Uma das figuras mais importantes da história do Benfica, Espírito Santo foi de tudo: goleador, municiador e recordista nacional de três especialidades do atletismo. Ou presidente honorário do centenário.
2017-10-30

1 de 7
1936

A história que melhor define o que foi Guilherme Espírito Santo aconteceu em 1938, no Campo das Amoreiras, durante um treino da equipa de futebol. A bola fugiu e o jovem avançado-centro foi buscá-la com pressa de reatar. Sem se aperceber, quase esbarrava com o obstáculo onde a equipa de atletismo treinava salto em altura. Saltou para se desviar e superou, sem aparente dificuldade, a fasquia colocada a 1,82m. Era isto Espírito Santo: agilidade natural, muito instinto e não tanta praticidade. Quando o convenceram a acumular futebol com atletismo e a coisa passou a ser oficial, precisou de tempo para voltar a chegar lá, dando um sentido concreto ao que dele dizia o seu grande amigo Peyroteo, estrela maior do Sporting e do futebol português daqueles tempos: “O Guilherme joga futebol muito melhor do que eu. É menos prático? Sim. Marca menos golos. Mas é mais jogador”.

Talento precoce, Espírito Santo perdeu três anos de carreira por doença e, mesmo tendo jogado em tempo de domínio dos “Cinco Violinos”, ainda conseguiu ser quatro vezes campeão nacional. A essas proezas, juntou os recordes nacionais de salto em altura (1,88m), salto em comprimento (6,89m) e triplo-salto (14,01m), todos estabelecidos num mês de Verão de 1938, aos 18 anos, antes de voltar a dedicar-se em pleno ao futebol – que nem o amadorismo daqueles tempos permitia acumular dessa forma duas modalidades já de si tão exigentes. Destes, o recorde do salto em altura durou 22 anos, mostrando como era um atleta à frente do seu tempo. “Deve ter sido porque em Angola fui mordido por um macaco”, brincava Espírito Santo. A verdade é que essa agilidade, essa destreza, eram fundamentais também para o seu sucesso como futebolista: criara-se um avançado-centro veloz, técnico e habilidoso, ainda que pouco robusto e dado aos choques que a atuação no interior da área exigia. Acabou, por isso, como extremo-direito, retirando-se relativamente cedo, um mês depois de completar 30 anos.

Manteve, até aos últimos dias, a paixão pelo Benfica que descobrira aos três anos de idade, nuns maços de tabaco que traziam a imagem dos futebolistas. Gostava particularmente de Vítor Silva, o avançado-centro das águias, não podendo nessa altura fazer mais do que sonhar vir um dia a substituí-lo. Quando, aos oito anos, se mudou com a mãe para Luanda, ficou mais longe desse sonho. Mas a aptidão para o desporto não conhece fronteiras o pequeno Guilherme acabou por dar vazão aos seus desejos inscrevendo-se no Sport Luanda e Benfica. Ali se destacou com toda a naturalidade, pelo que aos 16 anos veio para Lisboa com uma carta de recomendação. Foi à sede do Benfica, apresentou-se, marcaram-lhe um teste e, tendo agradado, seguiu com a equipa para Setúbal, onde a 20 de Setembro de 1936 fez a estreia, num particular inserido no negócio da transferência de António Vieira para o clube da capital. Entrou ao intervalo e fez um golo na vitória (5-2) dos encarnados. E a 11 de Outubro, na primeira jornada do campeonato regional, já foi titular, na deslocação ao Restelo para defrontar o Casa Pia.

O jogo de estreia, porém, acabou empatado a zero e Espírito Santo foi um dos sacrificados por Lipo Hertzka. Baixou à equipa de reservas, de onde só saiu por alturas do Natal, por se ter destacado em dois jogos de exibição que o Benfica fez contra o FC Porto. Por isso, a 10 de Janeiro de 1937, na abertura do campeonato da I Divisão, estava como avançado-centro da equipa do Benfica que tentava renovar o título nacional e que arrancava a caminhada em Setúbal. Logo ali, Espírito Santo mostrou ao que vinha: dois golos dele garantiram a vitória encarnada (2-1) e asseguraram que não mais sairia da equipa. Fez 17 golos nos 14 jogos desse campeonato, obtendo o primeiro título nacional e juntou-lhes mais dois no Campeonato de Portugal, a prova por eliminatórias que encerrava a época, e na qual os encarnados se ficaram pelas meias-finais, afastados pelo Sporting.

Espírito Santo era um verdadeiro atleta, daqueles que dava sempre resposta física às exigências. Após o jogo de estreia, fez sem parar todos os 44 jogos dos campeonatos nacional, de Portugal e regional de 1937, bem como do nacional de 1937/38, que o Benfica voltou a acabar em primeiro lugar, conquistando o primeiro tri da sua história. De caminho, algumas proezas, como os nove golos que marcou num 13-1 ao Casa Pia, a 5 de Dezembro de 1937, em partida do regional. Ou a estreia na seleção nacional, sendo o primeiro negro a vestir aquela camisola. Algo irrelevante hoje, mas um feito importante naquela altura, em que nalguns locais do país ainda negavam a Espírito Santo a igualdade a que tinha direito. Num hotel, uma vez, quiseram obrigá-lo a ficar num anexo, longe da equipa, algo que os colegas não aceitaram, mudando-se todos para lá. A estreia pela seleção nacional, pela mão de Cândido de Oliveira, aconteceu a 28 de Novembro de 1937, com 19 anos acabados de fazer, numa vitória por 2-1 frente à Espanha, em Vigo. Um jogo que a FIFA não reconheceu, devido à Guerra Civil espanhola – o adversário era a seleção da zona “franquista”. Mas Espírito Santo, que nesse jogo de Vigo até entrara a substituir Quaresma, já foi depois titular a 9 de Janeiro de 1938, nuns históricos 4-0 à Hungria. E aí até marcou um golo.

O ano de 1938, com a vitória no campeonato nacional, a presença na final do campeonato de Portugal – 1-3 contra o Sporting, no Lumiar –, a afirmação na seleção nacional e a incursão vitoriosa pelo atletismo, confirmava o extraordinário atleta que era Guilherme Espírito Santo. Manteve o registo goleador em 1938/39, a primeira época em que não ganhou um único troféu: o Benfica foi terceiro no campeonato de Lisboa e no campeonato nacional, perdendo a final da Taça de Portugal para a Académica (3-4, nas Salésias), depois da épica reviravolta contra o FC Porto nas meias-finais. Após uma derrota por 6-1 no Lima, os benfiquistas chegaram a 6-0 aos 75’ (com bis de Espírito Santo) da segunda mão, nas Amoreiras, altura em que o adversário retirou a equipa de campo. Regressaria aos títulos em 1939/40, o ano em que começou a sentir problemas de saúde. Ainda foi importante, já como extremo-direito, na vitória benfiquista no campeonato de Lisboa, mas em finais de Janeiro de 1940 adoeceu, com pneumonia, em Paris, onde se deslocara ao serviço da seleção nacional. Já não jogou mais nessa época, acabando o campeonato com apenas uma presença, na jornada inaugural, frente ao Académico do Porto. O Benfica ressentiu-se e acabou a prova em quarto lugar.

Espírito Santo regressou à competição em Junho de 1940, ainda a tempo de ajudar o Benfica ganhar a Taça de Portugal: fez dois golos na meia-final com o Barreiremse (5-2) e mais um na final com o Belenenses (3-1). Parecia estar tudo normal, mas em Março de 1941, em nova viagem da seleção nacional, desta vez para jogar com a Espanha, em Bilbau, voltou a adoecer. Aparentemente, as temperaturas frias debilitavam-no. Foi-lhe diagnosticado paludismo, contraído em criança, em África, mas que só vinha à superfície em determinadas circunstâncias, e ele teve de parar para se curar. Só voltou a jogar pelo Benfica a 6 de Fevereiro de 1944, numa goleada de 6-1 ao Salgueiros. Três anos depois. Entrou devagar na equipa, que acabou essa época em segundo lugar, mas a 28 de Maio era o extremo-direito titular de Janos Biri na equipa que ganhou por 8-0 ao Estoril na final da Taça de Portugal. E em 1944/45 voltou a ser uma das referências na equipa campeã nacional, marcando onze golos a partir da posição de extremo-direito.

Este era já o período de domínio do Sporting dos “Cinco Violinos”, mas Espírito Santo e o Benfica ainda ganharam mais competições. A Taça de Portugal de 1948/49 terá sido um dos seus últimos momentos altos: jogou nessa vitória por 2-1 sobre o Atlético, assistindo mesmo Corona para o primeiro golo dos encarnados, da mesma forma que já tinha sido entusiasmante na caminhada para lá chegar, com seis golos nas vitórias sobre o Académico de Viseu e o Marítimo. O jogo com os insulares, ganho por 9-3, a 8 de Maio de 1949, foi mesmo o dos últimos golos oficiais de Espírito Santo com a camisola do Benfica – e fez logo quatro nessa tarde. A 13 de Novembro desse mesmo ano, numa equipa sem Arsénio nem Julinho, o inglês Ted Smith chamou Espírito Santo para o seu último jogo. O Benfica cedeu em Elvas uma das duas únicas derrotas nesse campeonato (0-1), que acabou por vencer, permitindo a Espírito Santo conquistar o quarto título de campeão nacional. A 8 de Dezembro, teve direito a festa de despedida.

Guilherme Espírito Santo retirou-se do futebol de competição aos 30 anos, mas manteve-se ativo durante muito mais tempo. Trabalhou no Grémio das Mercearias até aos 65 anos, tendo sido ainda um exímio praticante de ténis, modalidade na qual conquistou campeonatos nacionais de veteranos. A sua importância para o Benfica foi reconhecida com a atribuição da Águia de Ouro, em 2000, ou com a nomeação como Presidente Honorário da cerimónia do centenário do clube. Recebeu ainda o Prémio Fair-Play do Comité Olímpico Internacional em 1999.