O título do Sporting, em 1980, é para muitos o do autogolo de Manaca. Poucos falam de uma defesa de Fidalgo, nesse mesmo jogo, a garantir o 1-0 dos leões em Guimarães. Foi o momento alto da carreira de um guarda-redes que passou demasiado tempo na sombra.
2017-11-07

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1972

Filho de guarda-redes, irmão mais velho de um núcleo de onde saíram voleibolistas, hoquistas e ginastas, António Fidalgo pôs a elasticidade genética ao serviço do futebol. Cedo se percebeu que era bom, mas infelizmente para ele raramente foi tão bom como os melhores, o que o levou a passar várias épocas como suplente nos maiores clubes nacionais. Foi duas vezes campeão nacional pelo Sporting, mas não chegou à centena de jogos no campeonato, porque raramente se dedicou a tarefas onde até foi bem sucedido, como as de evitar a descida de divisão de Leixões ou Salgueiros ou a estabilização do SC Braga na metade superior da tabela. No fim, pode sempre recordar uma extraordinária defesa em Guimarães, na ponta final do jogo que ganhou o campeonato de 1979/80 para os leões: esbarrou no poste, a ponto de ficar inconsciente, mas evitou o golo num remate à queima e segurou o 1-0 que deixava o título à distância de uma vitória em casa contra a União de Leiria.

A chegada de Fidalgo ao Sporting foi tortuosa, mas podia ter sido muito antecipada. Em miúdo, já depois de a família trocar Gaia por Espinho, gostava de jogar a avançado, mas tinha jeito era para defender as balizas. Um dia, o pai, Silvino, ele mesmo um ex-guarda-redes do SC Espinho, recomendou-o a António Cântara, treinador dos tigres, mas por alguma razão foi experimentado no ataque. Veio para trás, até que o pai insistiu: “o rapaz é bom é na baliza”. E quando o viram defender, já não o largaram. Fez toda a época a equipa de juniores e, mesmo tendo ainda idade de juvenil, chegou a jogar pelos seniores na Taça Ribeiro dos Reis, competição de encerramento da temporada. Nessa altura, o jovem António achou que podia almejar a mais e quis ir treinar ao FC Porto. Não chegou a fazê-lo, alegadamente porque não havia equipamentos. Recebeu um convite para ir à experiência ao Sporting, mas com uma nuance: as despesas de deslocação só seriam cobertas se agradasse. Não foi. Até que, por influência de Fernando Caldeira, um amigo da família que vivia em Lisboa, foi a uma captação do Benfica. No final, deram-lhe logo um contrato para assinar, prémio de 20 contos, pensão paga para se mudar e extra para despesas todos os meses.

No Benfica, Fidalgo chegou à seleção de juniores, pela qual jogou torneios internacionais ao lado de Shéu, João Alves, Gregório Freixo ou Rodolfo Reis. Mais difícil era chegar à equipa principal. Na sua chegada aos seniores, em 1971/72, o Benfica de Hagan ganhou campeonato e Taça de Portugal, mas Fidalgo nem ao banco foi, tão imponentes eram as presenças de José Henrique e Fonseca. Na época seguinte veio o tricampeonato, mas Fidalgo limitava-se às reservas, pois se Fonseca tinha saído era para acomodar a entrada de Bento, que passou a discutir as redes com José Henrique. As coisas não melhoraram em 1973/74: o Benfica perdeu o campeonato e, a contas com a incorporação militar, Fidalgo voltou a não conseguir sequer um lugar no banco. No final da época, porém, teve uma aberta: a três jornadas do fim do campeonato, com a equipa em penúltimo lugar e a temer a queda na II Divisão, os responsáveis do Leixões pediram ao Benfica o empréstimo de Fidalgo. Ele foi para norte e, a 5 de Maio de 1974, o brasileiro Haroldo de Campos deu-lhe a estreia na Liga, numa vitória caseira sobre a CUF (3-1), que levou o Leixões a subir um lugar.

A derrota (1-0) no Montijo, uma semana depois, anda deixou o Leixões em último, mas a vitória frente ao FC Porto (2-0), na última jornada, permitiu a subida à 14ª posição e a entrada na Liguilha, com Atlético, CD Fafe e Beira Mar. Com Fidalgo nas redes, o Leixões ficou invicto nos seis jogos da Liguilha e manteve-se na I Dvisão. O guarda-redes voltou então à Luz com outra legitimidade para reclamar uma oportunidade. O treinador do Benfica também era novo, o jugoslavo Pavic, mas nem assim as coisas melhoraram: Bento e José Henrique fizeram todos os jogos da época e quando houve lugar para outro no banco foi Álvaro o chamado a ocupá-lo. Foi Mário Wilson quem, em 1975/76, o levou pela primeira vez para o banco. Tudo somado ao facto de ter podido defender as redes do Benfica num particular com o FC Porto que serviu para a inauguração da arquibancada do Estádio das Antas, em final de Abril de 1976 (jogou a segunda parte de uma derrota por 3-1, mas não sofreu golos), foi suficiente para o convencer a renovar por mais três anos. É verdade que em seis épocas ainda não fizera um jogo oficial pelo Benfica, mas o contrato incluía um ano de empréstimo ao SC Braga, e essa era uma ideia que agradava a Fidalgo.

Em Braga, aos 23 anos, teve pela primeira vez um ano com continuidade nas balizas. E respondeu à altura. Falhou apenas sete minutos de toda a temporada – quando, aos 83’ de uma vitória por 2-0 sobre a Académica, em casa, Mário Lino o substituiu por João – contribuindo para a oitava posição final dos minhotos e para a chegada à final da Taça de Portugal, prova na qual sofreu apenas três golos em oito jogos. Um deles marcado por Gomes, no jogo da decisão, em pleno Estádio das Antas, a 17 de Maio de 1977: o FC Porto ganhou essa final por 1-0 e impediu Fidalgo de conquistar o seu primeiro título enquanto sénior. As onze balizas virgens que tinha mantido em 30 jornadas e o destaque global no Minho valeram-lhe, desta vez, outro estatuto no regresso à Luz. Com John Mortimore, em 1977/78, Fidalgo foi finalmente o segundo na hierarquia das balizas do Benfica, apenas atrás de Bento, que era titular da seleção. Foi-se sentando no banco, à espera de uma oportunidade, que surgiu a 18 de Dezembro de 1977, no Estoril, quando Bento se magoou a dez minutos do fim.

Ao todo, nessa época, Fidalgo fez cinco jogos no campeonato, dois como suplente utilizado e outros dois na sequência da suspensão do titular, que foi expulso em Setúbal, à 26ª jornada. Entre os jogos que Fidalgo fez esteve a decisão do campeonato, nas Antas: o Benfica empatou a uma bola com o FC Porto e acabou por ficar em segundo lugar, tornando-se a única equipa da história do futebol nacional a não vencer um campeonato no qual não sofreu derrotas. Fidalgo, mesmo assim, chegou às seleções nacionais: a 9 de Outubro de 1978 jogou pelas “esperanças”, num 0-0 com a Bélgica; e a 14 de Novembro alinhou pela seleção B numa derrota (0-1) com a Áustria, em Linz, na qual fraturou o nariz. No Benfica é que não havia maneira. Após mais um campeonato sem jogar – em toda a época jogou apenas 27 minutos, na Taça de Portugal, contra o Beira Mar – decidiu não renovar contrato e assinou pelo Sporting, onde a baliza não tinha dono desde a saída de Damas para o futebol espanhol.

No Sporting, Rodrigues Dias não se decidia entre Fidalgo e Vaz. Cada um fez, por exemplo, um dos jogos contra o Bohemians e contra o FC Kaiserslautern, na Taça UEFA. Até que uma fratura de menisco com danos nos ligamentos de Fidalgo, num jogo com o Marítimo, inclinou os pratos da balança em favor de Vaz. O período de paragem foi longo, mas Fidalgo ainda voltou para as jornadas decisivas. Depois de um empate a uma bola nas Antas, com o FC Porto, ainda com Vaz na baliza, Fernando Mendes – que entretanto assumira o papel de treinador principal – chamou Fidalgo para as três últimas e decisivas jornadas. Nelas, o Sporting não sofreu golos, ganhando especial relevo a vitória por 1-0 em Guimarães, na penúltima ronda. O golo leonino foi marcado por Manaca, um ex-leão, na própria baliza, mas a proeza do jogo cometeu-a Fidalgo, com aquela super-defesa que o deixou KO, mesmo perto do fim da partida. Aos 27 anos, e apesar de já ter feito parte de vários plantéis campeões no Benfica, Fidalgo era pela primeira vez campeão nacional a jogar.

Fidalgo ainda passou mais três anos no Sporting, mas em nenhum atingiu tamanho plano de relevo. Vaz tomou conta da baliza à segunda época e na terceira chegou a Alvalade Meszaros. Quatro minutos jogados no Estoril, no dia da certeza matemática do título, a 9 de Maio de 1982, valeram-lhe um segundo campeonato ganho, mas entretanto Melo, contratado ao Vitória SC, passara-lhe à frente como segunda opção atrás do internacional húngaro. Em 1983, Fidalgo deixou o Sporting para assinar pelo Salgueiros, em cujas redes se estreou precisamente num jogo contra os leões: empate a um golo em Vidal Pinheiro, a 24 de Setembro. Em Fevereiro de 1984, porém, após uma derrota em Espinho, a direção demitiu Otávio Machado das funções de treinador. Para o substituir, chamou Fidalgo, que se estreou como treinador-jogador com uma vitória (2-1) frente ao Vitória SC, em casa. A experiência durou três jornadas, até à chegada de António Jesus, mas este não durou muito à frente do clube e acabou por ser Fidalgo o treinador que salvou a equipa da descida, com uma vitória por 1-0 sobre o Boavista, na última jornada. Nessa altura já apenas como técnico, com Pinto na baliza.

Finda a temporada, Fidalgo ainda assinou pelo Estoril, onde passou dois anos na II Divisão. Foi no Estoril, também, que acabou a carreira, aos 33 anos, outra vez com problemas num joelho. Ali se fez treinador, chamando, por exemplo, Fernando Santos para seu adjunto – e o atual selecionador nacional acabou por substituí-lo em 1987, quando Fidalgo foi contratado para o Salgueiros, da I Divisão. Treinou várias outras equipas até se decidir pelos gabinetes. Foi diretor desportivo no Marítimo e é hoje comentador televisivo e radiofónico, bem como formador em coaching desportivo e programação neuro-linguística.