Futebolista de raro talento, um dos melhores da sua geração, Peres tinha uma particularidade: pensava pela própria cabeça e escalava o confronto. Isso levou-o a interromper a carreira dos 30 anos até ao fim da Lei de Opção, em 1974.
2016-01-08

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1962

Peres foi um extraordinário futebolista, um médio e extremo esquerdo de finíssimo recorte técnico, campeão português e brasileiro e figura da seleção nacional, mas não pode ser visto apenas como tal. Porque Peres teve pelo seu lado uma virtude que naquele tempo era vista como um defeito: pensava pela própria cabeça. E às vezes escalava conflitos, só para vincar um ponto de vista. Só assim se percebe que se tenha envolvido em tantas guerras. Ou que tenha suspenso a carreira aos 29 anos, quando era uma figura do Sporting e da seleção nacional. Aquele que provavelmente foi o maior adversário da abominável “Lei da Opção” teve sempre as coisas muito claras: podiam acusá-lo de ser mercenário, chamar-lhe “chupa-sangue”, mas ele via o futebol como profissão. E jogava pelo salário.

O início, como todos os inícios, não foi virado para as contrapartidas. O miúdo de Caselas que deu os primeiros chutos no Campo de Golfe dos Ingleses, perto do cemitério da Ajuda, jogava futebol porque gostava e porque fazia coisas invulgares com o pé esquerdo. Os pais, que até gostavam do Belenenses, não tinham grande fé no futebol e tentaram desviá-lo daquele futuro, chegando a mudá-lo de escola, para evitar que se desgastasse a correr atrás da bola. Mas o pequeno Fernando não desistiu. E em Abril de 1961 começou a ver frutos, quando a seleção nacional de juniores de que fazia parte conquistou o título europeu da categoria, batendo na final a Polónia por 4-0. No Belenenses, de cuja equipa de juniores fazia parte, começaram a olhar para ele com outros olhos, a ponto de o argentino Enrique Vega, que acabara de pegar na equipa, o ter chamado para as duas últimas jornadas do campeonato. Peres estreou-se, como extremo esquerdo, numa vitória fora contra o Barreirense (4-3), a 14 de Maio de 1961. E marcou o primeiro golo sénior um mês depois, em jogo da Taça de Portugal contra o Sporting de Lourenço Marques, em Alvalade, num jogo que os azuis venceram por 4-1.

A ponta final da época deixava antever que Peres seria aposta firme para a época seguinte. Estranhamente, porém, Vega esqueceu-se dele. O miúdo só entrou na equipa em Dezembro, à nona jornada de uma época atribulada, em que o Belenenses teve quatro treinadores e não fez mais do que repetir o quinto lugar de 1960/61. Contudo, Peres aproveitou-a para começar a mostrar serviço e a somar cruzes na folha goleadora: nesse campeonato, marcou por cinco vezes – três delas em jornadas seguidas, a Sp. Covilhã, V. Guimarães e Académica, em Fevereiro –, golos aos quais somou mais oito na caminhada que levou a equipa até às meias-finais da Taça de Portugal, perdidas frente ao V. Setúbal, após a eliminação do Sporting. Foi nessa altura que chegou ao Restelo Fernando Vaz, um dos treinadores que mais futebol tirou do esquerdino lisboeta. E Peres pegou de estaca. Em 1962/63 só falhou um dos 40 jogos oficiais que os azuis fizeram, curiosamente o único que o Belenenses não ganhou nas dez últimas jornadas do campeonato: um empate a uma bola frente ao FC Porto no Restelo. Peres fez sete golos nesse campeonato, que o Belenenses acabou em quarto lugar, juntou-lhes mais quatro na Taça de Portugal – em que o Belenenses voltou a cair nas meias-finais – e o primeiro golo uefeiro, marcado ao Barcelona, em Camp Nou, num empate a uma bola que forçou a realização de um terceiro jogo, também na Catalunha, no qual os blaugrana se apuraram.

A propensão do jovem esquerdino para o golo começava a chamar a atenção. E nesse aspeto a época de 1963/64 foi impressionante. A jogar em posição mais favorável, como interior esquerdo, acabou o campeonato com 14 golos, com um bis ao Benfica e outro ao Sporting de permeio. Juntou-lhes quatro na Taça de Portugal – incluindo o seu primeiro hat-trick, contra o Montijo – e dois na Taça das Feiras, prova na qual a sua indisponibilidade acabou por custar caro ao Belenenses: Peres tinha marcado em Roma o golo que permitiu deixar a eliminatória em aberto (derrota por 2-1), mas fez uma rotura muscular contra a Académica, dias antes da partida da segunda mão, à qual teve de faltar, vendo os companheiros serem de novo derrotados, desta vez por 1-0, e eliminados. No final de uma época tão produtiva, chegou a chamada à seleção nacional, cuja camisola vestiu pela primeira vez a 4 de Junho de 1964, num amigável contra a Inglaterra em São Paulo (Brasil). A estreia foi muito positiva, pois Peres marcou o golo que colocou Portugal em vantagem, antes de Hunt estabelecer o 1-1 final. Ao todo, jogou 27 vezes pela equipa nacional, fazendo quatro golos. Mas a isso voltarei mais à frente, pois a batalha do jovem esquerdino era, para já, a de ganhar títulos, algo que no Belenenses estava difícil. Por isso, na sequência de mais um passo atrás em termos classificativos – oitavo lugar, em 1964/65, com oito golos de Peres no campeonato e dois ao Sporting na Taça de Portugal – o clube do Restelo aceitou vender-lhe o passe. Chegou-se à frente o Sporting, que pagou 100 contos pela transferência. Fez-se o negócio e Peres começou a época de 1965/66 em Alvalade.

No Sporting, teve um início retumbante. Estreou-se a 7 de Setembro, com uma difícil vitória fora contra o Leça (1-0), na Taça de Portugal, mas quatro dias depois assinou logo o primeiro bis, nos 5-1 ao Lusitano de Évora com que os leões entraram no campeonato. Ao todo foram onze golos na prova, cinco deles em jornadas seguidas, em Janeiro, e um muito especial, a 1 de Maio. O Sporting entrou para a última jornada, em que ia jogar com o Varzim à Póvoa, com um ponto de avanço sobre o Benfica, que visitava o Belenenses no Restelo. Precisava de ganhar para não depender do resultado do adversário, portanto. Ao intervalo, os leões empatavam a uma bola e, ainda que o Benfica estivesse a perder, não se adivinhava uma segunda parte tranquila. José Augusto empatou para o Benfica logo a abrir o segundo tempo, mas antes de mais golos encarnados, Peres colocou um ponto final na discussão, respondendo de cabeça – o que nele nem era muito normal – a um cruzamento de Carlitos para fazer o 2-1 que valeu o título de campeão nacional aos leões. Normal, portanto, que Peres tivesse sido um dos jogadores leoninos chamados para a fase final do Mundial de 1966 – em Inglaterra, porém, não chegou a entrar em campo, o que o levou a criticar ferozmente Manuel da Luz Afonso, o selecionador, que preferiu sempre o bloco benfiquista e nunca rodou o meio-campo e o ataque durante a prova.

Depois do Mundial, Peres mudou em termos futebolísticos. Ele que era um goleador, não fez um único golo em 1966/67, época que o Sporting acabou num modesto quarto lugar, caindo da Taça de Portugal e da Taça dos Campeões Europeus logo à primeira, contra o FC Porto e o Vasas Budapeste, respetivamente. As coisas melhoraram em 1967/68, com a chegada ao clube leonino de Fernando Caiado. A três jornadas do fim, os leões estavam na frente, adivinhando-se mais um título nacional, mas a derrota na Luz, a 28 de Abril, possibilitou a ultrapassagem e gerou o desalento em Alvalade. Até final, a equipa verde-branca ainda perdeu com V. Setúbal e Belenenses, acabando o campeonato em segundo lugar. Peres, que via o contrato chegar ao fim, debateu-se então com a intransigência dos dirigentes leoninos, que não queriam pagar-lhe mais um centavo do que o acordado no acordo de há três anos. Eram os tempos da Lei de Opção, em que os clubes eram donos dos jogadores e, mesmo que não chegassem a acordo com eles para renovar contrato, podiam mantê-los e impedi-los de jogar onde quer que fosse. Peres, no entanto, teve alternativa. Como estava ainda a estudar na escola agrícola, serviu-se da Lei Estudantil para assinar pela Académica e prosseguir os estudos em Coimbra. Era a única saída, a única forma de não deixar o clube a rir-se.

Em Setembro de 1968, lá estava o lisboeta vestido de negro e a jogar na Briosa. Estreou-se com duas assistências na vitória por 2-1 frente ao V. Setúbal e depressa se converteu numa das figuras da equipa comandada por Mário Wilson. A Académica ganhou os primeiros cinco jogos e veio jogar a Alvalade, em Outubro, na liderança do campeonato. Ali, porém, encalhou por 3-0, iniciando uma série de seis jogos sem vitória que fizeram a equipa resvalar para um sétimo lugar muito mais próximo do sexto que veio a ocupar na tabela final. Ainda assim, a época foi muito positiva no plano desportivo. Peres fez nove golos no campeonato e mais três na Taça de Portugal, cuja final jogou pela primeira vez, com derrota por 2-1 frente ao Benfica. O problema foi a parte financeira, pois a Académica não cumpriu aquilo que tinha prometido e Peres acabou por regressar ao Sporting no Verão de 1969, provavelmente ajudado pelo facto de em Alvalade estar agora Fernando Vaz, o treinador que mais dele tirara enquanto estiveram juntos no Belenenses. E tal como na primeira época em Alvalade, Peres chegou com estrelinha: voltou a ser campeão, ainda que desta vez sem tanto drama, pois festejou o título a quatro jornadas do fim, com uma vitória no seu Estádio do Restelo, frente ao Belenenses, por 2-1. E voltou também aos golos: fez oito no campeonato, um na Taça UEFA e cinco na Taça de Portugal, um deles de livre na final perdida contra o Benfica, por 3-1.

Aliás, o golo não voltaria a abandonar este esquerdino até final da carreira. Em 1970/71, os leões não fizeram mais do que um segundo lugar, mas Peres voltou a celebrar sete golos. Tantos como os que marcou num só desafio da Taça de Portugal, o jogo que ainda tem o resultado recorde da prova: 21-0 ao MIndelense, a 25 de Maio de 1971. Nessa época, à terceira final consecutiva, conseguiu finalmente ganhar a Taça de Portugal, com um conclusivo 4-1 aplicado ao Benfica. Peres estava de volta aos tempos de altíssima produção, como se viu na época de 1971/72, na qual fez mais dez golos no campeonato e quatro na Taça de Portugal, um deles na final perdida após prolongamento para o Benfica (2-3). Por essa altura, porém, já as nuvens negras se tinham apoderado da relação do jogador com o Sporting. Tudo começou quando os leões instauraram um processo com vista ao despedimento de Fernando Vaz, acusando-o de dopar os jogadores. Peres foi um dos que defendeu publicamente o treinador, o que gerou alguma má vontade por parte da direção de Brás de Medeiros. Finda a época, a seleção foi jogar a Mini-Copa, torneio que era uma espécie de Campeonato do Mundo destinado a celebrar os 150 anos da independência do Brasil. Peres foi o único titular na equipa então dirigida por José Augusto que não era jogador do Benfica, tendo brilhado na caminhada de Portugal até à final, perdida para os brasileiros com um golo de Jairzinho no último minuto. Terminada a competição, o Sporting escudou-se na Lei a Opção para o forçar a renovar contrato, mas Peres preferia sair para ver as condições salariais melhoradas. Tinha convites de FC Porto, Benfica, Boavista e até Vasco da Gama e Anderlecht, mas o Sporting foi intransigente: “Ou jogas aqui ou não jogas em lado nenhum”, disse-lhe Brás de Medeiros. E Peres escolheu o lado nenhum.

Em 1972, aos 30 anos, Fernando Peres saltava diretamente de uma posição de destaque na seleção nacional para o fim de carreira. E depois de um ano sem jogar, no qual chegou a participar em jogos de futebol de salão no Canadá, enveredou pela carreira de treinador no Peniche, da II Divisão. Felizmente para ele, o 25 de Abril veio abolir a Lei de Opção e, sendo livre de assinar por quem quisesse, Peres escolheu o Brasil. Em Maio de 1974 voltou ao ativo, estreando-se com a camisola do Vasco da Gama no Piauí, com um golo na vitória cruz-maltina frente ao Tiradentes. Campeão do Brasil, aceitou regressar a Portugal para representar o FC Porto, que pagou 500 contos pelo seu passe em Outubro. Peres reentrou no campeonato com uma vitória por 5-0 frente ao Atlético, ficou fora da visita a Alvalade, mas ainda marcou mais dois golos, um deles no seu jogo de despedida na prova, um 4-0 ao Sp. Espinho que confirmava o segundo lugar dos dragões, a 11 de Maio de 1975. O seu último jogo em Portugal teve como palco o Restelo que o vira nascer: a 25 de Maio, o FC Porto perdeu por 2-0 frente ao Belenenses e foi eliminado da Taça de Portugal, podendo ocupar-se com a digressão ao Brasil. Aí recomeçaram os problemas, com Monteiro da Costa, o treinador portista, a acusá-lo de ser “um chupa-sangue dos colegas”, que tinha agenda própria. A verdade é que, de regresso a um ambiente que lhe era favorável, Peres voltou a destacar-se, acabando por assinar contrato com o Sport Recife, ao serviço do qual foi campeão pernambucano. Vestiu ainda a camisola do Treze de Campina Grande, antes de se tornar treinador em equipas de I Divisão como a U. Leiria ou o V. Guimarães. Está, no entanto, afastado do futebol desde o final da década de 80. “Nunca estive de acordo com várias coisas”, justifica-se. E já se sabe que ele nunca foi de se ficar só porque parece bem.