional no historial do clube.

A ausência em Olhão pode ter custado a Gomes, porque foi naquela idade algarvia que ele nasceu e se fez jogador. Muito jovem ainda e já figurava na equipa do Olhanense que, impedida de disputar a I Liga e, depois, a I Divisão pelo esquema de atribuição de lugares às associações regionais, ia ganhando a respetiva série da II Divisão sem grande oposição. E aparecia no final da época a jogar o Campeonato de Portugal, a proa a eliminar que encerrava a temporada de futebol. Não costumava ir longe, porém: em três participações, caiu sempre à primeira ronda, eliminado pelo FC Porto em 1935, pelo Boavista (ao terceiro jogo e com um golo de Gomes nos 3-0 da primeira mão, em Olhão) em 1936 e pelo Sporting em 1937. Até que, em 1938, Gomes rumou ao Belenenses: o seu futebol era demasiado para o enquadramento competitivo daquela equipa do Olhanense.

A 8 de Janeiro de 1939, Gomes fez a estreia no campeonato nacional, alinhando na equipa do Belenenses que foi à margem sul do Tejo vencer o Barreirense por 2-0. Na jornada seguinte, surpreendeu: fez cinco golos nos 7-1 ao Casa Pia. Marcou em 90 minutos quase metade de todos os golos que haveria de fazer em quase centena e meia de jogos. Não marcaria mais nesse campeonato, que o Belenenses terminou em quarto lugar, mas acabou a época como totalista, não falhando um minuto de jogo. O mesmo sucederia na Taça de Portugal, onde até fez um golo ao Vila Real (9-0 de resultado final), mas se revelou impotente para ajudar a equipa a eliminar o Sporting nos quartos-de-final. A primeira batalha, no entanto, estava ganha: tinha-se imposto na equipa, onde se tornara indiscutível como médio-centro, uma espécie de defesa-central da atualidade no WM que se usava por aqueles tempos.

Sem marcar no campeonato de 1939/40, Gomes ajudou o Belenenses a superar a barreira onde tinha caído um ano antes na Taça de Portugal: pertenceu-lhe um dos golos nos 4-1 que valeram a eliminação do Sporting nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Superado também o FC Porto (que tinha sido campeão nacional), em três jogos e sempre com Gomes no onze, a equipa liderada por Scopelli (como treinador-jogador) apurou-se para a final. Aí, o Benfica foi mais forte e impôs-se, no Lumiar, por 3-1. As épocas do Belenenses iam-se tornando rotineiras: somava terceiros lugares no campeonato (foram quatro seguidos, entre 1940 e 1943) e perdia as finais da Taça de Portugal. A 22 de Junho de 1941, depois de eliminado o Benfica – mais uma vez em três jogos e sempre com ele no onze – Gomes jogou a segunda final… e voltou a perder. Desta vez o adversário da equipa agora liderada por Artur José Pereira foi o Sporting, que ganhou por 4-1.

A exceção e a primeira grande alegria chegaria na época seguinte. Depois de mais um terceiro lugar no campeonato – e desta vez, mesmo tendo estado afastado nas primeiras oito jornadas, Gomes até fez um golo, nos 9-0 ao Leça – o Belenenses chegou à terceira final da Taça de Portugal consecutiva. Tinha eliminado o FC Porto, o Olhanense e o Unidos de Lisboa, sendo que a final, mais uma vez marcada para o Lumiar, seria contra o Vitória de Guimarães. Desta vez, no entanto, os azuis ganharam: 2-0, com golos de Quaresma e Gilberto. Era o primeiro troféu que Gomes ganhava e admitia-se que aquele fosse o passo para o Belenenses chegar lá acima no campeonato. Mas não: as coisas haveriam de piorar antes de melhorarem. Em 1942/43, a equipa azul ainda liderou por quatro jornadas e acabou a prova em terceiro lugar – Gomes foi totalista e marcou em Coimbra, nos 4-2 à Académica - mas já não foi além da segunda eliminatória da Taça de Portugal. E em 1943/44, apesar de ter iniciado a época com o título de campeão de Lisboa – e ganho de forma retumbante, com nove vitórias em outros tantos jogos –, terminou o campeonato nacional num invulgar sexto lugar, com seis derrotas nos nove jogos da segunda volta.

A retoma começaria no terceiro lugar de 1944/45, mas teria verdadeiros efeitos a partir da segunda metade do ano de 1945. O Belenenses recuperou o título de campeão regional e fez um campeonato nacional notável de solidez, subindo à primeira posição à quarta jornada, após uma vitória suada contra a Oliveirense (1-0). É certo que a perdeu à décima, com a derrota em Olhão, mas a partir daí ganhou sempre até final do campeonato. Gomes só falhou dois jogos, na sequência da lesão contraída ante o FC Porto, a 3 de Fevereiro: a derrota em Olhão e a vitória em casa com O Elvas (5-2), na jornada seguinte. Estava em campo nos decisivos sucessos contra o Sporting (2-1) e o Benfica (1-0 a 5 de Maio, a três jogos do fim, que serviu para recuperar a primeira posição). E depois foi aguentar: 1-0 contra o FC Porto, na Constituição; 6-0 ao Olhanense nas Salésias e 2-1 em Elvas, a motivar o cortejo de vitória a caminho de Lisboa, que meteu até aclamação na travessia do Tejo de barco.

Gomes estava com 30 anos e naquele tempo os futebolistas não tinham a longevidade de hoje. Ainda fez mais uma época, mas o Belenenses estava longe da equipa sólida que tinha ganho o campeonato: nas primeiras oito jornadas, perdeu quatro vezes. Gomes despediu-se do campeonato com um golo, a 2 de Julho de 1947: marcou, num remate de longe, o quinto de um 5-1 com que o Belenenses ganhou, fora, ao FC Famalicão. Saiu do futebol e acabou por morrer ainda muito jovem, antes de fazer 50 anos.