Era um defesa central daqueles de encostar o cabedal, que imperavam nos campos de Portugal na década de 80. Chegou ao Sporting pela mão de António Oliveira, mas um acidente automóvel acabou-lhe com a carreira.
2017-10-20

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1979

Kikas tinha físico de defesa-central. Era alto, magro mas sem receio de encostar o corpo aos avançados nas lutas pela bola. Tinha, também, mentalidade de defesa-central: corajoso e capaz de dar o corpo ao manifesto pelas necessidades de marcação. Foi isso que António Oliveira terá visto nele quando o recomendou ao Sporting, que tinha acabado de perder Eurico para o FC Porto. O salto, no entanto, foi demasiado grande, até para um central esguio como era este sanjoanense. Kikas era um defesa competente, vinha de três grandes anos no FC Penafiel, mas não conseguiu jogar com regularidade em Alvalade e acabou por rumar à Académica, onde um brutal acidente automóvel lhe acabou com a carreira aos 30 anos.

A história começa em São João da Madeira, de onde Francisco Pinho – assim se chama Kikas – é natural. Na Sanjoanense, onde chegou a partilhar balneário com Veloso – futuro capitão do Benfica – ou Vermelhinho – que viria a brilhar no ataque do FC Porto – Kikas passou quatro anos, sempre na II Divisão. Todos em classificações tranquilas à exceção do último, onde a equipa não evitou a descida ao terceiro escalão. Nessa altura Kikas assinou pelo Valecambrense, à procura de melhor sorte. Não a encontrou ali, mas teve-a quando, aos 22 anos, seguiu para o FC Penafiel, que jogava na Zona Norte da II Divisão. Kikas foi fundamental na subida à I Divisão, alinhando nas 30 jornadas desse campeonato e tendo uma grande quota-parte no facto de a equipa montada por Luís Miguel ter mantido a defesa menos batida do campeonato, com 19 golos. Foi por isso com naturalidade que apareceu no onze que o mesmo treinador escolheu para a estreia histórica do clube na I Divisão. Aconteceu a 23 de Agosto de 1980 e o FC Penafiel ganhou em casa ao Marítimo, por 1-0.

Nessa altura, ainda não tinha chegado a Penafiel António Oliveira, jogador de seleção que entrara em rotura com a direção do FC Porto e se recusara a continuar após o afastamento de Pinto da Costa e Pedroto. Apareceu após a quinta jornada, como treinador-jogador, substituindo Luís Miguel após quatro derrotas sucessivas. Kikas manteve a titularidade – aliás, nessa época só falhou um jogo do FC Penafiel, que foi a vitória em casa frente ao Boavista, por 3-0. E até fez um golo, a Pinhal, nos 3-0 ao Portimonense, a 8 de Março de 1981: acabaria por ser o único em toda a sua carreira na I Divsão. O décimo lugar final que o FC Penafiel ocupou na tabela espelha bem o que foi uma época tranquila, cujo único ponto negativo foi mesmo a derrota no terreno do Cabeça Gorda (1-0), em jogo da Taça de Portugal, dando origem a um dos tomba-gigantes mais famosos do futebol português. Kikas foi um dos que a viveu em campo.

No fim da época, contudo, Oliveira saiu para o Sporting. E o FC Penafiel ressentiu-se disso, sobretudo da falta que o mago fazia em campo. A segunda época foi mais complicada e não se resolveu nem sequer na Liguilha a que o 13º lugar final obrigava. Kikas manteve o estatuto de imprescindível, sendo que três dos quatro jogos a que faltou na Liga aconteceram por castigo, na sequência de uma expulsão, a oito minutos do fim de um jogo que a equipa perdeu por 6-0 com o Sporting, em Alvalade. Regressou a 8 de Novembro, para uma vitória em Setúbal (1-0) e não mais saiu do onze até final da época. Nem na Taça de Portugal, prova na qual, desta vez, o FC Penafiel chegou aos quartos-de-final, acabando eliminado pelo Sporting, em Alvalade, por um já mais aceitável 3-0. E Oliveira, que marcara pelos leões nos dois jogos, recomendou-o a João Rocha, o presidente leonino que não tinha sido capaz de segurar Eurico, o defesa-central da equipa campeã.

Kikas não desceu, por isso, à II Divisão, com os seus colegas penafidelenses. A 29 de Agosto de 1982 fazia a estreia de verde-e-branco, entrando para o lugar de Jordão, a 15 minutos do fim de um jogo com o FC Porto, nas Antas. O objetivo era segurar o empate a zero e foi conseguido. Kikas, contudo, era o terceiro central da equipa, atrás de Zezinho e Venâncio na hierarquia. Foi pela primeira vez titular na Taça de Portugal, a 7 de Novembro, frente à UD Leiria, em casa (vitória por 4-0), mas acabou por beneficiar de alguma inconstância dos joelhos do então emergente Venâncio. Quando este se lesionou, o sanjoanense saltou para a titularidade, anda a tempo de participar na conquista da Supertaça (6-1 ao SC Braga, em casa, na segunda mão, em Dezembro) e na eliminatória perdida para a Real Sociedad na Taça dos Campeões, em Março (1-0 e 0-2). Kikas foi ainda titular em sete das últimas dez jornadas do campeonato. Nessa altura, porém, já o checoslovaco Joszef Venglos assumira a pasta de treinador – e a verdade é que com ele aos comandos Kikas perdeu importância.

A época de 1983/84 foi de pouca utilização para o defesa-central: jogou apenas 54 minutos em toda a temporada, todos entre Setembro e Outubro. No Verão, assumiu que precisava de dar um passo atrás e seguiu para a Académica, onde recuperou a importância no coletivo. Sempre titular, tanto com Jesualdo Ferreira como, depois, com Vítor Manuel, só saiu da equipa em Janeiro de 1985, quando se lesionou ainda na primeira parte de um espetacular empate a quatro bolas com o Sporting em Alvalade. A equipa andava bem, acabou o campeonato num excelente sétimo lugar, e Kikas teve de esperar a sua vez. Reconquistou o lugar apenas em Novembro, sendo depois titular nas últimas 22 jornadas que conduziram ao décimo lugar da Académica e em toda a campanha até aos quartos-de-final da Taça de Portugal – onde os estudantes caíram, após prolongamento, em casa, face ao FC Penafiel.

A derrota em casa com o CD Aves, a 20 de Abril de 1986, na qual Kikas foi substituído por Jorge Paixão, aos 76 minutos, ainda com 0-0 no marcador, porque Vítor Manuel queria ganhar, tinha tudo para ser um jogo como outro qualquer. Não foi: acabou por ser a despedida do defesa. Um brutal acidente de viação, no IC2, em Avelãs de Caminho, do qual escapou com vida mas com uma complicada fratura na anca esquerda, tirou-lhe quaisquer hipóteses de voltar a competir. Kikas tornou-se treinador no Sertanense ou nas camadas jovens da Sanjoanense e esteve como auxiliar de José Garrido no Kuwait e no Bahrain. O filho, João no cartão de cidadão mas também Kikas nos campos de futebol, ainda fez carreira nos escalões secundários, como defesa-central.