Passou 20 anos debaixo dos postes. Cresceu à sombra de Damas e Meszaros, foi à procura da sorte que encontrou em Braga e no FC Porto. Conseguiu ser por duas vezes campeão nacional e jogar outras duas pela seleção nacional.
2017-10-22

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1987

Rui Correia foi guarda-redes, mas a sua carreira foi toda feita de fintas. Fintas a um destino que parecia empurrá-lo para outro caminho mas que ele foi sempre sabendo contrariar. Aconteceu quando chegou aos seniores do Sporting e apanhou pela frente com o seu ídolo de infância, Vítor Damas. Mas acabou por dividir a baliza com ele. Aconteceu depois quando passou três anos praticamente sem jogar em Setúbal, mas encontrou em Chaves a via de recuperação e em Braga a afirmação. Voltou a suceder-lhe quando, no FC Porto, após dois títulos de campeão nacional, perdeu a baliza para o regressado Vítor Baía e experimentou mais um longo período de inatividade. E finalmente quando, aos 34 anos, não evitou a descida de divisão do Salgueiros, deixando adivinhar um final de carreira que ele retardou por mais cinco épocas.

Natural de São João da Madeira, Rui Correia destacou-se nas camadas jovens da equipa da cidade, a Sanjoanense, a ponto de ter sido detetado por Osvaldo Silva, à data um dos olheiros da prospeção do Sporting. Chegado a Alvalade com 14 anos, foi fazendo o seu percurso até ser integrado no plantel principal, em 1986. Tapado por Damas e Vital, não chegou a jogar nessa primeira época, acumulando apenas uma mão cheia de presenças no banco. Com a chegada do treinador inglês Keith Burkinshaw, no entanto, as coisas mudariam. Na pré-época, a 5 de Agosto, Burkinshaw deu sinais de que acreditava no miúdo, fazendo-o alinhar em vez de Damas nos últimos minutos de um particular frente ao Betis, em Sevilha, que o Sporting perdeu por 2-1. Dias depois, a 9 de Agosto, fez os 90 minutos nos 3-0 ao MTK Budapeste, que serviram de jogo de apresentação da equipa. Não espantou, por isso, que no início do campeonato, a 23 de Agosto, tivesse sido Rui Correia o eleito do treinador para defrontar o Rio Ave. Os leões ganharam por 4-1 e o primeiro golo sofrido por Rui Correia foi de penalti, batido pelo entral brasileiro Paulo César.

As coisas andavam depressa para o jovem guarda-redes, que a 16 de Setembro fez a estreia nas provas europeias, remetendo o ídolo Damas para o banco nos 4-0 ao Tirol Innsbruck. E uma semana depois foi integrado na seleção de sub21 que ia defrontar a Suécia, cujo titular era o então guardião espinhense Silvino. Burkinshaw foi mantendo a confiança em Rui Correia até que três derrotas consecutivas e Outubro (0-1 com o Kalmar, na Suécia, 1-2 com o Varzim em casa e 0-2 com o FC Porto nas Antas) o levaram a mudar e a requisitar de novo a experiência de Damas. Rui Correia ainda voltou à baliza leonina em Fevereiro, quando uma derrota por 4-0 em Penafiel levou à demissão do treinador inglês e à sua substituição por António Morais, mas uma derrota por 4-1 com o Benfica, na Luz, a 6 de Março, ditou-lhe a sorte: não voltaria a jogar pelo Sporting, seguindo no final da temporada para Setúbal, onde Manuel Fernandes estava a construir uma equipa cheia de jogadores com quem tinha atuado. Pelo Bonfim passaram então, além de Rui Correia, Zezinho, Eurico, Cadete ou Jordão. E, no caso da baliza, mais importante ainda, Ferenc Meszaros.

Rui Correia saiu então da sombra de Damas para se colocar atrás do húngaro que tinha ganho o último campeonato em Alvalade. O Vitória acabou o campeonato em quinto lugar, mas Rui Correia não fez um jogo em toda a época. E nada mudou quando o húngaro saiu e a Setúbal chegou Jorge Martins. Rui Correia voltou a não jogar, com Manuel Fernandes, no sétimo lugar de 1989/90, e com José Romão, em 1990/91, fez apenas uma partida: uma derrota em Penafiel (1-2) que ditou o afastamento do treinador, a 2 de Dezembro. Ao Bonfim chegou Quinito, que recuperou a aposta em Jorge Martins mas, chegado o Verão, Romão lembrou-se do jovem guarda-redes e levou-o com ele para Chaves. Ia agora começar, verdadeiramente, a carreira de Rui Correia. Esperar-se-ia que Vítor Nóvoa mantivesse a titularidade que trazia da segunda metade da temporada anterior, mas a verdade é que foi o sanjoanense quem jogou a tempo inteiro nas 34 jornadas desse campeonato, que os transmontanos acabaram num tranquilo nono lugar.

Seguiu-se Braga, com cinco épocas em cheio, nas quais pôde viver o regresso do clube minhoto ao topo do futebol português sob a batuta de Manuel Cajuda. Sempre titular – falhou nesses cinco anos doze partidas de campeonato – chegou a um SC Braga a lutar para não descer (12º lugar em 1993 e 15º em 1994) e deixou-o nas provas europeias (quarto lugar em 1997). De caminho, António Oliveira – que o conhecia da passagem por Braga, em 1993 – levou-o à seleção nacional, pela qual se estreou a 15 de Agosto de 1995, jogando os últimos oito minutos de uma goleada ao Liechtenstein em vez do boavisteiro Alfredo. Portugal apurou-se para o Campeonato da Europa e Rui Correia foi um dos guarda-redes escolhidos para a fase final por Oliveira, embora aí não tenha chegado a jogar: a baliza era de Vítor Baía. E, um ano depois de Baía ter saído para Barcelona, não tendo ainda o FC Porto encontrado um sucessor à altura, foi também Oliveira quem foi buscar Rui Correia a Braga.

Chegado às Antas, quando estava prestes a completar 30 anos, Rui Correia era um guarda-redes diferente do miúdo que falhara a afirmação no Sporting. Continuava a não ser um guardião físico (não mede, sequer, 1,80m), mas compensava com intuição, reflexos e segurança. E experiência. Acabou por ser o mais utilizado entre os guarda-redes de que Oliveira dispunha para o ataque ao tetra-campeonato, remetendo Eriksson, Hilário e Costinha para papéis secundários. A 26 de Abril de 1998, com uma vitória em casa (3-2) frente ao Boavista, celebrou entre os postes o seu primeiro título de campeão nacional. E a 24 de Maio jogou, no Jamor, a sua primeira final da Taça de Portugal, vencendo o SC Braga por 3-1 e conquistando a dobradinha. E quando ao FC Porto chegaram Fernando Santos e o sério Ivica Kralj, guarda-redes de seleção, ainda se pensou que a era de Rui Correia estaria terminada. Mas não: o português foi alternando com o sérvio, de caminho ainda participou na conquista da Supertaça, e só desapareceu mesmo do radar quando, em Janeiro, voltou Vítor Baía. Ainda foi bicampeão (participando em dois dos cinco títulos do histórico penta portista), mas perdeu influência nas duas épocas seguintes em que esteve nas Antas.

Sem jogar em 1999/00 e 2000/01 – foi para o banco em várias partidas na campanha das duas Taças de Portugal que o FC Porto ganhou – Rui Correia experimentou o passo atrás. Tentou Braga, mas aí já emergira Quim, e acabou por se mudar para o Salgueiros, então treinado por Vítor Manuel, que já o conhecia de anteriores passagens de ambos pelo Minho. A substituição de treinador em Vidal Pinheiro, com a entrada de Carlos Manuel, acabou por lhe retirar espaço ali também. A 26 de Janeiro de 2002, numa derrota em Guimarães, por 3-0, Rui Correia fazia aquele que acabaria por ser o seu último jogo na I Divisão. O Salgueiros era 14º, estava acima da linha de água. Acabou em 16º e desceu de divisão. Com 34 anos, poderia pensar-se num final de carreira. Só que Rui Correia pensou de outra maneira. Ainda fez três épocas como titular do Feirense (na primeira, com subida da II Divisão para a II Liga) e mais duas na Ovarense e no Estoril. Retirou-se a 13 de Maio de 2007, quase 20 anos depois do primeiro jogo, com uma derrota por 2-1 no terreno do Varzim. Na última jornada, já com a manutenção assegurada, foi para o banco.

Foi como que uma premonição de futuro, pois passou a ser treinador de guarda-redes. Foi com Luís Martins para o Portimonense, logo em 2007, tendo depois passado por Olhanense, SC Braga, Académica, Belenenses, OFI Creta (com Sá Pinto), Shandong Luneng (na formação) antes de regressar ao Sporting, onde trabalha atualmente com os guarda-redes da equipa B.