Compensava a baixa estatura com velocidade e um pé esquerdo que fazia o que queria com a bola. A criatividade impunha-a no drible, que o levava sempre a procurar mais a linha de fundo para a assistência do que a linha de baliza para o golo.
2017-10-31

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1972

Olha-se para o registo numérico da carreira de Costa e, tendo ele sido atacante, nota-se que não fez muitos golos. Mas para entender o futebol deste portuense que começou por destacar-se com a cor negra da Académica para depois brilhar de azul e branco no FC Porto de Pedroto é preciso ir mais fundo e procurar as assistências. O futebol dele, sempre encostado à esquerda, a driblar no sentido da linha de fundo, era a delícia de qualquer ponta-de-lança. Que o diga Fernando Gomes, cuja primeira Bota de Ouro europeia, em 1983, tem grande contributo de Costa, nessa altura já a dar as últimas nas Antas, antes de ser substituído por Vermelhinho e, mais tarde, por Futre nesse papel.

Costa nasceu no Porto, mas cresceu em Vila Real. Foi ali, em Trás-os-Montes, que começou a jogar futebol, rivalizando nessa altura o chuto na bola com o andebol e o atletismo na atenção do jovem aspirante a atleta. Focou-se no futebol e, quando entrou na universidade, em Coimbra, experimentou a sorte na Académica. Era ainda júnior no dia em que Juca lhe deu a primeira oportunidade na equipa principal. A equipa era última no campeonato, a 13 jornadas do fim, adivinhava-se uma renhida luta para escapar à despromoção e o treinador calculou que não seria mau ter novas armas. Assim sendo, a 6 de Fevereiro de 1972 colocou-o na equipa que ia receber o Belenenses. Os estudantes ganharam por 2-0 e Costa já não saiu da equipa: falhou apenas dois jogos até final da temporada, participando, por exemplo, no empate em casa frente ao Sporting (3-3). É verdade que a Briosa acabou mesmo por descer, mas ele começou a ganhar posição, que manteve depois na época em que a equipa assinou o regresso, vencendo a Zona Norte da II Divisão e assegurando o título nacional com uma vitória por 1-0 sobre o Olhanense. Costa não jogou a final, mas essa época fica ainda marcada pelos seus primeiros golos nos seniores, ambos obtidos num 9-0 à Ovarense, a 1 de Outubro, em jogo a contar para a Taça de Portugal.

Aos 19 anos, de regresso à I Divisão, Costa fez, com Fernando Vaz como treinador, a primeira temporada plena como titular. Partia atrás de Vala na luta pelo lugar na ponta-esquerda, mas depois de um início de campeonato aziago – três derrotas nos três primeiros jogos – Vaz pensou em aproveitar a habilidade do miúdo para segurar a bola e fê-lo entrar na equipa para jogar um pouco mais atrás, na meia-esquerda. Logo na estreia do miúdo, a primeira vitória: 2-0 ao Leixões. A permanência acabou por ser festejada e Costa teve pela primeira vez a alegria de ganhar a um grande: a 9 de Dezembro de 1973, estava no onze que venceu o Benfica por 2-0 no Calhabé. Os golos é que não apareciam: nem um, durante toda a época. Viria a marcá-los na época seguinte, na qual teve um papel fundamental na sofrida permanência da Académica, conseguida apenas através da Liguilha. A 5 de Janeiro de 1974, era a Académica última classificada e deslocava-se ao terreno do Oriental, penúltimo. Uma derrota significaria o alargar do fosso e a descida quase certa, mas Costa escolheu bem a data para marcar o seu primeiro golo no campeonato: abriu o marcador num empate (2-2) que manteve as opções da equipa em aberto.

Nessa Liga, Costa marcaria mais três vezes, em jornadas consecutivas, em Março, depois da demissão de Francisco Andrade e da entrada em funções de José Crispim. Fê-lo nas vitórias sobre União de Tomar (4-1) e Farense (2-0) e na derrota (1-2) contra o Leixões, três resultados que, mesmo assim, deixaram os estudantes acima da linha de água. No final, a permanência surgiu apenas através de uma Liguilha muito renhida, que a Académica começou em grande mas acabou em perda, com duas derrotas nas últimas duas jornadas. Chegou para a manutenção, em período particularmente conturbado da história do clube, que meteu até mudança de nome: a Académica transformou-se em Académico para evitar a extinção às mãos dos excessos revolucionários. Costa ainda passou um ano na sombra dos colegas, mas deu o salto definitivo para a grandeza depois de ter passado pela NASL norte-americana (onde jogou com Ibraím mos Rochester Lancers) com o regresso de Juca a Coimbra. Participou ativamente no quinto lugar de 1976/77, ainda que sem golos (mas com seis assistências), e tornou-se a estrela da equipa em 1977/78. Os dez golos que fez nesse campeonato – incluindo um hat-trick nos 4-1 ao Marítimo, a 4 de Dezembro, mas também um tento ao FC Porto e outro ao Sporting -  levaram-no à seleção, a 8 de Março de 1978, numa derrota por 2-0 frente à França, no Parque dos Príncipes. Pouco depois estava a acertar a transferência para o campeão nacional, o FC Porto de Pedroto, que ia deixar sair Ademir para Espanha.

Nas Antas, a guerra era diferente. Não se procurava a manutenção, mas o título. E Costa percebeu isso bem cedo. Titular na primeira jornada (1-0 ao Vitória FC, em Setúbal, a 25 de Agosto de 1978), fez o golo da vitória (também 1-0) na receção ao Benfica, uma semana depois. Contribuiu com três golos e oito assistências para o bicampeonato, ao mesmo tempo que se fixava na seleção. O segundo hat-trick da sua carreira, a 1 de Setembro de 1979, numa goleada de 6-0 ao Portimonense, deu o mote para o que parecia ir ser um épico tricampeonato, mas Costa esteve fora da equipa na reta final da época – apenas 13 minutos em campo nas últimas oito jornadas –, na qual os azuis e brancos acabaram por ser ultrapassados pelo Sporting. Não esteve, também, na final da Taça de Portugal, em que o FC Porto perdeu por 1-0 com o Benfica, abrindo o processo que veio a ficar conhecido como o “Verão Quente” do FC Porto. A direção demitiu Pinto da Costa, à data diretor do departamento de futebol, levando à saída de Pedroto. Para o lugar do treinador, chegou o austríaco Herman Stessl. Mas 15 jogadores (entre os quais Costa) emitiram então um comunicado a justificar a razão pela qual não se apresentavam no clube, tendo passado a treinar com Hernâni Gonçalves – o preparador físico de Pedroto – no pinhal de Santa Cruz do Bispo.

Costa teve nessa altura papel importante de conciliador, em auxílio do capitão, Rodolfo. Só a 6 de Agosto, duas semanas antes do começo do campeonato, se deu o regresso de quase todos os dissidentes – as exceções foram Otávio, que saiu para o Vitória FC, Gomes, que emigrou para o Sporting Gijón, e Oliveira, que assinou pelo FC Penafiel antes de se transferir, um ano depois, para o Sporting. O campeonato não correu bem. Em dois anos com Stessl, o FC Porto ganhou apenas uma Supertaça, em Dezembro de 1981 – e Costa até marou um golo nos 4-1 ao Benfica que sentenciaram a conquista do troféu. Na primeira época, em que o treinador o fez jogar livre no ataque, perto do ponta-de-lança, ainda marcou 13 golos, nove deles no campeonato. Tinha uma predileção pelos jogos com o Benfica, como se viu na vitória por 2-1 nas Antas, a 25 de Outubro de 1980, na qual marcou um golo e assistiu Walsh para o outro. Na Taça de Portugal, fez mais quatro golos a caminho da final, a primeira que jogou, incluindo um na meia-final, ganha ao Vitória FC (2-1). Na final, porém, voltou a ser infeliz, pois apesar de os portistas se colocarem em vantagem bem cedo, um hat-trick de Nené deu a volta ao texto.

Experiente, Costa passou a ser então um assistente de luxo. Começou a aquecer com Jacques em 1981/82 , mas foi com o regresso de Gomes, em 1982/83, que afinou a mira ao colega de equipa. Fez 12 assistências nesse campeonato, suficientes para ajudar Gomes a ganhar a sua primeira Bota de Ouro, mas não para carregar o FC Porto ao título, que foi ganho pelo Benfica de Erisksson. Nessa época até marcou proporcionalmente mais golos em jogos internacionais: no campeonato, fez apenas um, numa vitória em Braga (2-1), logo à terceira ronda; juntou-lhe dois na caminhada até á final da Taça de Portugal (ao FC Famalicão e à Académica) e mais dois na Taça UEFA, a FC Utrecht e Anderlecht. A final da Taça d Portugal, porém, voltou a não a jogar. Foi o ano da polémica, em que a FPF tinha marcado a final para as Antas e tentou depois mudar o local quando o FC Porto se apurou para a jogar. Os portistas recusaram-se a alinhar em Oeiras e a final só se jogou na abertura da época seguinte, nas Antas, pois então. O Benfica ganhou na mesma (1-0), mas Costa ficou no banco. Estava dado o sinal para o final de carreira: em 1983/84 já dividiu o lugar com Vermelhinho, que fruto de uma melhor ponta final de temporada ocupou a esquerda do ataque nas finais da Taça de Portugal (ganha por 4-1 ao Rio Ave) e da Taça das Taças (perdida por 2-1 com a Juventus). Costa não chegou a entrar no Jamor, mas foi uma das armas que António Morais lançou para o campo nos últimos minutos do jogo de Berna. Sem sucesso.

Onde Costa também já não chegou foi à fase final do Europeu de 1984. Despedira-se da seleção a 28 de Outubro de 1983, numa importante vitória frente à Polónia (1-0), em Wroclaw, que mantinha a equipa a depender apenas de si mesma. Depois desse Europeu, então, com a entrada de Futre no FC Porto, o espaço de Costa diminuiu ainda mais. Ainda participou em cinco jogos na conquista do título de 1984/85, alinhando pela última vez com a camisola do FC Porto a 19 de Maio, quando entrou para o lugar de Frasco nos últimos 21 minutos de um empate a zero em Vizela. Mas Costa não estava acabado. António Morais levou-o com para Guimarães e ele ainda fez uma época em cheio no Vitória SC, tendo sido importante no quarto lugar final da equipa minhota. Marcou um golo – num 1-0 ao Belenenses, a 16 de Março de 1986 – e pôde assistir mais um goleador que iria a fazer história no futebol português, no caso Paulinho Cascavel.

Aos 32 anos, Costa ainda seguiu para o Funchal, onde acabou a carreira ao serviço do Marítimo. Foi, a todos os títulos, um ano de transição. Já não jogou muito – despediu-se a 1 de Fevereiro, numa derrota em casa frente ao Vitória SC – numa altura em que já fazia parte da equipa técnica interina que substituíra o sueco Stefan Lundin. Fez depois uma longa carreira como treinador, muitas vezes à semelhança do que era como jogador: na sombra. Muitos dos seus anos nestas funções oram como adjunto de Carlos Queiroz, tanto na FPF, como no Sporting, no Japão ou no Golfo Pérsico. Dirigiu academias de formação e também trabalhou como treinador principal, funções que não ocupa desde que deixou o SC Braga B, em 2014.