Antes de ser o ideólogo do portismo moderno, no papel de treinador predileto de Pinto da Costa, Pedroto foi um avançado driblador e, depois, um inteligente médio de seleção, por quem o FC Porto bateu o recorde nacional de transferências.
2017-10-21

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1949

Fala-se de José Maria Pedroto e a primeira imagem que se tem é a do treinador, de um homem sentado no banco de boné aos quadrados e óculos escuros. Os mais conhecedores lembrarão o estratega, a figura que, ao lado de Jorge Nuno Pinto da Costa, começou na década de 70 a desenhar os contornos do FC Porto moderno e ganhador, através da ideia de sublevação do Norte face aos poderes da capital, da união contra o inimigo externo. Mas antes de ter sido o líder do melhor Vitória de Setúbal de sempre, de ter levado o Boavista aos primeiros troféus nacionais e de ter interrompido o mais longo jejum de títulos da história do FC Porto, Pedroto tinha sido um grande jogador. Sobretudo a meio-campo, de onde desenhava melhor os planos para levar a equipa à vitória.

Nascido em Lamego, como o mais novo de onze irmãos, José Maria Pedroto foi viver para o Porto aos sete anos, quando o pai, capitão do exército, faleceu. A estudar no Colégio Araújo Lima, paredes meias com o Campo da Constituição, cresceu a ver os treinos do FC Porto e a venerar a arte de Pinga, o seu ídolo de infância. Não espantou, por isso, que tivesse chegado a submeter-se a provas para integrar a equipa de infantis azul-e-branca. Só que não lhe bastou a aprovação do treinador, o austríaco Gutkas, pois não tardou até que a escassez vida em Portugal no tempo da II Guerra Mundial levasse a família Pedroto a mudar-se para Pedras Rubras. Foi ali, portanto, e depois no Leixões, que sempre ficava mais perto, que o jovem José Maria começou a aperfeiçoar os dotes de futebolista.

Pedroto era, por esses tempos, um interior driblador, que fazia da simulação a sua forma de vida. Conta-se mesmo que, um dia, no Leixões, fintou toda a equipa adversária, guarda-redes incluído, antes de parar a bola na linha de golo e a meter na baliza com o calcanhar. Irreverências da juventude de que os treinadores não gostavam nada, por sinal. Nada que o serviço militar não curasse: foi nessa altura que, tendo sido colocado em Tavira, o jovem Pedroto pôde jogar na I Divisão, onde alinhava o Lusitano de Vila Real de Santo António. Estreou-se no campeonato a 9 de Outubro de 1949, com uma derrota frente ao Sporting, por 3-1. Falhou apenas um jogo em todo o campeonato, que foi a pesada derrota do Lusitano frente ao FC Porto (8-2), a 23 de Outubro, mas uma semana depois compensaria, marcando (a 30 de Outubro) o primeiro dos onze golos que faturou em nome pessoal nessa temporada na vitória face ao SC Covilhã, em casa, por 3-1.

Foi uma estreia e cheio no campeonato para o jovem de Lamego. Em casa, fez golos aos cinco primeiros da tabela (Benfica, Sporting, Atlético, Belenenses e FC Porto), contribuindo assim para as vitórias frente a leões (2-0), azuis (5-4) e dragões (3-1). Não admirou, por isso, que mesmo tendo o Lusitano descido de divisão, Pedroto tivesse motivado o interesse de vários clubes. Já se tinha comprometido com o Belenenses quando lhe apareceu a proposta do FC Porto, o clube do coração. E era ainda por cima uma proposta mais vantajosa: do Norte, davam-lhe 80 contos de luvas, contra os 30 oferecidos no Restelo. Só que Pedroto já tinha dado a palavra e não voltou com ela atrás. No Verão de 1950, apresentou-se nas Salésias. A primeira época ali foi modesta, com um nono lugar final na tabela e nove golos de Pedroto o campeonato (mais um na Taça de Portugal, em que o clube da cruz de Cristo se ficou pelas meias-finais, aos pés da Académica, depois de ter eliminado o Sporting e o FC Porto.

À segunda temporada em Lisboa, porém, tudo mudou. Ao clube chegou Fernando Vaz, que olhou para Pedroto e achou que por muito bom que ele fosse a driblar, o que ele tinha de melhor era a cabeça. Puxou-o para meio-campo e transformou-o de driblador habilidoso em sucessor de Mariano Amaro e médio de seleção. O Belenenses acabou esse campeonato em quarto lugar, Pedroto ainda se destacou na arte de golear (fez, por exemplo, um póquer nos 7-0 ao Salgueiros, a 2 de Dezembro de 1951), mas já foi para jogar a meio-campo que Cândido de Oliveira lhe deu a primeira internacionalização, a 20 de Abril de 1952, em Paris. A ocasião era um particular com a França, que os portugueses perderam por 3-0, e Pedroto entrou no decurso da partida para o lugar do portista Joaquim Machado. Era o suficiente para os responsáveis portistas, que no final da época fizeram uma coleta para conseguirem resgatar o jogador que já tinham tido a implorar por uma oportunidade enquanto petiz. Pagaram 500 contos (335 ao Belenenses, 165 ao jogador) e fizeram de Pedroto o jogador mais caro, à data, do futebol português.

A primeira época nas Antas ainda foi, para Pedroto, de grande ênfase aos golos. Teve, com Lino Taioli aos comandos, o seu ano mais produtivo em termos goleadores: 17 tentos no campeonato e mais um na Taça de Portugal, cuja final (derrota por 5-0 com o Benfica) perdeu, por lesão contraída frente ao Marítimo, nuns quartos-de-final estranhamente difíceis (0-0 e 3-2 para os portistas). Mas no ataque a concorrência era grande e nem Cândido de Oliveira nem Salvador do Carmo – que substituiu o Mestre quando este aceitou o desafio de treinar o FC Porto – voltaram a levar Pedroto à seleção. Só lá regressaria pela mão de Fernando Vaz, em Dezembro de 1954, quando o treinador que um dia o descreveu como “a figura mais fascinante” que alguma vez conheceu no futebol acumulou os cargos de treinador do FC Porto e da equipa nacional e devolveu Pedroto ao meio-campo. Seria de vez e ali começaria a construir-se o FC Porto que na temporada seguinte conquistaria a dobradinha com o brasileiro Dorival Yustrich na direção técnica.

É verdade que o resto da equipa não ficava a dever nada ao seu estratega. Já havia Virgílio a segurar a defesa, Hernâni e Gastão a alimentar o goleador Jaburu. E havia Pedroto a comandar a orquestra a meio-campo. O FC Porto só perdeu um jogo em toda a temporada (1-0 com o Sporting em Alvalade, na penúltima jornada, a adiar a decisão do campeão para o último dia), mas acabaria por se sagrar campeão com um suado 3-0 sobre a Académica, a 29 de Abril. Pedroto parou por uns dias, mas voltaria para a fase decisiva da Taça de Portugal, alinhando nas vitórias frente a Marítimo (1-0 nas meias-finais, jogadas em Lisboa) e Torreense (2-0 na final, no Jamor) com que o clube consumou a dobradinha. O médio de Lamego estava na fase mais madura do seu futebol, não tendo perdido um minuto de toda a campanha portista em 1956/57, nem no segundo lugar no campeonato, nem na Taça de Portugal nem na estreia europeia da equipa, em Setembro de 1956, com duas derrotas perante o Athletic Bilbau (1-2 nas Antas e 2-3 em San Mamés).

O ocaso da carreira de futebolista de Pedroto começou em 1957/58. A 22 de Dezembro de 1957 fez, em Milão, a última partida com a camisola da seleção nacional. O resultado foi mais uma derrota (Pedroto perdeu 10 das suas 17 internacionalizações), desta vez com a Itália, encerrando a questão do apuramento para o Mundial de 1958. No clube, já não era capaz de manter a mesma regularidade. Não esteve em campo, por exemplo, na final da Taça de Portugal em que o FC Porto bateu o Benfica por 1-0, ainda que o facto de ter feito todos os restantes jogos da campanha lhe desse legitimidade mais do que suficiente para incluir o seu nome entre os dos vencedores. Em 1958/59, com Otto Bumbel ainda foi jogando, mas depois Béla Guttmann não lhe deu grande espaço naquele que acabou por ser o seu segundo título de campeão, o tal conseguido ao sprint, com os jogadores sentados no pelado de Torres Vedras à espera que acabasse o Benfica-CUF, jogo no qual os encarnados ainda tentavam superar de diferença de golos portista.

Pedroto ainda alinhou na época de 1959/60. Fez até um golo, numa derrota em Braga, a 1 de Novembro de 1959. Despediu-se da ida de futebolista a 24 de Janeiro de 1960, com nova derrota (1-6 com o Sporting, em Alvalade). Nessa altura tinha já o curso de treinador e apostava nas especializações no estrangeiro, tendo vindo a ser ainda mais notável como treinador do que tinha sido de chuteiras calçadas. Liderou a seleção nacional de juniores à vitória no Europeu de 1960 e dirigiu Académica, Leixões e Varzim antes de assumir as rédeas do seu FC Porto, em 1966. Ali esteve à beira de se sagrar campeão, vendo-se traído por uma direção que tomou partido pelos jogadores quando o treinador quis fazer um estágio antes das jornadas decisivas e estes se negaram. Pedroto afastou os rebeldes, mas a direção afastou-o a ele e a coisa foi tão feia que fiou estipulado declará-lo persona non grata no clube. Pedroto dirigiu então um grande Vitória de Setúbal (com sucesso na Europa) e levou o Boavista a ganhar duas Taças de Portugal antes de reentrar no FC Porto de braço dado com Pinto da Costa.

O atual presidente, que na altura era diretor do departamento de futebol, conhecia bem José Maria Pedroto de longas conversas na Petúlia e não hesitou em promover uma Assembleia Geral que autorizasse o regresso do filho pródigo. Os dois interromperam em 1978 o mais longo jejum de títulos na história do clube – datava de 1959 o último campeonato ganho, ainda com Pedroto em campo – mas acabaram por sair na sequência da perda do tricampeonato, em 1980. Voltariam dois anos depois – tendo Pedroto andado pelo Vitória de Guimarães – para construir as bases do FC Porto europeu. Esse, porém, Pedroto já não pôde ver, vitimado por um cancro do colon, que o levou ainda relativamente jovem. Debilitado pela doença, ainda assistiu à forma como o seu adjunto, António Morais, comandou a equipa na final da Taça das Taças de 1984 (derrota por 2-1 com a Juventus), mas já não à vitória na final da Taça dos Campeões de 1987 (2-1 ao Bayern, em Viena).