O jogador mais utilizado do Sporting campeão de Allison esgrimia com a mesma facilidade armas como a polivalência, o arreganho e o espírito de luta. Naquela altura, fosse em que posição fosse da defesa ou do meio-campo, ninguém o tirava do onze.
2017-10-27

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1978

Diz o adágio que “num instante, tudo muda”. Foi o que aconteceu com Virgílio, que em dois anos não tinha conseguido impor-se nos seniores do Sporting e que entretanto já tinha sido emprestado três vezes ao FC Famalicão. Regressou a casa em 1981, já com 23 anos, à espera de um veredicto do novo treinador, um inglês excêntrico chamado Malcolm Allison. E um dia, num instante, tudo mudou. A ocasião era um Sporting-Benfica de pré-época, a 8 de Agosto. Pouco antes do jogo, Nogueira lesionou-se e Allison lembrou-se: avança o Virgílio. Entrou no onze, tudo lhe correu bem, o Sporting ganhou por 2-0 e Virgílio tornou-se tão indiscutível que, no fim da temporada, em que o Sporting conquistou campeonato e Taça de Portugal, acabou como o jogador mais utilizado do plantel.

Tudo isto foi muito inesperado. É que, até ao momento, apesar da condição de internacional júnior, Virgílio estava mais habituado aos pelados da II Divisão do que aos relvados do escalão principal e das competições europeias. Formado no GS Loures, chegara ao Sporting apenas à entrada para os juniores. A condição de internacional da categoria levou a que, no final da época de 1976/77, tinha ele 19 anos, e já com tudo decidido, Jimmy Hagan, lhe tenha dado o prémio da chamada ao grupo principal. Foi para o banco a 22 de Maio, num empate frente ao Boavista, no Bessa (0-0), correspondente à penúltima jornada, e uma semana depois, no encerramento do campeonato, pôde mesmo estrear-se, alinhando em vez de Valter nos últimos 9 minutos de um 4-0 ao Belenenses, em Alvalade. Não lhe trazendo grande continuidade em minutos jogados – apenas 129, divididos por três jogos, um deles na Taça de Portugal –, a segunda época ainda lhe valeu um sentimento diferente de integração, fruto das mais de 20 vezes em que foi convocado, mesmo que apenas para se sentar no banco.

Anda assim, 1977/78 deu-lhe a primeira titularidade, no último jogo do brasileiro Paulo Emílio aos comandos da equipa – 0-0 em casa com o Varzim, a 18 de Dezembro de 1977 – e o primeiro troféu: a Taça de Portugal, ganha já com o treinador Rodrigues Dias. Virgílio esteve no banco na final e na finalíssima, frente ao FC Porto, mas antes tinha garantido o direito a figurar entre os vencedores da competição, alinhando durante sete minutos na tensa meia-final contra o Varzim, na Póvoa. No final da época, porém, foi decidido emprestá-lo, para ganhar rodagem. E o jovem defesa-central seguiu para o Minho, onde o esperava a recém-promovida equipa do FC Famalicão. Titular durante quase toda a época, com Mario Imbelloni, tanto na Liga como na Taça de Portugal – onde o FC Famalicão caiu apenas nos quartos-de-final, frente ao Sporting, em Alvalade – faltou nas últimas cinco jornadas de campeonato, nas quais os minhotos caíram da 12ª para a 13ª posição, acabando por descer de divisão. E após mais dois anos do meio da tabela para baixo da Zona Norte do segundo escalão, quando Virgílio voltou a Alvalade a expectativa de o ver afirmar-se não seria a mas elevada. Até que chegou aquele jogo com o Benfica, a contar para o Torneio Cidade de Lisboa.

Ali, tudo mudou. Virgílio era um jogador à inglesa, que Allison apreciava bastante. Foi o único a atuar nas 43 partidas oficiais que o Sporting fez durante essa época, na qual venceu campeonato e Taça de Portugal e chegou à terceira eliminatória da Taça UEFA. E Virgílio só não foi titular por duas vezes, ainda que acabando por entrar em campo no decorrer das partidas: o empate em casa (3-3) com o Boavista, a 17 de Outubro, e a vitória (4-2) em Southampton (4-2), quatro dias depois. Estava em campo na certeza matemática do título de campeão, no Estoril, a 9 de Maio, quando ainda faltavam mas duas jornadas, bem como na festa de celebração, uma semana depois, contra o Rio Ave, ou na final da Taça de Portugal, a 30 de Maio. E aqui, na vitória por 4-0 frente ao SC Braga, pôde pela primeira vez experimentar o que era ganhar uma final de pleno direito.

Além de ter feito dois golos – o primeiro dos quais num 6-0 ao Penafiel, a 19 de Setembro de 1981 – Virgílio passou quase toda a época de 1981/82 a jogar a meio-campo, porque muito do futebol da equipa de Allison se baseava na capacidade de recuperação de bola e sua colocação rápida em zonas de definição, onde mandava o talento de Oliveira, Manuel Fernandes e Jordão. Com a saída do inglês, na pré-época seguinte, António Oliveira – que passou a ser treinador-jogador – fez dele defesa-direito. E ele não desiludiu. Aliás, logo na abertura da temporada, pertenceu-lhe o golo solitário com que os leões começaram a defesa do título, ganhando por 1-0 ao Marítimo.  Juntou a Supertaça, ganha ao SC Braga, ao seu conjunto de troféus e, até se lesionar, em inícios de Março, só não alinhara nas irrelevantes partidas da Taça de Portugal frente à União de Leiria e ao Trofense, bem como na receção ao CSKA Sofia. O prémio foi a estreia na seleção A, pela qual acabaria por fazer três jogos, o primeiro dos quais a 16 de Fevereiro de 1983, em Guimarães, contra a França (0-3 foi o score final).

O terceiro lugar final na Liga, no entanto, soube a pouco e nem a presença nos quartos-de-final da Taça dos Campeões – eliminação em San Sebastian, frente à Real Sociedad – compensou a frustração e assegurou a continuidade de Oliveira como treinador-jogador. Ainda a época não chegara ao fim e em Alvalade já estava Joszef Venglos, um checoslovaco de ar científico que, muito por força da chegada ao clube de Gabriel, um lateral de seleção, devolveu Virgílio à sua posição original. Defesa central ao lado de Zezinho, Virgílio aproveitou alguns jogos nos quais atuou a meio-campo para assinar uma temporada absolutamente invulgar em termos de golos: marcou seis no campeonato. Só faria mais um em toda a sua carreira, a 30 de Setembro de 1984, num 3-0 em casa ao Varzim, já com o galês John Toshack à frente da equipa. Com o seu sistema de três defesas-centrais, Toshack mudava muito a posição de Virgílio, que nessa época andou a saltitar entre o meio-campo, o centro da defesa e o lugar de líbero, de onde podia comandar a manobra da equipa. O Sporting não foi além da segunda posição, atrás de um super-FC Porto de Artur Jorge, e Virgílio teve aqui a sua última época de preponderância entre os leões: em 1985/86, com Manuel José, já foram mais as vezes em que esteve no banco do que aquelas em que atuou.

Virgílio ainda passou mais dois anos em Alvalade, tendo tido a felicidade de estar em campo, por exemplo, na tarde dos 7-1 ao Benfica (14 de Dezembro de 1986) ou nos dois jogos da Supertaça ganha ao Benfica (3-0 na Luz e 1-0 em Alvalade) de 1987/88. Os dérbis, no entanto, não lhe traziam só alegrias: também lá estava (e a defesa-esquerdo) na final da Taça de Portugal de 1987, que os leões perderam para o Benfica (1-2). Virgílio vestiu pela última vez a camisola do Sporting a 5 de Junho de 1988, numa goleada de 7-0 ao FC Penafiel com que a equipa fechava um campeonato complicado, em que só à penúltima jornada assegurou a qualificação europeia. Seguiu para Braga, onde, no entanto, nunca readquiriu o peso específico que já tivera no Sporting. Despediu-se do campeonato a 29 de Janeiro de 1989, numa derrota em casa frente ao Boavista (0-2). E, tendo passado mais um ano no plantel, não voltou a jogar.

Virgílio desligou-se então totalmente do futebol, até ao convite de Bruno de Carvalho para que viesse a integrar a estrutura dirigente que o acompanha no Sporting. É atualmente diretor da Academia de Formação de Alcochete.