Autointitulava-se “O Maior” e talvez até pudesse tê-lo sido. Avançado pleno de força e dono de uma coragem que rondava a insanidade, viu o talento travado pelo álcool e pelas drogas duras, suficientes para o destruírem muito antes do fim.
2017-10-18

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1967

Há a cena do brinco, de que toda a gente fala, porque aconteceu num Benfica-Sporting e teve a normal amplificação. A 12 de Fevereiro de 1978, Vítor Batista fez um golão a Botelho, resolveu o dérbi lisboeta e mandou parar o jogo, ante o beneplácito do árbitro, o alentejano Rosa Santos, para procurar o brinco que lhe fugira do lóbulo da orelha nos festejos. Nunca o encontrou. Tal como nunca mais reencontrou aquilo que prometia ser: um futebolista de exceção, o atacante que metia a força e o poder do concreto no excessivamente macio e artístico futebol português da década de 70. Porque a cena do brinco foi apenas mais uma – e uma das últimas, a esgotar a paciência dos responsáveis benfiquistas.

O que nem toda a gente sabe é que aquele foi o último golo de Vítor Batista com a camisola do Benfica. Ainda fez mais dois jogos, no Restelo com o Belenenses e em casa com o Vitória SC, a 26 de Fevereiro, antes de se recusar a jogar com o Liverpool, a 1 de Março, em desafio dos quartos-de-final da Taça dos Campeões Europeus. Dizia que lhe doía a cabeça. Mas aquele não era caso virgem numa personalidade tão fraca quando excessiva. Já se tinha recusado a jogar em Moscovo, em Setembro, numa primeira eliminatória da qual quase tinha sido afastado por se apresentar no aeroporto de T-Shirt e jeans em vez de vestir o fato do clube, porque só defrontava profissionais – e os soviéticos, já se sabe, eram “amadores”. Tinha sido afastado da seleção nacional, em Chipre, em Dezembro de 1975, quando se recusou a treinar nos relvados do hotel, alegando que não era “jogador de jardim” – o que levou Pedroto, à data selecionador nacional, a recambiá-lo para Lisboa. Já tinha feito greve aos treinos do Benfica, reclamando melhores condições salariais. Já fazia falar dele por entrevistas desabridas, nas quais se dizia “o maior”, ou pelos passeios à volta do Estádio da Luz, no seu emblemático Jaguar, para secar a farta cabeleira que ostentava.

Vítor Batista acabou assim por ser despedido com justa causa pelo Benfica e por regressar ao Vitória FC, em Setúbal, onde nascera para o futebol. Não voltaria, no entanto, a ser o mesmo. À beira dos 30 anos já não lhe sobravam mais do que fogachos de uma carreira que prometera ser brilhante e que arrancara com estrondo aos 18 anos, quando Fernando Vaz o lançou na equipa principal dos sadinos. Vítor, um dos três filhos de uma viúva de um transportador de peixe, tinha deixado a escola depois de acabar a quarta classe, para experimentar uma série de trabalhos. Já tinha sido canalizador, eletricista, merceeiro, carpinteiro… Mas era com a bola que mas brilhava. Ainda jogava nos juniores do Vitória e já lhe pagavam três contos por mês. Tinha fama e Vaz mandou chamá-lo aos seniores na ponta final da época, quando, após um quinto lugar no campeonato, o Vitória ia jogar a fase decisiva da Taça de Portugal. Estreou-se a 18 de Junho de 1967, numa vitória por 3-0 frente ao Leixões, em Matosinhos, que apurava o Vitória para as meias-finais, e logo ali fez a assistência para o primeiro golo. Alinhou ainda nos dois jogos frente ao FC Porto (3-0 e 4-4) e a 9 de Julho esteve no onze que levou o Vitória à conquista do troféu, na famosa final dos dois prolongamentos contra a Académica (3-2).

Vítor Batista estava lançado na equipa, mas o percurso até à afirmação total ainda foi longo. Estreou-se no campeonato a 10 de Setembro, numa vitória por 1-0, em casa, frente ao Varzim. Alinhava como interior-direito, um dos médios de apoio ao ataque formado por Guerreiro, Petita e Jacinto João, mas tinha de discutir o lugar com Pedras e José Maria. Fez a estreia europeia a 14 de Novembro, empatando a um golo com o Bayern, no jogo que ditou a saída do Vitória da Taça das Taças (antes a equipa perdera por 6-2 em Munique), mas pouco mais guardou desta primeira época inteira na equipa principal. Tornou-se mais útil à segunda época: no ano da estreia das substituições no campeonato português, era mutas vezes o joker lançado por Vaz. Marcou na Irlanda, ao Linfield, a 9 de Outubro de 1968, o primeiro golo pelos seniores, na primeira das quatro rondas jogadas pelo Vitória FC até aos quartos-de-final da Taça das Feiras. Faria mais um nessa temporada, ao CD Montjo, na Taça de Portugal.

Foi nessa altura que ao Bonfim chegou José Maria Pedroto e o avançou para a linha da frente. Forte e corajoso, capaz de meter a cabeça onde muitos não metiam o pé, Vítor Batista era uma metáfora para os que levavam vida difícil em Setúbal. Em 1969/70, mesmo discutindo o lugar de avançado-centro com Arcanjo, já foi o melhor marcador da equipa, que voltou a subir um degrau na classificação: o Vitória foi terceiro, depois do quarto lugar de 1969 e do quinto de 1968. Uma vez apenas titular durante toda a primeira volta – na vitória frente ao Leixões, no Bonfim, em Setembro de 1969 – Vítor Batista chegou a meio do campeonato com apenas um golo marcado. A sua estreia a marcar no campeonato aconteceu a 9 de Novembro de 1969, quando fechou a contagem nos históricos 5-0 ao FC Porto. Pedroto só voltou a dar-lhe a vaga no onze em Janeiro, em casa contra o SC Braga. E Vítor Batista agarrou-a: marcou dez golos até final do campeonato, incluindo bis a SC Braga, Leixões e ao FC Porto, desta vez nas Antas, ainda indo a tempo de se sagrar melhor marcador da equipa.

O Benfica começava a reparar nele – nessa época, bisou também na partida da Taça de Portugal frente aos encarnados, que o Vitória ganhou por 3-2, sendo depois eliminado na segunda mão, com um 0-2 na Luz. Mas foi em 1970/71 que Vítor Batista se firmou entre as estrelas do futebol nacional. Novo bis ao Benfica (2-0 no Bonfim, a 29 de Novembro de 1970), mais três póquers (a Boavista, Tirsense e Farense) ajudaram-no a chegar a uns impressionantes 22 golos na I Divisão. A estes somou mas três na Taça de Portugal – um deles a eliminar o FC Porto – e cinco na Taça das Feiras, prova na qual o Vitória FC voltou a chegar aos quartos-de-final. Eram golos a mais para que a seleção o ignorasse: a 17 de Fevereiro de 1971 somou, em Bruxelas, a primeira das suas 11 internacionalizções, lançado por José Maria Antunes na derrota frente à Bélgica, que deixava os portugueses mais longe da fase final do Campeonato da Europa do ano seguinte. O Benfica estava convencido e lançou a rede. Acabou por contratar Vítor Batista nesse Verão, pagando três mil contos e dando ainda os passes de José Torres, Matine e Praia.

Na Luz, Vítor Batista foi integrar-se numa equipa que já era campeã, mas nem por isso teve grandes dificuldades de adaptação. Aliás, a primeira das sete épocas que passou no Benfica foi aquela em que apresentou melhor rendimento: onze golos no campeonato – o primeiro dos quais ao Vitória FC, no Bonfim – ajudaram na renovação do título. Mais cinco na Taça de Portugal (com o já tradicional bis ao FC Porto) carregaram a equipa até à final ganha ao Sporting, na qual, contudo, Vítor Batista acabaria por não jogar. Data desse ano, de 1972, a entrada de Vítor Batista no mundo da droga. Os amigos, mais tarde, culparam as más companhias. A verdade é que com o acumular de episódios “pitorescos” coincidiu a decadência do rendimento em campo. Ainda fez parte da equipa que Jimmy Hagan levou a arrasar a concorrência no campeonato de 1972/73 (28 vitórias e dois empates em 30 jogos), mas só deu o contributo entre Outubro e Janeiro, mês em que se lesionou, contra o Sporting, em Alvalade.

Vítor Batista tinha fases. Fases más, em que não rendia. E fases boas, em que marcava sempre. No final da época de 1973/74 entrou numa fase boa, com oito golos nas últimas sete jornadas a manterem o Benfica vivo na corrida que acabou por perder com o Sporting. Nas 23 iniciais, no entanto, só tinha marcado uma vez. Voltou nesse mês de Junho a jogar uma final da Taça de Portugal, perdida pelos encarnados para o Sporting. E com o 25 de Abril e a onda de liberdade que ele trouxe, acelerou a caminhada para o fim. Era um rebelde permanente: contra o clube, que acusava de não lhe pagar em consonância com a importância que tinha; contra o treinador, que impunha regras demasiado restritivas; até contra alguns colegas, porque sustentava que só Eusébio e Nené estavam ao nível dele. Em campo, ainda manteve a regularidade de utilização na caminhada para o título de 1974/75, mas fez apenas três golos no campeonato (dois ao Oriental e um ao SC Espinho, que alguns jornais consideraram autogolo de Washington). Pouco para um avançado-centro do Benfica. Pouquíssimo, se falamos do “maior”.

Mário Wilson conseguiu tirar mais alguma coisa dele, sobretudo na ponta final da época do bicampeonato: seis dos seus nove golos dessa época surgiram nas últimas sete jornadas de uma prova em que chegou a estar em greve. Mas a chegada de John Mortimore e da sua disciplina rígida levou ao fim da carreira no Benfica de um Vítor Batista em processo de auto-destruição. Uma lesão grave acabou-lhe a época de 1976/77 em Dezembro. Regressaria no início da temporada seguinte, mas apenas para o epílogo do brinco e do nega frente ao Liverpool. Sem clube, Vítor Batista assinou pelo Vitória FC. Calculou que o regresso a casa poderia apaziguar-lhe os demónios e, acreditando nisso, Carlos Cardoso – que tinha jogado com ele – até lhe deu a braçadeira de capitão. Ainda correspondeu com sete golos no campeonato, mas a chegada de Jimmy Hagan a Setúbal, no início da época seguinte, levou a nova rotura. Vítor Batista não gostava dos métodos do inglês, um disciplinador que já conhecia do Benfica, e acabou por aproveitar o interesse do Boavista, onde Valentim Loureiro tentava tudo para elevar o clube ao patamar de um grande. Foi assim que o “Maior” foi parar ao Bessa, onde viveu o seu último momento de glória: em Janeiro de 1980, antes de uma deslocação à Luz, anunciou que ia fazer golo e ganhar. Cumpriu ambas as promessas: o Boavista ganhou ao Benfica por 2-0 e ele fez o segundo golo.

Foi nesse Boavista que Vítor Batista fez o último dos seus 99 golos no campeonato português. Aconteceu a 22 de Março de 1980, de livre direto, e valeu uma vitória dos axadrezados frente ao Marítimo (2-1), no Bessa. De peito cheio, achou mais uma vez que estava mal pago e… foi-se embora. Dos Estados Unidos, acenava-lhe António Simões, que era agora treinador-adjunto dos San Jose Earthquakes, da NASL. Vítor Batista fez a vagem, chegou a jogar uma vez ao lado de George Best (a 3 de Maio, numa derrota em Seattle por 4-0), mas voltou para casa. Mourinho Félix ainda lhe deu a mão e contratou-o para o Amora, mas depois de quatro jogos a titular na abertura da época, só jogou mais sete minutos na I Divisão: despediu-se a 28 de Setembro de 1980, pouco antes de fazer 32 anos, substituindo Diamantino na ponta final de uma derrota caseira com o Benfica, por 2-0. Era já uma sombra do que tinha sido, mas precisava de jogar para ganhar algum dinheiro que lhe alimentasse o vício. Passou um ano no CD Montijo, outro já na III Divisão, com a camisola do União de Tomar, antes de se arrastar pelos campos do distrital de Setúbal com as camisolas do Monte da Caparica e do Estrelas do Faralhão.

Nesta altura, já era mais vezes notícia quando era preso, por roubo, ou quando iniciava mais uma tentativa de reablitação. Veio a morrer na miséria, aos 50 anos, quando era cantoneiro num cemitério. O que o matou foi um AVC. Mas podia ter sido outra coisa qualquer.