Apareceu em Portugal depois de prometer muito em Espanha, onde chegou a ser internacional sub21, e até o nome lhe trocaram. Ainda fez por cá carreira antes de falecer tragicamente aos 34 anos.
2017-11-01

1 de 9
1993

Para Carlos Pérez, a aventura portuguesa era um recomeço. Não lhe terá feito grande confusão que, pouco habituados às regras do patronímico espanhol – nome do pai antes do nome da mãe – os portugueses lhe tenham trocado o apelido. Passou a ser Álvarez, mas aquela seria também uma forma de colocar atrás das costas um passado de promessa nunca confirmada. Por cá, mostrou dotes técnicos e inteligência tática em equipas de meio da tabela, tornando-se um dos valores seguros da Liga antes de voltar a casa. Veio a falecer aos 34 anos, na sua quinta de Vilariño, perto de Nigrán, quando estava deitado numa rede e foi atingido por um desabamento de pedras.

Natural de Verín, em Ourense, Carlos cedo começou a destacar-se nas artes do futebol, pelo que entrou nas escolas do Celta de Vigo. Passou dois anos na equipa B, que na altura se chamava Celta Turista, e neles justificou a chamada à seleção espanhola de sub21. Em 1991/92, na época em que completou 20 anos, Txetxu Rojo deu-lhe um par de oportunidades de mostrar serviço  na equipa principal, que celebrou a subida de divisão e o regresso ao convívio dos grandes espanhóis. E a 29 de Novembro de 1992 estreou-se mesmo na Liga espanhola, substituído Mandiá a 25 minutos do final de uma derrota ante o Osasuna, no El Sadar (0-3). Nos primeiros dois anos entre o plantel principal nunca teve grande continuidade, porém. Ainda foi titular no pacto de não agressão contra o Valladolid com que o Celta encerrou a época de 1993/94 – o empate servia a ambas as equipas e o jogo não saiu do 0-0 – mas foi na temporada seguinte, com a chegada do treinador argentino Carlos Aimar, que ele passou a assumir o lugar que lhe estava prometido no meio-campo.

Foi já com Fernando castro santos ao leme – e Toni no bano do outro lado – que Carlos marcou o primeiro golo com a camisola do Celta, a 22 de Outubro de 1985, nuns 4-0 ao FC Sevilha nos Balaídos. O médio não conseguiu, no entanto, corresponder ao que dele se esperava e, após um ano emprestado ao UD Almería, da II Divisão e outro sem jogar, o Celta libertou-o. Coincidiu isso com uma fase em que o GD Chaves costumava olhar para a Galiza em busca de reforços. Carlos, que era Pérez de parte do pai e Álvarez da parte da mãe, passou a ser conhecido pelo último nome, como é tradição em Portugal, e não pelo penúltimo, como se faz do lado de lá da fronteira. Horácio Gonçalves deu-lhe a camisola 6 e estreou-o logo a 23 de Agosto, na primeira jornada, uma vitória por 1-0 sobre a Académica, graças a um golo do seu compatriota Sebá. Fez o primeiro golo três semanas depois, nuns 4-1 ao Estrela da Amadora, mas a verdade é que nem este bom arranque impediu que os flavienses evitassem a despromoção. Carlos, porém, destacara-se, com quatro golos (um deles ao Benfica, numa derrota por 1-4) e ficou na I Liga, assinando pelo Vitória de Guimarães.

No Minho, Quinito nem sempre apostou nele – só foi titular a partir de meio da época – e refreou-lhe os ímpetos ofensivos. Em dois anos, primeiro no sétimo lugar com Quinito e depois na sofrida permanência conquistada com Autuori, Álvaro Magalhaães e Inácio, não fez um único golo. Seguiu então para o Nacional, que com José Peseiro conquistou a subida à I Divisão. Ainda fez, dessa forma, duas boas épocas no escalão principal, impondo-se como regulador no meio-campo alvinegro. Em 2003/04, já com a equipa comandada por Casemiro Mior, foi mesmo um dos destaques da qualificação europeia, obtida através de um histórico quarto lugar final. O último golo na I Liga marcou-o a 7 de Fevereiro de 2004, a 3 minutos do fim de um frenético empate (3-3) com o Sporting de Fernando Santos, na Choupana. Despediu-se a 9 de Maio, nuns 4-0 ao Rio Ave que seguravam a quarta posição face aos avanços do SC Braga, que nessa mesma tarde ganhava por 2-0 ao Belenenses no Restelo.

Aos 32 anos, Carlos optou por regressar a casa. Jogou durante um ano no CD Ourense, na II Divisão B, e abandonou ali uma carreira que tinha prometido muito mais do que veio a dar-lhe, talvez por falta de competitividade. Carlos era um jogador fino, mas sem aquele acréscimo de “chispa” que é necessário para se impor no meio-campo. Acabou por falecer um ano depois de ter abandonado o futebol, quando estava deitado numa rede na sua quinta de Vilariño, perto de Nigrán, e parte da casa de pedra desabou sobre ele e os seus dois filhos – um dos quais ficou também ferido.