Fez 290 golos em 281 jogos pelo Benfica no campeonato nacional, e além disso foi o capitão das duas Taças dos Campeões Europeus ganhas pelos encarnados. José Águas era um avançado fino e um finalizador brilhante até na perceção de quando o seu tempo estav
2017-11-09

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1950

Duas Taças dos Campeões Europeus tem o Benfica, de 1961 e 1962, e as duas foram ganhas com José Águas como capitão de equipa. Cabeceador exímio, jogador de uma elegância sem limites, que quase parecia parar no ar, Águas já era benfiquista sofredor muito antes de vestir a camisola vermelha com a águia ao peito, mas nem por isso costumava deixar que o sentimento lhe toldasse o raciocínio. Foi assim que, um ano após a segunda final, ao perceber que o novo treinador, Fernando Riera, preferia o jovem José Torres, emigrou. A oportunidade da festa de despedida, levada a cabo quatro dias antes de completar 33 anos, deu razão ao que dele escrevera Ribeiro dos Reis, logo após o seu segundo jogo pelo Benfica, mais de uma década antes: “Não joga só com a cabeça, mas com o que tem dentro dela”.

Apesar de tudo, a impulsão, a escolha do momento ideal para dar o salto e a técnica irrepreensível no futebol aéreo eram as suas caraterísticas mais marcantes. Além das duas Taças dos Campeões, ganhou no Benfica cinco campeonatos nacionais e sete Taças de Portugal, ficando conhecido na história do futebol português como o “Cabecinha de Ouro”. As armas que lhe permitiram marcar 290 golos em 281 jogos de campeonato – e mais onze em 25 partidas pela seleção – seriam, em parte, genéticas, pois transmitiu-as ao filho, Rui Águas, que também veio a ser goleador do Benfica e da equipa nacional nas décadas de 80 e 90. Ao contrário do pai, porém, Rui vestiu outras camisolas em Portugal, entre elas a do rival FC Porto, que nos anos 50 tentara ficar com José em manobra de antecipação. Mas José nem quis ouvir falar disso: afinal, em Luanda, nas peladas de amigos e no campeonato corporativo, em que representava a firma onde era escriturário, diziam que ele jogava “à Julinho”, um dos maiores avançados da história do Benfica.

O pai morreu quando ele tinha só três anos, pelo que aos 15 já José Águas trabalhava na Robert Hudson, a empresa inglesa pela qual fez os primeiros jogos de futebol a sério. O irmão mais velho jogava no Lusitano do Lobito e quis levá-lo para lá, mas a mãe não deixou: José era muito magrinho e, se tinha de jogar futebol, pois então que fosse por quem lhe pagava ao fim do mês. Felizmente para ele, dona Elisa cedeu a tempo de permitir que o filho integrasse a seleção do Lobito que defrontou o Benfica em 1950, na digressão africana com que os encarnados celebraram a conquista da Taça Latina. Já então estava recomendado aos dirigentes da metrópole por uns amigos, que o anunciavam como “um novo Vítor Silva” (outro famoso avançado benfiquista), pelo que os dois golos que fez no jogo, decisivos para a derrota dos encarnados por 3-1, lhe valeram um contrato por um ano. Ted Smith, o corpulento treinador inglês do Benfica, deu-lhe o seu próprio casaco vermelho com o emblema do clube, para que Águas integrasse o remanescente da digressão – ficava-lhe mal, muito largo, mas nem por isso o novo avançado deixou de brilhar em campo, com uma camisola mais ao seu jeito.

Só viajou para Lisboa a 18 de Setembro de 1950. E, a 24, dias depois de ter feito o primeiro treino com pitons e em relva, estreou-se pelo Benfica, contra o Atlético. Fracasso total! “Deixei-me dominar pelos nervos”, justificou-se o jovem, que no entanto não precisou de esperar mais do que uma semana pelo êxito. A 1 de Outubro, no Campo Grande, marcou quatro golos nos 8-2 com que o Benfica ganhou ao SC Braga. E dele escreveu Ribeiro dos Reis: “Não se trata do ariete que teta furar a defesa adversária em jeito de cunha, valendo-se para o efeito dos recursos físicos. Trata-se de um avançado-centro habilidoso, cuja maior arma nos parece ser a sua extraordinária souplesse de movimentos”.

Os adeptos rodeavam o novo goleador de atenções às quais ele não estava habituado. Duas semanas depois, após a receção ao SC Covilhã, para fugir à multidão que à saída do estádio o engolia quando ele tentava apanhar um elétrico que o levasse ao Lar dos Jogadores, Águas aceitou boleia de um homem que se ofereceu para o levar até à Baixa. A meio do caminho, Joaquim Lopes, o condutor, convidou-o para uma taça de champagne, pois a sua filha, Maria de Lurdes, casara-se nesse dia e a festa decorria na Casa de Tomar. Águas foi e conheceu a futura mulher, Maria Helena, a irmã da noiva. Além de Rui Águas, outro dos filhos do casal seria a cantora Lena d’Água, figura de destaque no pop português dos anos 80.

Os sucessos era já rotina para José Águas. Com 23 golos no campeonato e mais seis na Taça de Portugal – que o Benfica viria a conquistar, ganhando por 5-1 à Académica a final, com Águas no onze e um póquer de Rogério – estreou-se pela seleção B a 13 de Maio de 1951 , marcando um hat-trick à França. “O Lobito venceu a França por 3-1”, escreveu Carlos Pinhão no Mundo Desportivo. Em 1951/52, com 28 golos, foi pela primeira de cinco vezes o melhor marcador do campeonato. O Benfica é que não foi além do segundo lugar, voltando a ganhar a Taça de Portugal, desta vez com uma épica vitória de 5-4 sobre o Sporting numa final em que Rogério voltou a ser o destaque maior, com um hat-trick. Águas, porém, faria um dos golos encarnados nessa tarde. E a 23 de Novembro, já no início da época seguinte, chegou à seleção A, jogando no empate contra a Áustria. O jogo da retribuição marcou-lhe a primeira viagem de serviço: fez um golo, mas Portugal perdeu em Viena por 9-1 e foi eliminado do Mundial de 1954.

A falta a uma grande competição internacional – no seu tempo de internacional, Portugal falhou também os Mundiais de 1958 e 1962 – terá sido o maior vazio numa carreira recheada de títulos, mas que tardava a arrancar em termos de campeonato. Só em 1955 Águas conseguiu ser campeão nacional, curiosamente no ano em que fez menos golos desde a sua chegada a Lisboa: “apenas” 20, aos quais somou mais sete na Taça de Portugal, ganha na final ao Sporting, outra vez com outro goleador a brilhar (Arsénio, autor de um bis). Esse foi o épico campeonato ganho à conta do Sporting, que no último dia empatou com o Belenenses no Restelo, quando os azuis já mandavam os foguetes da vitória final. Águas acabou-o em grande, com um bis nos 3-0 ao Atlético, que garantiam o título. Foi, ainda assim, o Sporting quem foi jogar a edição inaugural da Taça dos Campeões Europeus, em 1955/56: a estreia europeia de Águas aconteceria na Taça Latina, em Milão, em Junho de 1956, e ficou marcada por um golo que pôs cobro ao desafio para atribuição do terceiro lugar, contra o Nice. Ganhou o Benfica por 2-1, após 132 minutos e já no segundo prolongamento.

A dobradinha de 1956/57 viu-o chegar pela primeira vez aos 30 golos no campeonato, com destaque para os cinco que fez num 6-0 à CUF, a 13 de Janeiro. Voltou a marcar na final da Taça de Portugal (que o Benfica ganhou por 3-1 ao SC Covilhã), mas não foi capaz de o fazer na Taça Latina, cuja final os encarnados, já liderados por Otto Glória, perderam para o Real Madrid (0-1), no Santiago Bernabéu. O regulamento, desta vez, já era claro e foi mesmo o Benfica quem foi representar Portugal na Taça dos Campeões Europeus. Só que a equipa não estava ainda preparada e caiu logo à primeira eliminatória, contra o FC Sevilha. Depois do título de 1959/60, seria já com ele a capitão, em substituição de Artur Santos – que entretanto perdera o lugar no onze –, que o Benfica viria a ter sucesso internacional. Águas marcou onze golos na vitória na primeira Taça dos Campeões Europeus, só ficando em branco uma vez: curiosamente, na única derrota que a equipa portuguesa cedeu em nove jogos, um 1-2 irrelevante frente ao Ujpest, na Hungria, depois de já ter ganho por 6-2 em casa. Na final, ganha por 3-2 ao FC Barcelona, em Berna, fez o primeiro golo encarnado e mostrou um largo sorriso no momento de levantar a Taça.

Este era um Benfica cada vez mais forte. Já tinha Eusébio, já tinha Coluna, já tinha José Augusto. Anda assim, em 1961/62, perdeu o campeonato. Águas fez 18 golos, ainda foi o melhor marcador da equipa na prova, mas não na época, fruto da propensão goleadora de Eusébio na Taça de Portugal. Na Taça dos Campeões, porém, foi ele quem mais marcou. Foram seis golos em novo troféu internacional, um dos quais, mais uma vez, na final. Desta vez, o Benfica ganhou em Amesterdão ao Real Madrid, por 5-3, e Águas fez o primeiro golo português, a travar um início fortíssimo dos espanhóis, que tinham chegado a 2-0 em 23’. No fim da época, porém, Béla Gutmann deixou o Benfica. Para o lugar dele chegou o chileno Fernando Riera. E, é assim a lei da vida, o novo treinador preferiu um avançado-centro mais jovem. A chegar aos 32 anos, Águas passou à condição de suplente de Torres e fez apenas quatro jogos em mais um título do Benfica. Despediu-se do campeonato com um golo, numa vitória por 3-2 em casa, frente ao Vitória FC, a 9 de Março de 1963. A 23 de Junho, representou oficialmente o Benfica pela última vez, numa derrota frente ao Sporting, na Luz, por 2-0, que impediu a equipa de chegar à final da Taça de Portugal. O último golo marcara-o aos leões, uma semana antes, em Alvalade, numa vitória por 1-0 que foi a primeira mão dessa meia-final.

No final da época, Águas transferiu-se para o FK Austria de Viena. Fez por lá uma época a jogar antes de regressar e de, já como treinador, ter sido campeão da II Divisão, pelo Atlético, em 1966. Mas aquilo não era vida para ele: até morrer, em Dezembro de 2000, vitimado por um cancro, dedicou-se sobretudo à venda de automóveis.