Só se tornou profissional de futebol aos 23 anos, quando chegou do serviço militar, na Guiné. Mas ainda foi a tempo de ganhar duas Taças de Portugal e de andar na liderança do campeonato, com o Boavistão de Pedroto
2016-01-07

1 de 4
1975

Começou tarde, muito tarde, a carreira de futebolista de Trindade. Rapaz modesto de Setúbal, tinha dado uns chutos na bola com a camisola do Comércio e Indústria quando a tropa o chamou e o destacou para a Guiné. Ali foi entretendo o vício, mas sem sequer imaginar que viria a ser profissional, comandado por um treinador campeão do Mundo e por um dos mais míticos líderes do futebol nacional. Saiu diretamente da guerra de África para o plantel do Boavista, onde rapidamente se impôs, jogando com regularidade no campeonato nacional, nas provas europeias e ganhando duas finais da Taça de Portugal. Só não suportou o isolamento a que a permanência no Porto o obrigava, pelo que voltou à base quando ainda tinha muito para dar ao futebol de alto nível.

O Leonel Trindade que chegou ao Porto, em 1973, já com 23 anos, não sabia nada do que era ser profissional de futebol. Vinha da Guiné, onde mostrara capacidades, a ponto de Aimoré Moreira, treinador que levara o Brasil ao título mundial em 1962, o querer no seu grupo. A integração fez-se aos poucos. O jovem sadino foi pela primeira vez convocado a 23 de Dezembro, não saindo do banco numa derrota caseira com o FC Porto. A estreia chegou uma semana depois: a 30 de Dezembro, foi titular na vitória em Guimarães, por 2-0. Há mais de 20 anos que os axadrezados não ganhavam ali um jogo de campeonato, o que levou à manutenção do novo reforço no onze. Até final da época, Trindade só falhou três jogos, ainda que tenha sido muitas vezes adaptado a lateral esquerdo, onde gostava pouco de jogar. A questão é que Mário João e Amândio cumpriam bem ao centro e o treinador brasileiro achava que podia aproveitar ali a velocidade de Trindade.

Quando Aimoré Moreira se mudou para o FC Porto e ao Bessa chegou José Maria Pedroto, Trindade fez valer o conhecimento que tinha do “Mestre”, vindo do tempo em que este treinava o V. Setúbal. Deu-lhe a entender que se era para jogar a lateral, mais valia fazê-lo à direita, para poder usar o seu pé mais forte com regularidade. E depois de um início de época com pouca utilização, acabou por fixar-se à direita e ajudar a uma ponta final afirmativa do super-Boavista. Fez o primeiro golo como profissional, num 6-1 à CUF, a 23 de Fevereiro de 1975, e tomou parte em três vitórias muito importantes: os 2-0 ao Sporting, ainda campeão nacional, na Liga, em Março; o 1-0 ante o mesmo adversário, na meia-final da Taça de Portugal, e um 2-1 contra o Benfica recém-sagrado campeão, em Alvalade, na final da Taça, que nessa época se disputou no Estádio José Alvalade, como forma de demonstrar repúdio pela simbolismo salazarista do Estádio Nacional.

O quarto lugar na Liga não deixava dúvidas: sob as ordens de Pedroto, estava a germinar o Boavistão. 1975 trouxe ainda a Trindade a estreia nas provas europeias – um empate a zero frente ao Spartak Trnava, na Checoslováquia, em Setembro – e a sensação única de liderar o campeonato. O Boavista não perdeu um único jogo durante toda a primeira volta da prova e, ao ganhar em Alvalade ao Sporting, na primeira jornada de 1976 (1-0), virou para a 16ª jornada à frente, com mais um ponto que o Benfica, que visitava o Bessa logo a seguir. Falava-se de um título nacional, mas os axadrezados não aguentaram a pressão: perderam por 4-1 e deixaram o Benfica tomar uma dianteira que a equipa de Lisboa não voltou a largar até final. Para Trindade, 1975/76 ficou marcado pelo segundo lugar final numa Liga em que foi pela primeira vez titular na maioria dos jogos, por mais um golo à CUF (desta vez numa vitória por 9-0) e sobretudo por mais uma vitória numa final da Taça de Portugal. Desta vez ganha na Antas (2-1), contra o V. Guimarães.

Tal como Aimoré Moreira, também Pedroto trocou o Boavista pelo FC Porto, pelo que em 1976 chegou ao Bessa Mário Wilson. A herança era pesada e, apesar do quarto lugar final, viu-se um Boavista menos imponente no confronto com os outros grandes. Apesar de tudo, Trindade ainda participou numa vitória sobre o FC Porto, marcando mesmo o golo da vitória, após cruzamento de Praia. A sua época de maior utilização, 1977/78, foi a última que fez no Bessa. Voltou a ganhar ao Sporting e a empatar com FC Porto e Benfica, despediu-se das competições europeias com uma pesada derrota por 5-0 frente à Lazio em Roma e viu a carreira na Taça de Portugal surpreendentemente interrompida com uma derrota em casa contra o Riopele. O Boavista acabou em sétimo lugar e, já casado e com um filho, Trindade acabou por aceitar regressar ao distrito de Setúbal, onde o aguardavam o resto da família e um convite do Barreirense, dirigido por Manuel de Oliveira.

Muitas vezes, porém, a felicidade e a harmonia familiar não andam de mãos dadas com o sucesso profissional. Foi o caso. Apesar de ter voltado a ganhar ao Sporting (1-0, em finais de Outubro de 1978), Trindade encarou no Barreiro duas descidas de divisão consecutivas. Despediu-se da I Divisão a 17 de Junho de 1979, com uma derrota por 4-1 nas Antas, frente ao FC Porto, que confirmava duas coisas: o bicampeonato dos dragões de Pedroto e a descida à II Divisão da sua própria equipa. Totalista nos 30 jogos da Zona Sul da II Divisão, voltou a ver a sua equipa descer, prova das difíceis condições atravessadas pelo futebol na cidade que chegou a ter duas equipas em simultâneo entre os grandes. Ainda jogou mais na III Divisão, como treinador-jogador do Comércio e Indústria que o vira nascer para a modalidade, mas apesar de alguns trabalhos a liderar equipas do regional, percebeu que precisaria de encontrar outra atividade. Estabeleceu-se então, primeiro como funcionário do grupo Entreposto e depois como empresário, no ramo da metalo-mecânica.