Yekini era um touro. Um poço de força. Chamavam-lhe “Deus Negro” em Portugal, “Yeking” ou “Goalfather” na Nigéria. A carreira, que foi longa, contrasta com a vida, curta e terminada e circunstâncias rodeadas de mistério.
2017-10-23

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1992

Há uma imagem marcante na vida de Rasheed Yekini. Foi registada a 21 de Junho de 1994, quando o avançado celebrou, sozinho e a chorar, agarrado às redes da baliza da Bulgária, o primeiro golo nigeriano na fase final de um Mundial. Tinha sido ele a marcá-lo, o choro vinha de dentro, do amor patriota que punha sempre em tudo o que tinha a ver com o país que o vira nascer, mas a equipa não lhe perdoou. E quando estava no pináculo de uma carreira que vinha subindo desde que, dez anos antes, jogara uma final da Taça dos Campeões Africanos, Yekini começou a ver tudo correr-lhe mal. Jogou durante mais uma década, mas já sem o brilho que o levara a ser melhor marcador de Portugal nessa época, com o Vitória FC, ou maior influência na seleção que ganhara a Taça das Nações Africanas.

Rasheed nascera em Kaduna, no Norte da Nigéria, de origem Yoruba, um dos grupos étnicos mais numerosos do país. Era aprendiz de mecânico quando a sua força, que o transformava numa montanha em movimento, fez dele uma das principais sensações do futebol local. Já tinha jogado a um nível inferior na UNTL, no KDK e no DicBees quando entrou no plantel de uma das maiores equipas do país, o Shooting Stars de Ibadan. Campeão nigeriano em 1983, fez parte da equipa que chegou à final da Taça dos Campeões Africanos no ano seguinte. As duas derrotas com o Zamalek, do Egito (2-0 no Cairo e 0-1 em Lagos), impediram a conquista do troféu e levaram mesmo à dissolução da equipa. Alegava o governo, autor da medida, que o Shooting Stars tinha “coberto a nação de vergonha”.

Valeu a Yekini, por essa altura já jogador de seleção, autor de 35 golos nessa época, que um dos maiores milionários nigerianos, Chief Moshood Abiola, também ele de origem Yoruba, resolveu gastar parte do dinheiro que lhe sobrava a montar uma equipa. Nasceram em Abeokuta os Abiola Babes, onde Yekini acabou por ser uma referência. A equipa, porém, não durou muito. Abiola – que anos mais tarde viria a ser preso político a alegadamente assassinado por contestar o governo autoritário da Nigéria – fechou a equipa tão repentinamente como a tinha fundado, em 1987, como resposta à “falta de organização do futebol local”. Foi a oportunidade para Yekini emigrar. Já foi como jogador do Africa Sports, da Costa do Marfim, que esteve nos Jogos Olímpicos de Seoul, em 1988. E depois de conduzir a seleção ao segundo lugar da Taça de África das Nações de 1990 – perdida na final para a Argélia – tentou a Europa.

Lucídio Ribeiro, o empresário português que dominava os mercados africanos, colocou-o no Vitória de Setúbal e o impacto de Yekini foi imediato. Vendo bem o que tinha em mãos, José Romão deu-lhe a estreia assim que pôde, a 25 de Novembro de 1990, numa receção ao Vitória de Guimarães. Yekini marcou, mas os sadinos perderam, por 3-2. Uma semana depois, novo golo do nigeriano, em Penafiel, mas nova derrota (desta vez por 2-1) levou ao afastamento do treinador. E foi já debaixo das ordens de Quinito que Yekini fez o resto da temporada, marcando 13 golos em 24 jogos, mas não evitando a despromoção do Vitória à II Liga. O possante nigeriano aumentou a cadência goleadora nos dois anos que passou na segunda divisão, sagrando-se em ambas as temporadas o melhor marcador da prova: fez 22 golos em 1991/92 e uns notáveis 34 em 1992/93, ano em que o Vitória subiu ao escalão principal. Tudo somado à influência que teve na qualificação nigeriana para a Taça de África das Nações e para a fase final do Mundial, foi o suficiente para que a Confederação Africana de Futebol o escolhesse como Bola de Ouro do continente em 2003.

E nem o aumento de dificuldade que a subida implicou travou Yekini, que foi também o melhor marcador da Liga portuguesa em 1993/94. Foi quando ele começou a destruir as defesas dos grandes que se começou a falar do portento nigeriano que só os frequentadores do Bonfim conheciam. À segunda jornada, bisou nos 2-3 contra o Sporting; à décima, repetiu a proeza nos 5-2 ao Benfica. A presença na Taça de África, ganha pela Nigéria e na qual foi o melhor marcador, roubou-lhe quatro jornadas da Liga  - entre as quais a receção ao FC Porto – mas mais um bis ao Marítimo e um hat-trick ao Salgueiros permitiram-lhe, ainda assim, ser o rei dos goleadores da Liga portuguesa e acertar uma transferência financeiramente muito vantajosa para a Grécia, onde o Olympiakos ia pagar-lhe 150 mil euros por mês. Foi nesse contexto que Yekini chegou ao Mundial e ao tal jogo com a Bulgária, em Dallas, a 21 de Junho. Bem cedo na partida, Finidi George arrancou pela direita, bateu um adversário e cruzou para um golo fácil de Yekini, que só teve de encostar. Seguiu-se a festa, a solo, genuína e icónica, mas que muitos jogadores daquela seleção nunca perdoaram.

Yekini, diz quem com ele privou, vivia muito emocionalmente tudo o que tinha a ver com a seleção, cujos interesses colocou muitas vezes à frente dos dos clubes que defendia, criando conflitos de interesses difíceis de resolver. Contou depois Babanjida, um dos nigerianos naquele Mundial, que confrontado com a recusa de alguns colegas em lhe passar a bola, Yekini chegou a rogar-lhes, de joelhos, no balneário, que deixassem de o ostracizar, mas nada os demoveu. E Yekini não fez mais nenhum golo no Mundial. No Olympiakos, teve também problemas com colegas e com o treinador, mas foi sobretudo vitimado por uma lesão grave contraída ao serviço da seleção, em Novembro de 1994, contra a Inglaterra, em Wembley. Seguiu para o Sporting Gijón, em Espanha, mas marcou apenas três golos e um ano e meio depois estava de volta a Portugal e ao Vitória. Aos 33 anos, Yekini procurava o reencontro com um passado brilhante, mas nem os ares de Setúbal o ajudaram muito. Despediu-se da I Divisão a 15 de Junho de 1997, com uma vitória em Leça, por 2-0, na qual fez o seu último golo em Portugal.

Yekini ainda jogou um ano na Suíça, com 14 golos no campeonato, ao serviço do FC Zurique, a valerem-lhe um lugar na lista de Bora Milutinovic para o Mundial de 1998. Em França, alinhou nos quatro jogos que a Nigéria fez – três deles como suplente utilizado – mas já não fez golos. O nigeriano anda alinhou na Tunísia e na Arábia Saudita, antes de regressar ao Africa Sports para mais quatro anos. Abandonou a carreira no Julius Berger, da Nigéria, aos 39 anos, por causa de divergências com o treinador, Fatai Amoo. Mas Yekini era uma figura reverenciada por qualquer adepto de futebol na Nigéria e, dois anos depois, Segun Odegbami, ex-colega de seleção, conseguiu convencê-lo a regressar ao ativo com a camisola do Gateway FC, equipa da qual era presidente. “Sei que ele já não tem a velocidade e a resistência de outros tempos, mas a sua presença vai dar-nos a atenção popular de que precisamos”, disse na altura Odegbami. E Yekini jogou por mais um ano, marcando ainda sete golos no campeonato nigeriano

O pior, para Yekini, foi quando o futebol acabou. Especula-se que o ex-jogador entrou em depressão profunda, a ponto de recusar até o papel de embaixador que a federação nigeriana lhe ofereceu. Yekini vivia sozinho – apesar de ter três mulheres e três filhas – e era visto muitas vezes a treinar, também sozinho, no relvado da Unversidade de Ibadan. Em Abril de 2012 houve relatos preocupantes: que andava a correr descalço pelas ruas, que fazia as necessidades fisiológicas por onde passava. Tudo foi desmentido por familiares, mas gerou-se o rumor segundo o qual Yekini sofria de distúrbios psicológicos profundos. Dias depois, uma equipa de enfermeiros foi buscá-lo a casa e levou-o. Internamento ou rapto? As duas teses correm por Ibadan. A verdade é que duas semanas depois, aos 48 anos, Rasheed Yekini estava morto. Uma das filhas pediu uma investigação, um dos irmãos do ex-jogador diz que tudo foi normal e que até tem o recibo do hospital. O assunto, porém, nunca foi devidamente esclarecido, pelo menos em termos públicos.