Chegou de Vila do Conde para o Benfica com a aura de um internacional nas categorias jovens, mas na Luz isso nunca lhe chegou para se impor a um grupo cheio de consagrados. Carlos Manuel teve de voltar a casa para fazer carreira.
2017-10-28

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1981

A concorrência na Luz chegou-lhe até ao nome. Para jogar no Benfica, o Carlos Manuel de Vila do Conde tinha de ser o segundo, porque o primeiro, o da Moita, já estava na equipa antes dele. Não sendo por isso, faltou-lhe sempre a capacidade para dar o passo seguinte, aquele que transforma futebolistas promissores em craques de primeira. Ainda fez uma carreira muito razoável na I Divisão e jogou uma final da Taça de Portugal, a célebre final dos barbudos, mas para dar esses dois passos em frente teve primeiro de dar um atrás e vestir a camisola do Rio Ave. No fim, não teve o destaque com que sonhara, mas não se pode dizer que tenha deixado o futebol sem uma série de boas memórias. Afinal, ainda passou a centena de jogos e a dezena de golos na I Divisão.

As primeiras são logo as dos tempos iniciais. Médio e extremo direito, chegou ao Benfica para jogar nos juvenis, passando a integrar as seleções jovens. Em 1979/80 estava nos sub16, ao lado de Carlos Pereira ou Padinha, só para falar nos que vieram a vingar. Um ano depois, integrou a seleção de sub18 que perdeu em Marselha o apuramento para o Europeu da categoria, já com futuros internacionais A, como Venâncio ou Bandeirinha. Não espantou, por isso, que o húngaro Lajos Baroti o integrasse nos treinos do plantel principal do Benfica. O problema era a vastidão de escolhas à disposição do treinador. Carlos Manuel teve a prenda de se sentar no banco pela primeira vez a 17 de Outubro de 1981, ainda não tinha sequer feito 19 anos, na visita do Benfica ao pelado do Campo da Avenida, na sua Vila do Conde natal. Repetiu a graça logo a seguir, em dois empates caseiros com o Bayern e o Sporting, mas os primeiros minutos em campo sem ser na equipa de juniores ou de reservas só os conheceu em Fevereiro, nos quartos-de-final da Taça de Portugal, frente ao GD Bragança, na Luz: com 3-0 ao intervalo, Baroti chamou-o a ele e a Padinha para ocuparem os lugares de Shéu e Alves na segunda parte de um jogo em que os encarnados dobraram a conta até aos 6-0 finais.

Uma coisa Carlos Manuel não conseguiu: jogar pelo Benfica no campeonato. Em 1982/83, com Eriksson à frente da equipa, o Benfica foi campeão, mas o máximo que o vila-condense fez foi ver quatro jogos no banco, nunca chegando a entrar. Com um ano inteiro sem jogar, voltou à base: no Verão de 1983, assinou pelo Rio Ave de Mourinho Félix e a 11 de Setembro conseguiu finalmente a estreia no campeonato. Aconteceu na vitória caseira frente ao Farense (1-0), mas Carlos Manuel lesionou-se, teve de sair ao intervalo, e só a partir de finais de Novembro assumiu na equipa o papel que dele se esperava. A 27 de Novembro, marcou o seu primeiro golo na Liga, nuns 2-0 ao Vitória SC, mesmo que antes já tivesse feito um na Taça de Portugal, a valer uma dura vitória por 1-0 em Évora, no terreno do Juventude. E esse foi um golo bastante importante, por ter dado início a uma campanha que só acabou no Jamor – e Carlos Manuel alinhou nas nove partidas que lá levaram a equipa, incluindo as duas meias-finais com prolongamento e repetição, face ao Vitória SC. Na segunda, num Campo da Avenida completamente lotado, marcou o penalti decisivo nos 4-3 com que terminou o desempate.

Tendo o Rio Ave conseguido a permanência quando faltavam ainda três jornadas para o fim do campeonato, através de um 2-1 caseiro sobre o Vitória FC, a 21 de Abril, o foco da equipa virou-se completamente para a final da Taça de Portugal, que a equipa ia jogar contra o FC Porto, extraordinariamente antes de acabar a Liga, a 1 de Maio de 1984, porque havia o Europeu para jogar de seguida. Foi a final dos barbudos, assim recordada porque todos os jogadores do Rio Ave deixaram crescer a barba até ao dia do jogo. Nem assim, contudo, levaram a melhor sobre um FC Porto que era muito mais forte e uma das bases da seleção nacional que ia jogar o Europeu no mês seguinte. Os portistas chegaram aos 4-0 antes da hora de jogo e o golo de N’Habola, já perto do final, não fez mais do que acrescentar um motivo de alegria à equipa vila-condense. A Taça, essa, ia para as Antas. Carlos Manuel é que gostou tanto do novo visual que, na época seguinte, o adotou, passando a usar barba.

A época de 1984/85, porém, foi complicada para o Rio Ave. Depois de um arranque com maus resultados, deixando a equipa em penúltimo lugar, uma derrota em Vizela, mesmo antes do Natal, levou à substituição de Mourinho por Mário Reis. Primeira escolha para ambos, Carlos Manuel só perdeu dois meses de época, entre Janeiro e Março, devido a uma lesão contraída face ao FC Porto, em casa. Mas esteve na impressionante ponta final – duas vitórias e três empates, um deles em casa, com o Sporting, nas últimas seis jornadas – que valeu ao Rio Ave um lugar na Liguilha, onde poderia ainda lutar com o GD Chaves, o União da Madeira e o União de Leiria pela manutenção. No fim, a desvantagem no confronto direto com os transmontanos (e a vitória destes no Funchal, por 4-3, na última jornada) levaram Carlos Manuel para a II Divisão. Não por muito tempo, que Mário Reis conduziu a equipa não só à subida como também ao título de campeão do escalão secundário logo em 1986.

Carlos Manuel passou mais dois anos na I Divisão com o clube da terra, voltando a descer em 1988, quando Mário Reis voltou a entrar a meio da época e a não conseguir anular os efeitos de um mau começo, desta vez sob as ordens do brasileiro Mário Juliato. E após duas épocas na Zona Norte da II Divisão, regressou ao escalão principal para a que veio a ser, individualmente, a sua melhor época de sempre. Em 1990/91, no União da Madeira, com Rui Mâncio, fez cinco golos a ajudar os insulares a assegurar a manutenção. Uma lesão grave, porém, roubou-lhe boa parte da segunda época de contrato. Ainda jogou na última jornada, uma derrota por 1-0 com o Farense, no São Luís, que condenou os funchalenses à descida de divisão, mas a verdade é que nem no segundo escalão voltou ao seu nível. Após uma época de escassa utilização na Madeira e outra com a camisola do Dragões Sandinenses, na Zona Norte da II Divisão B, retirou-se antes de completar 32 anos.