Treze anos como jogador, alguns deles no papel de capitão, e muitos outros como treinador, principal ou adjunto, fazem de Toni uma espécie de recetáculo da mística do Benfica. Sempre foram oito títulos de campeão nacional.
2017-10-14

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1966

Começou a dar os primeiros chutos na bola e era do Belenenses. Anos mais tarde, chorava pelo Benfica. Não por ter feito juras de amor eterno, mas porque nunca soube viver as coisas de outra forma que não através da entrega total. E Toni somou ao longo da vida 40 anos com o emblema da águia, ao qual nunca disse não e que só deixou de servir quando lhe fizeram ver que não era desejado.

Apesar do início marcante na Académica, onde fazia da força e da resistência as maiores armas, Toni só se fez jogador no Benfica. Ali ganhou oito campeonatos nacionais e duas Taças de Portugal; ali foi técnico-adjunto, aprendendo com Eriksson; ali chegou a treinador principal, em momentos de aperto, dos quais saiu quase sempre com resultados que alimentaram a noção de que era uma espécie de recetáculo da “mística”. No dia em que ganhou o segundo e último campeonato como treinador, em 1994, chorou em direto na televisão para deixar sair a amargura que lhe ia na alma desde que soubera que o iam trocar pelo amigo Artur Jorge. Toni tentou depois uma carreira quase sempre mal sucedida no estrangeiro, mostrando que não era grande sem o Benfica. E o clube entrava no mais negro momento de toda a sua história, com onze anos sem ganhar um campeonato.

António José da Conceição Oliveira, conhecido no futebol como Toni, nasceu a 14 de Outubro de 1946, em Mogofores. Ali começou a jogar futebol, no Instituto Salesiano, passando aos 16 anos ao Anadia FC, onde o descobriu Mário Wilson, que o levou para a Académica. Em Coimbra, Toni começou a respirar a sede de libertação que se vivia na universidade mas não se impôs na equipa de futebol. Em 23 de Janeiro de 1966, em Setúbal, foi, como qualquer caloiro, permanentemente interrompido no discurso que tinha de fazer ao resto da equipa antes da estreia, mas o empate a dois golos frente ao Vitória FC acabou por ser o único desafio que fez em toda a época. E em 1966/67, ano que a Académica acabou em segundo lugar, não teve mais oportunidades. Apareceu-lhe, contudo, uma de ouro: antes da última jornada do campeonato, Gervásio caiu à cama com febre, não restando a Wilson senão apostar na “Locomotiva” para esse jogo – um empate a zero com o Sporting, em Alvalade – e depois para a fase decisiva da Taça de Portugal. Toni jogou nas eliminações do Benfica e do Sp. Braga e foi um dos melhores em campo na final dos dois prolongamentos, que a Briosa perdeu com o Vitória FC, com um golo de Jacinto João aos 144’, já com a noite a cair.

Mesmo continuando a jogar poucas vezes, estava lançado. Na época seguinte, Gervásio recuou para a linha defensiva e foi o jovem de Mogofores a impor-se no meio-campo estudantil. Uma lesão contraída em casa, contra o Barreirense, em meados de Dezembro de 1967, roubou-lhe dois meses da época, mas mesmo assim, no final do campeonato, tinha pretendentes. Contra vontade do pai, que o queria na Faculdade de Direito, foi para o Benfica, por 1305 contos. Na Luz, assumiu depressa a titularidade no Benfica de Otto Glória: alinhou em 23 dos 26 jogos que em 1969 lhe valeram o primeiro título de campeão nacional, bem como na final da Taça de Portugal do luto académico, em que os encarnados venceram a Briosa por 2-1. Marcou nessa época, através de um remate de longe, o primeiro de 16 golos no campeonato: fê-lo a 26 de Janeiro de 1969, num claro 5-0 à Sanjoanense. Antes, a 17 de Setembro de 1968, já se estreara nas competições da UEFA, alinhando num tímido empate a zero frente aos islandeses do Valur, em Reiquejavique.

Com Otto Glória, José Augusto e, depois, Hagan, Toni fez-se melhor jogador, correndo menos e pensando mais, aperfeiçoando a parte técnica. Chegara, entretanto, à seleção, pela qual fez 33 desafios, entre 1969 e 1978. A estreia, fê-la a 12 de Outubro de 1969, numa derrota por 1-0 com a Roménia, em Bucareste, que acabava com as esperanças portuguesas de chegar ao Mundial do México, no ano seguinte. No plano nacional, porém, os sucessos acumulavam-se. É verdade que o Benfica perdeu o tetra-campeonato para o Sporting, em 1969/70, numa época onde, mesmo assim, ganhou a Taça de Portugal, batendo os leões por 3-1 – e Toni jogou a final, saído a correr do serviço militar –, mas a este ano seguiu-se mais um tricampeonato, sob as ordens do inglês Jimmy Hagan. Só na primeira destas três épocas não foi titular absoluto, dividindo o lugar ao lado de Jaime Graça com o emergente Vítor Martins. Na segunda jogou mais vezes, marcando presença inclusive em mais uma final da Taça de Portugal, outra vez ganha ao Sporting, desta vez no prolongamento (3-2), numa tarde fenomenal de Eusébio, autor de um hat-trick. E na terceira voltou a assumir grande importância na equipa, só não sendo titular uma vez (empate com o FC Porto nas Antas) e obtendo três golos.

Curiosamente, Toni teve um papel ainda assim importante no final desta era. Na manhã da festa de despedida de Eusébio, que coincidiu com as primeiras jornadas de novo ataque ao tetra, em Setembro de 1973, Jimmy Hagan marcou treino e colocou toda a gente a correr. Toni, Nelinho e Humberto Coelho atrasaram-se um pouco e fizeram “batota”, um ligeiro corta-mato que lhes permitiu retomarem o contacto com os companheiros. O treinador, inflexível, castigou-os e impediu-os de participar na festa. O presidente, Borges Coutinho, levantou o castigo e Hagan foi-se embora. Substituído o inglês por Fernando Cabrita, o Benfica voltou a perder o campeonato para o Sporting. Mas Toni preparava-se para ganhar outras guerras: com Artur Jorge, que já conhecia dos tempos de Coimbra, vestiu a camisola do Sindicato dos Jogadores, numa altura muito importante, por se ter dado o 25 de Abril. E assumia de tal forma a defesa dos interesses de classe futebolística que, em Janeiro de 1975, chegou a entrar em campo, antes do jogo com o Farense, com uma resma de panfletos a apelar à participação na manifestação pela unidade sindical.

O feitio de líder permitiu-lhe assumir o cargo de capitão de equipa em 1974, quando Simões deixou o clube. Manteve a posição até perder o lugar no onze, em 1980, com excepção de um curto período, em 1976, em que abdicou porque o Benfica recusou vendê-lo ao Red Star de Paris. Os franceses davam dois mil contos, mas o Benfica queria quatro. Vendo frustrada a hipótese de triplicar o salário, Toni deixou vir à tona a faceta emotiva, a mesma que, em Janeiro de 1979, o fez chorar convulsivamente e pedir a substituição após perceber que tinha fraturado a tíbia e o perónio ao portista Marco Aurélio num lance dividido. Perdido mais um tetracampeonato, desta vez para o FC Porto, em 1978, depois de mais três títulos de campeão pelo Benfica, com Pavic (1975), Wilson (1976) e Mortimore (1977), Toni manteve a importância na equipa em mais duas épocas nas quais o Benfica se limitou a ganhar uma Taça de Portugal. Essa final, ganha ao FC Porto, no Jamor, a 7 de Junho de 1980, foi o último jogo em que foi titular dos encarnados. Depois de quase um ano sem jogar, porém, ainda teve a oportunidade de fazer o último dos seus 299 jogos pelos encarnados no campeonato a 24 de Abril de 1981: substituiu Carlos Manuel a meio da segunda parte, na consagração do Benfica-campeão, frente ao Vitória FC, em casa. Não chegou a contribuir em campo para a vitória na Taça de Portugal – ainda que tenha sido suplente frente ao Sacavenense, nos oitavos-de-final, e em Julho estava a ser apresentado como adjunto de Lajos Baroti.

Auxiliou então diversos treinadores, como Baroti, Ivic, Csernai, Mortimore ou Skovdahl, mas nenhum o marcou tanto como Eriksson. Os dois formavam uma dupla tão perfeita que, quando saiu do Benfica pela primeira vez, em 1984, o sueco tornou público que aconselhara Fernando Martins a apostar em Toni. A sua primeira oportunidade, contudo, só chegou em Dezembro de 1987, quando o dinamarquês Ebbe Skovdahl foi despedido. Toni começou por perder a Supertaça para o Sporting, com um nada promissor 0-3 na Luz, mas acabou por endireitar as coisas e, mesmo não sendo campeão, atingiu a final da Taça dos Campeões de 1988, perdida nos penaltis. Campeão em 1989, viu depois o Benfica receber de volta Eriksson. Era a altura de caminhar pelo próprio pé, mas ele não foi capaz de dizer não ao clube e ao amigo, pelo que aceitou regressar a adjunto. Toni só voltou à ribalta em Outubro de 1992, quando Jorge de Brito despediu Ivic: ganhou a Taça de Portugal na primeira época e foi campeão na segunda, mas voltou a ser substituído, desta vez por Artur Jorge, o primeiro de uma série de treinadores mal sucedidos na Luz.

No período negro que se seguiu, o Benfica ainda voltou a lembrar-se de Toni. Primeiro, em 1996, como diretor desportivo. Depois, em 2000, de novo como treinador e aposta do novo presidente, Manuel Vilarinho. Nunca se deu bem, o mesmo sucedendo nas experiências que foi tendo no estrangeiro, no Bordéus, no Sevilha e por fim na China, no Egipto, nos Emiratos Árabes Unidos ou no Irão. É neste momento o treinador do Kazma, no Kuwait.