Deu um pontapé para a história, num livre direto que ajudou o FC Porto a ganhar a Taça de Portugal de 1968. Ficou na história do clube por isso, mas também mais de uma década de dedicação e polivalência.
2017-10-26

1 de 7
1963

O jejum do FC Porto já durava há nove anos, desde o célebre campeonato marcado pelo caso Calabote mas ganho pela equipa portista em Torres Vedras. José Maria Pedroto regressara ao clube, para comandar a primeira tentativa de renascimento e, ao fim da segunda época, levara a equipa à final da Taça de Portugal. O adversário era o Vitória FC, que até se adiantara no marcador, num cabeceamento de Pedras. Ainda na primeira parte, porém, Valdemar encheu-se de fé e, a mais de 25 metros das redes de Dinis Vital, bateu com toda a força que tinha um livre direto. A bola saiu a meia altura, ao lado da barreira, mas entrou junto ao poste. O FC Porto acabou por ganhar aquela Taça de Portugal e Valdemar garantiu logo ali um lugar na história do clube.

Os golos nem eram uma especialidade deste defesa polivalente, que chegou às Antas para ser defesa-esquerdo dos juniores, mas que António Medeiros adaptou a central quando ele foi emprestado ao União de Lamas, para ganhar rodagem, e que mais tarde de dragão ao peito chegou também a jogar à direita. Hoje diz que preferia jogar a central, mas uma coisa era certa: era defesa e os golos dava-se melhor a evitá-los do que a marcá-los. E quem sabe se a tendência para pôr sempre os interesses coletivos à frente dos individuais não lhe atrasou a afirmação na equipa. Porque só aos 22 anos, depois de ter sido convocado para a seleção nacional de juniores e de, preterido, ter acabado a jogar pela seleção do Norte, é que Valdemar se afirmou na equipa principal azul e branca. Até ser aposta definitiva do brasileiro Flávio Costa foi somando jogos pelas reservas. E não tinha sido para isso que deixara a família para trás.

Valdemar nasce em Vinhal, no Lordelo. Era o segundo filho – primeiro rapaz – de José, um viajante, e Margarida, que dadas as ausências profissionais do marido tinha muitas vezes de fazer de mãe e pai, além de tratar da terra de onde a família tirava parte do sustento. Como gostava de futebol, o pequeno Valdemar foi testar as habilidades ao Aliados do Lordelo, mas era ainda muito jovem para a equipa de juniores e o Aliados não tinha juvenis inscritos. Treinava e não jogava, até que um dia correspondeu ao convite do primo Manuel e foi com ele à captação do FC Porto. Francisco Reboredo viu-o, gostou e convidou-o a assinar a ficha, garantindo-lhe desde logo uma vaga no Lar do Jogador, para onde o rapaz se mudou. Apanhou Pedroto como treinador nos juniores – na equipa campeã regional de que também fazia parte Artur Jorge – e chegou a treinar com a seleção que depois acabou por se sagrar campeã europeia da categoria, em 1961. Na altura dos jogos, contudo, ficou de fora.

Mesmo assim, a afirmação no plantel principal foi sendo adiada. Após duas épocas seguidas a treinar e a jogar apenas pelas reservas, o defesa-esquerdo foi emprestado ao União de Lamas, da III Divisão, onde António Medeiros começava a carreira de treinador. Medeiros resolveu adaptar Valdemar a defesa-central, aproveitando as suas capacidades de marcação, e o jovem jogador deu boa conta de si, ajudando a equipa lamecense a subir de escalão e a chegar até à final do campeonato. Aí, porém, o U. Lamas perdeu com o Almada (2-3). Valdemar foi então dado como apto para regressar às Antas, ainda que a incorporação no serviço militar e um pé partido num jogo de reservas com o Boavista o tenham forçado a mais um ano sem jogar a sério. A estreia pela equipa principal do FC Porto, Valdemar fê-la por isso apenas a 7 de Setembro de 1965, numa vitória por 1-0 na Póvoa de Varzim, em jogo da Taça de Portugal.

Flávio Costa não manteve Valdemar no onze no arranque do campeonato – havia ainda Paula ou Alípio –, quatro dias depois, mas a derrota em casa com o Barreirense (0-1) tê-lo-á feito mudar de ideias e apostar no rapaz, que assim sendo se estreou no campeonato com uma vitória frente ao Leixões, em Matosinhos (3-2), a 18 de Setembro. Foi sol de pouca dura. Valdemar só voltaria em Novembro. Nessa altura, porém, nem o facto de ter logo participado na destruição de Hannover – o FC Porto perdeu por 5-0 com a equipa alemã, comprometendo desde logo a sua continuidade na Taça das Feiras – lhe custou a confiança do treinador. Até final da época, Valdemar não perdeu mais um minuto dos jogos oficiais do FC Porto, tendo mesmo feito dois golos, à Académca e ao SC Braga. Este num remate de longe que pode de alguma forma ser visto como premonitório

A entrada de Pedroto para o cargo de treinador principal do FC Porto, em 1966, acordou a equipa. E Valdemar fazia parte das primeiras escolhas do mestre. Mesmo tendo estado fora de seis jogos durante a primeira metade do campeonato, fixou-se no onze a partir de Dezembro, pois Pedroto fazia muitas vezes apelo à sua polivalência e deslocava-o para uma ou para a outra lateral da defesa. Foi, por isso, fixo na equipa que chegou à final da Taça de Portugal de 1968 – a tal que foi ganha com um golo dele – e ficou com esperança de ir à seleção, que tinha um jogo de final de época para jogar em Lourenço Marques, com o Brasil. Acabou por não ser convocado. Nunca chegara a jogar pela seleção A de Portugal

Aquela vitória e a aura em torno da figura de Pedroto fez renascer a esperança de um FC Porto campeão logo na época a seguir – em que Valdemar alinhou em todas as partidas. Foi a época do golpe de teatro. Uma derrota com o Sporting, em Alvalade, a seis jornadas do fim, fez com que os dragões deixassem fugir o Benfica, que se colocou dois pontos à frente. Mas os encarnados empataram de seguida com o Sporting em casa e, tendo ganho ao Vitória SC, o FC Porto recuperou parte da desvantagem. Pedroto quis levar a equipa para estágio, o que alguns jogadores recusaram, sob o pretexto de terem negócios particulares a tratar. A direção apoiou os jogadores, mas Pedroto não quis saber: viajou até ao Barreiro para defrontar a CUF sem eles, promovendo o estreante Leopoldo a capitão de equipa.

O FC Porto ainda ganhou esse jogo e aproveitou a derrota do Benfica em Guimarães para regressar ao primeiro lugar. Só que perdeu o seguinte, em casa com a Académica – um jogo em que, ainda com 0-0, Nóbrega falhou um penalti que Valdemar se preparava para bater. Já foi Valdemar a marcar o penalti – e converteu – na jornada seguinte, em casa com U. Tomar, mas o empate (2-2) deixou o FC Porto a precisar de ganhar na Luz na penúltima jornada. A essa, que acabou com 0-0 e a certeza do título para o Benfica, já foram os elementos afastados por Pedroto, mas não foi o treinador, afastado pelo clube. Nunca, desde o título de 1959, o FC Porto estivera tão perto de ser campeão. Ao invés, o campeonato acabou com toda a gente à bulha no interior do clube e abriu caminho à desorientação que acabou por ser a temporada de 1969/70, com três treinadores e um nono lugar final.

Valdemar manteve a regularidade e a importância na equipa com Elek Schwartz, Vieirinha e Tommy Docherty. E apesar de em 1970/71 ter começado a época a ver jogar Vieira Nunes, voltou ao onze em Novembro, para dele não mais sair. Com Riera, foi figura preponderante nas duas vitórias frente ao FC Barcelona de Rinus Michels (3-1 nas Antas e 1-0 em Camp Nou), em Setembro de 1972. Em Dezembro, porém, perdeu o estatuto de titular, ajudando a encontrar espaço na equipa para Rodolfo. Só jogou duas vezes na segunda volta desse campeonato. E em 1973/74, com a afirmação do brasileiro Ronaldo, ficou-se pelas seis, a última das quais a 3 de Março, num empate a zero com o Vitória SC, em Guimarães.

Mas Valdemar ainda tinha apenas 30 anos e muto para dar ao futebol. Optou então por assinar pelo SC Espinho de Fernando Caiado, para onde também foram os seus ex-colegas Bené e Bernardo da Velha. Formando dupla com o brasileiro Washington, acabado de chegar do Flamengo, readquiriu a preponderância, não sendo ainda assim capaz de evitar a descida de divisão. A 11 de Maio de 1975, quando entrou pela primeira vez no Estádio das Antas na condição de adversário, estava, sem o saber, a despedir-se do campeonato. O SC Espinho perdeu por 4-0, mas a despromoção já há muito tinha ficado decidida. Valdemar passou então pelo Salgueiros e pelo FC Paços de Ferreira, á na Zona Norte da II Divisão, onde ficou sempre à beira da subida. Mas nada disso se compara ao que fez em 1977/78, no Aliados de Lordelo. Partilhando balneário com o primo direto Jaime Pacheco, mais tarde glória do FC Porto e do Sporting, bem como da seleção nacional, Valdemar ajudou uma equipa que tinha acabado de subir da III Divisão a chegar ao segundo lugar da Zona Norte do segundo escalão, apenas atrás do FC Famalicão.

A subida de divisão, depois falhada na Liguilha com o Académico de Viseu e o Juventude de Évora, foi um sonho bem real, mas deu início ao pesadelo. Os últimos dois anos da carreira de Valdemar foram a tentar juntar os cacos que ficaram daquele ano. “Andei a ver se aquilo não fechava”, lembra agora. Um ano depois de ter lutado pelo acesso à I Divisão até ao fim, o Aliados desceu para o terceiro escalão. E aqui, na última época de Valdemar enquanto jogador, voltou a descer, desta vez para o distrital do Porto. Aos 36 anos, Valdemar punha o ponto final na carreira de jogador. Vive atualmente em Rebordosa, onde tem uma empresa de aglomerados.