Chegou de Moçambique para substituir Peyroteo como goleador no Sporting, marcou a história da Académica, como defesa-central, capitão e treinador-sensação, mas acabou por tornar-se figura histórica do Benfica.
2017-10-17

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1949

Todos os miúdos com aspirações a serem futebolistas sonham com os golos que hão-de marcar. Mário Wilson tinha quem os sonhasse por ele e insistisse à força em fazer dele um avançado-centro que ele não queria ser. Já desde tenra idade que tinha conceitos muito claros na cabeça acerca do futebol e se via a si próprio como defesa-central. E mesmo depois de lhe ser concedida a honra de substituir Peyroteo, o mítico goleador angolano, na frente de ataque do Sporting que ficou conhecida na história do futebol nacional como os “Cinco Violinos”, acabou por fazer quase toda a carreira muito mais atrás, como defesa-central e capitão da Académica.

Filho de mãe moçambicana e pai americano, Mário Wilson cedo revelou talento para a prática do desporto. Em Lourenço Marques – a atual Maputo – jogava futebol, nos Fura Redes, mas também se entretinha com o atletismo, o voleibol ou o basquetebol. Destacou-se mais na arte do chuto na bola e em 1949, quando já era jogador do Desportivo de Lourenço Marques, foi chamado à metrópole, juntamente com Juca, para integrar a equipa do Sporting, que acabara de ganhar três campeonatos seguidos mas sofria com o abandono da carreira de Peyroteo, seu principal goleador. Wilson teve assim, uma estreia apressada: jogou pela primeira vez logo à segunda jornada, a 16 de Outubro de 1949, na vitória por 4-0 frente ao Estoril. Não marcou nesse dia, mas bisou logo uma semana depois, nos 4-2 ao Olhanense. Aliás, a entrada de Wilson no futebol nacional foi muito forte, com oito golos nos primeiros seis jogos.

Uma das primeiras vezes que ficou em branco, contudo, acabou por ser fatal. Foi na derrota em casa com o Benfica, a 11 de Dezembro (1-2), que permitiu aos encarnados passarem para o topo da tabela. Wilson ainda continuou a ser titular, fez mesmo três hat-tricks (à Académica, ao Olhanense e ao SC Covilhã), mas antes do final do campeonato, num esforço para conseguir o segundo tetra-campeonato, o treinador húngaro Sandor Peics acedeu aos pedidos insistentes do moçambicano e, após duas derrotas seguidas, contra Atlético e Belenenses, deu-lhe uma oportunidade como defesa-central… nas reservas. Jesus Correia acabou o campeonato a avançado-centro (nove golos nos últimos quatro jogos), Wilson saltou fora, mas o Sporting já não suplantou o Benfica.

Mário Wilson ainda conseguiu acabar o campeonato com mais golos (24), do que jogos (21). E, mesmo sendo menos utilizado na segunda temporada, não teve um rendimento de um jogador dispensável. Foi campeão nacional, alternando partidas no ataque com outras a jogar como médio mais recuado do WM (aquilo que viria a ser o defesa central no futebol mais moderno). Foi, aliás, nessa posição que, a 24 de Junho de 1951, em San Siro, fez contra o Atlético de Madrid, na Taça Latina, a última partida de verde-e-branco: o Sporting perdeu por 3-1, Mário Wilson foi então para Coimbra estudar geologia e assinou pela Académica, que vira a ser o grande amor da sua vida futebolística. Mesmo ali, Óscar Tellechea, o treinador argentino, começou por o utilizar no ataque. Mas a meio da época já era mais atrás, aos comandos, que se destacava como figura preponderante de uma equipa da Académica que acabou o campeonato num tranquilo sétimo lugar.

Membro da mesma “República” que Almeida Santos ou Salgado Zenha – chegou a contar em entrevista que o futuro presidente da Assembleia da República lhe pedia os fatos emprestados, porque ele primava pela elegância – Mário Wilson foi uma das figuras mais ponderadas no que viria a ser o fervilhante ambiente estudantil das décadas que se seguiram. Em campo, estreou-se pela Académica a 7 de Outubro de 1951, numa derrota caseira frente ao Benfica, marcando o primeiro golo uma semana depois, em novo desairem, desta vez um 3-5 no Estoril. E impôs-se de tal maneira que só voltou a falhar um jogo oficial pelos estudantes em 24 de Janeiro de 1954, quando já era capitão de equipa. Uma lesão prolongada, aliás, roubou-lhe a segunda metade dessa época e a dramática “liguilha” contra o Torreense (2-2 e 1-0), na qual a Académica evitou a despromoção, depois de ter sido penúltima no campeonato.

Apesar da contratação de alguns jogadores promissores ao abrigo da Lei Estudantil e da subida aos seniores de duas fornadas de campeões nacionais de juniores, o período de Mário Wilson enquanto jogador e capitão da Académica nunca foi marcado por grandes conquistas no plano desportivo. Destacaram-se alguma vitórias em jogos isolados frente aos grandes, como o 1-0 contra o Sporting no Jamor, a 10 de Outubro de 1954 – a primeira vitória frente aos leões em mais de uma década – ou o sucesso por 3-1 ante o mesmo opositor, mas já em Alvalade, a 11 de Setembro de 1956, no regresso da equipa coimbrã de uma prolongada digressão por Angola e Moçambique. Nessa época de 1956/57, Cândido de Oliveira, que regressara a Coimbra para substituir o adoentado Alberto Gomes, anteviu aquilo que Wilson viria a ser: treinador. E fez-lhe o convite para acumular as funções de jogador e capitão de equipa com as de adjunto na equipa técnica por ele dirigida.

Os últimos anos da carreira de Wilson foram, assim, divididos entre as duas áreas de atuação. A 7 de Abril de 1963, fez o último desafio pela Académica, um 8-0 em casa ao Barreirense que já deixava a equipa praticamente ao abrigo da despromoção (faltava um ponto, a somar nas três jornadas seguintes). Só Bentes tinha mais jogos do que ele pela Académica. No final da época tornou-se adjunto a tempo inteiro de José Maria Pedroto, à data um jovem treinador que também dava os primeiros passos de uma carreira que veio a ser notável e que até teve alguns confrontos com Mário Wilson. Um ano depois, quando Pedroto entrou em conflito com a direção, sucedeu-lhe, elevando a equipa dos estudantes a patamares à data impensáveis: um quarto lugar em 1964/65, um segundo e uma final da Taça de Portugal em 1966/67, outra quarta posição em 1967/68. Saiu em Novembro de 1968, depois de ter dirigido a equipa na estreia europeia – eliminação por moeda ao ar, frente ao Olympique Lyon, na Taça das Feiras – e de cinco jogos sem ganhar.

Voltaria na década de 80, para se tornar o treinador que mais vezes dirigiu a Briosa (237). Nessa altura, já tinha sido selecionador nacional (de 1978 a 1980) e o primeiro português a sagrar-se campeão nacional aos comandos do Benfica (em 1975/76). Essa temporada, aliás, foi a primeira em que teve ligação oficial ao clube do qual veio a tornar-se, anos mais tarde, uma autêntica “reserva moral”, sendo vezes sem conta chamado a liderar a equipa em alturas de crise. Fechou a carreira de treinador em Alverca, em 1998/99, depois de já ter ganho mais duas Taças de Portugal pelos encarnados. E veio a falecer dias antes de completar 87 anos.