Sportinguista antes de ser futebolista, pôde cumprir o sonho de jogar toda a vida com as mesmas cores e com o emblema preferido junto ao coração. Em campo, como defesa direito, era menos sentimental e mais rigoroso.
2017-10-16

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1963

Era em campo uma espécie de premonição daquilo veio a ser fora dele: um defesa de rigor tático, disciplinado e capaz de compensar com entrega e seriedade aquilo que lhe faltava em brilho. Fez, sempre ao serviço do Sporting, uma carreira só ao alcance dos grandes, mesmo que pontuada por períodos de ausência prolongada que lhe custaram alguns dissabores, como por exemplo a ausência na comitiva dos Magriços que esteve no Mundial de 1966, quando estava a caminho de ganhar a vaga pelas exibições de quinas ao peito.
Ao longo de toda a carreira de jogador, o facto de não ter estado nesse Mundial terá sido uma das suas maiores mágoas: uma perna partida, num jogo com o Belenenses, em Maio de 1965, custou-lhe quase um ano fora dos relvados e a perda do aião que levou a equipa nacional para Inglaterra. A outra mágoa compensou-a já na ponta final da carreira, em 1971, quando marcou ao Glasgow Rangers os seus dois únicos golos como profissional. Esse era já, contudo, o epílogo de uma história que começara mais de uma década antes, quando Pedro Gomes chegou de Torres Novas para jogar na equipa de principiantes do Sporting. Corria o ano de 1957 e o jovem ribatejano começou como interior-direito, posição cuja aprendizagem lhe permitiu anos mais tarde ser um lateral de propensão ofensiva sempre que a consciência tática lho aconselhava.
Internacional pelas categorias mais jovens – esteve, por exemplo, na seleção que foi terceira no Europeu de juniores de 1960 – Pedro Gomes foi incluído no plantel com que Otto Glória se propunha atacar o campeonato nacional de 1960/61. Fizeram-lhe contrato de profissional, a ganhar mil escudos por mês, mas nessa época ele não foi capaz de ganhar o lugar de defesa-direito a Mário Lino. O Sporting foi campeão, mas Pedro Gomes não chegou a alinhar num só jogo no campeonato. Fez, ao longo da época, duas partidas da Taça de Portugal. A estreia foi no último dia do ano de 1961, num 5-1 em casa ao Cova da Piedade, tendo depois jogado em Fevereiro nos 4-0 ao Oriental, na Azinhaga dos Alfinetes, onde viria a estrear-se como técnico principal, em 1973.
Só a 24 de Março de 1963 é que Pedro Gomes fez o primeiro jogo no campeonato. Juca deu-lhe a estreia, numa partida contra o Belenenses, no Restelo, em que a derrota (1-0) e o aumento da distância para o Benfica de cinco para sete pontos significou o adeus do Sporting à ideia de renovação do título de campeão. Pedro Gomes, ainda assim, manteve o lugar. E até ao fim da época participou em sete jogos da caminhada vitoriosa dos leões na Taça de Portugal, como um 2-0 ao Benfica na Luz, que ainda hoje lembra, ou a final, frente ao Vitória SC, ganha de forma clara, por 4-0. Era o primeiro troféu de Pedro Gomes em campo. E a partir daí, mesmo tendo saído da equipa até Novembro, adquiriu formalmente o estatuto de titular do Sporting que trouxe a Taça dos Vencedores das Taças para Portugal.
O regresso ao onze, a 13 de Novembro de 1963, deu-se num jogo que é emblemático: os 16-1 ao Apoel Nicosia, que ainda hoje são o resultado mais desnivelado das competições europeias de clubes. A partir daí, a afirmação foi inevitável. À direita ou, por vezes, à esquerda da defesa, o lateral ribatejano foi pedra basilar do clube e chegou à seleção nacional, lançado por José Maria Antunes numa digressão ao Brasil, em Maio e Junho de 1964. Vinha com a moral em alta, fruto das presenças na final (3-3) e depois na finalíssima (1-0) da Taça das Taças, pelo que não terá acusado o nome dos adversários nos primeiros jogos na seleção: a Argentina (0-2), a Inglaterra (1-1) e o Brasil de Pelé e Jairzinho (1-4), em pleno Maracanã.
Pedro Gomes esteve depois como titular no arranque da qualificação para o Mundial de 1966, a vitória por 5-1 sobre a Turquia, em Janeiro de 1965, no Estádio Nacional, mas a grave lesão que sofreu a 30 de Maio desse mesmo ano, em partida da Taça de Portugal contra o Belenenses, roubou-lhe o sonho. A perna partida impediu-o de jogar essa final da Taça de Portugal, que o Sporting perdeu para o Vitória FC Setúbal, da mesma forma que lhe roubou quase toda a época seguinte. Só voltou a jogar em final de Março de 1966, a tempo de se sagrar ainda campeão nacional de pleno direito pela primeira vez, mas já não de entrar na convocatória de Manuel da Luz Afonso para a fase final do Campeonato do Mundo, de que os Magriços regressaram com um brilhante terceiro lugar.
Além disso, tendo estabilizado Morais como defesa-direito, o espanhol Fernando Argila só encontrava espaço para Pedro Gomes no onze como alternativa a meio-campo. Só com a chegada ao clube de Fernando Caiado e a lesão grave de Morais, em Matosinhos, no início do campeonato de 1967/68, é que o ribatejano voltou à posição que mais lhe convinha e ao onze titular. A aquisição de Celestino, lateral sensação vindo da Académica, contudo, veio também roubar-lhe algum espaço na equipa, na qual Pedro Gomes só estabilizou em 1969. Na que foi a sua melhor época de sempre, sob a liderança de Fernando Vaz, passou em campo os 3510 minutos dos 39 jogos oficiais que os leões fizeram nessa época. Campeão nacional mais uma vez, teve como pontos mais infelizes as derrotas frente ao Arsenal (0-3), razão da saída da Taça das Cidades com Feira, e ao Benfica (1-3), na final da Taça de Portugal, a impedir os leões de ganhar a dobradinha.
Pedro Gomes voltou então à seleção nacional, da qual se despediria em Outubro de 1970, à nona internacionalização, uma vitória frente à Dinamarca, em Esbjerg (1-0), já no apuramento para o Europeu de 1972. Jogou e ganhou (4-1 ao Benfica) a final da Taça de Portugal de 1971. Faltava-lhe ainda uma alegria, no entanto: em centenas de jogos como profissional, nunca tinha marcado um golo. Marcou o primeiro a 20 de Outubro de 1971, quatro dias depois de ter completado 30 anos. O jogo era da Taça das Taças, em Glasgow, contra o Rangers e, depois de uma primeira parte coletivamente desastrosa (0-3 ao intervalo), Vaz chamou-o par ocupar o lugar de Laranjeira. E, em recarga a um remate de Lourenço, o lateral fez um dos golos com que o Sporting conseguir manter a eliminatória em aberto (derrota por 3-2). Foi também ao Glasgow Rangers que, no jogo da segunda mão, Pedro Gomes fez o outro golo da sua carreira: em Alvalade, a oito minutos do final do tempo regulamentar, desfez o empate (2-2) e conduziu a equipa ao prolongamento. No fim, com 4-3, deu-se a rábula dos penaltis: o árbitro holandês esqueceu-se da alteração nos regulamentos, que valorizava os golos obtidos no terreno do adversário, e mandou as equipas para um desempate que o Sporting ganhou, mas apenas para ver os escoceses festejarem o apuramento.
Em Junho de 1972, Pedro Gomes jogou a sua terceira final da Taça de Portugal seguida, desta vez com derrota (2-3, no prolongamento) com o Benfica. No final da época chegou a Alvalade o treinador inglês Ronnie Allen, que ainda assim continuou a apostar nele. Mas uma lesão, na derrota caseira com a CUF (0-1), a 26 de Novembro de 1972, abreviou a carreira do defesa lateral, que não mais vestiu a camisola do Sporting em jogos oficiais. No início da época seguinte resolveu aproveitar a forma cerebral como sempre jogou futebol para arrancar com a carreira de treinador, liderando o Oriental na última vez que a equipa lisboeta festejou a manutenção na I Divisão. Veio depois a tornar-se o primeiro treinador especializado em subidas de divisão, promovendo, em épocas quase seguidas, o Marítimo (em 1976/77), o Rio Ave (em 1978/79), a Académica (em 1979/80) e a União de Leiria (em 1980/81).
Após a passagem pelo Nacional da Madeira, assumiu o cargo de adjunto e intérprete de John Toshack, no Sporting, vindo a assumir o cargo do galês na ponta final da época. Não voltou, no entanto, a treinar na I Divisão, passando na ponta final da sua carreira de treinador a acumular cargos em equipas da II Divisão B com a tarefa de comentador de futebol na rádio e na televisão e o “hobby” da escrita, que o levou a publicar, por exemplo, um livro de contos, intitulado “Linha de Cabeceira”.