Formado no Benfica, Ramalho fez toda a carreira a Norte, onde se tornou um lateral rigoroso e regular, com quase 300 jogos na I Divisão.
2016-01-06

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1972

Do alto do seu metro e 67, Ramalho não era uma estampa física, mas compensava a falta de estatura com uma combatividade e um rigor muito acima da média, bem como com uma formação digna de registo, recordada por muitos dos que com ele dividiram espaço nos relvados. Internacional nas camadas jovens, quando vestia a camisola do Benfica, percebeu rapidamente que não tinha aquilo de que precisava para fazer carreira na Luz e não hesitou em aventurar-se pelo Norte. Primeiro em Aveiro e depois em Guimarães, fez uma carreira longa e próspera, quase sempre nos lugares cimeiros da tabela e a jogar com muita regularidade. No fim, não se arrependeu, pois foi a Norte que encontrou saída para o sempre complicado período pós-futebol.

Campeão nacional de juniores em 1972, ao lado de Amaral, Fernando Santos, Shéu ou Norton de Matos, João Ramalho teve à vista a possibilidade de ascender ao plantel orientado por Jimmy Hagan, mas desde logo percebeu que tinha poucas hipóteses de se impor num plantel com tantos craques, que por essa altura ganhava três em cada quatro campeonatos. Aproveitou, por isso, o convite que lhe chegou de Aveiro, para integrar a equipa do Beira Mar que Orlando Ramin queria manter entre os grandes. Ali chegado, tornou-se de imediato titular, estreando-se na I Divisão com uma derrota em Faro, por 3-2, a 10 de Setembro de 1972. Logo na primeira época Ramalho mostrou ao que vinha, exibindo a regularidade que lhe permitiu falhar apenas três partidas de campeonato e alinhando de caminho nos empates caseiros ante o Sporting (0-0, em Abril) e o FC Porto (1-1, em Junho). Este ponto, conseguido na penúltima jornada, acabou por garantir a manutenção na I Divisão, visto que os aveirenses se despediram desse campeonato goleados em Tomar, por 8-1.

A segunda época, com Frederico Passos aos comandos, não foi mais fácil. Ramalho falhou as primeiras quatro partidas da época, mas daí até final jogou sempre, marcando presença em mais dois empates surpreendentes no Mário Duarte: 1-1 com o Benfica em Março e 1-1 com o Sporting em Abril. Depois deste ponto arrancado aos leões, que viriam a ser campeões dessa época, o Beira Mar ainda era último e parecia condenado à despromoção, mas a equipa arrancou para uma ponta final de campeonato épica, em que ganhou ao Oriental no Carlos Salema (1-0), empatou com a Académica em Coimbra (1-1) e bateu o Farense no Mário Duarte (3-1), assegurando o direito a jogar a liguilla com os segundos de cada zona da II Divisão. Aí, no entanto, o Beira Mar já não conseguiu escapar e caiu mesmo para o segundo escalão. Ramalho, esse, tinha futebol de primeira, pelo que mereceu o convite para rumar a Guimarães, onde o esperava Mário Wilson.

Aos 20 anos, o lateral lisboeta começava a aventura da sua vida: foram, ao todo, nove épocas com a camisola do Vitória vestida e com a braçadeira de capitão a partir de metade do percurso. O facto de vir de uma equipa despromovida não o condicionou em nada, pois Ramalho foi totalista logo na primeira época, compondo com Rui Rodrigues, Torres e Osvaldinho um quarteto defensivo que alcandorou o V. Guimarães à quinta posição final. A vitória em Alvalade (3-2), os dois empates nas Antas com o FC Porto (um deles, para a Taça de Portugal, resultou depois em eliminação no D. Afonso Henriques), bem como o empate em casa com o Sporting (0-0) e a vitória frente ao FC Porto (2-0) foram os pontos altos de uma temporada em cheio, na qual Ramalho não falhou um único minuto de jogo. A passagem de Wilson para o Benfica e a chegada a Guimarães de Fernando Caiado começaram por não o afetar diretamente: começou 1975/76 como titular, até fez o primeiro golo da sua carreira sénior, num 3-0 ao Farense, a 14 de Setembro (veio a complementá-lo com mais um, ao Atlético, em Novembro), mas mais dois empates contra os candidatos ao título atrapalharam-lhe, desta vez, a vida. Em vésperas de Natal, num 1-1 com o FC Porto nas Antas, foi expulso perto do final, por se envolver numa briga com Seninho. Em Fevereiro, em Alvalade, fez um autogolo num 1-1 com o Sporting e saiu pouco depois, dando lugar a Alfredo. Este portou-se bem e agarrou o lugar, forçando Ramalho à época menos conseguida até ao momento, tendo até falhado a final da Taça de Portugal, que o V. Guimarães perdeu frente ao Boavista (1-2).

Caiado ficou mais uma época e, mantendo em Alfredo à direita a confiança que ainda lhe faltava no brasileiro Celton, lembrou-se de Ramalho para substituir o veterano Rui Rodrigues no centro da defesa. Uma novidade que, tantos anos passados, o lateral recorda com algum gozo: “Nos jogos em casa era fácil, porque o Torres marcava o avançado-centro e eu, que era muito rápido, ia às sobras. O problema era fora, onde sofríamos mais cantos e livres. Passava os jogos a olhar para cima”, lembra com uma gargalhada. Mesmo assim, Ramalho voltou a fazer todos os jogos do campeonato. Em 1977, o regresso a Guimarães de Mário Wilson e a entrada no plantel de Soares, para formar dupla com Torres, devolveu Ramalho à direita da defesa, onde o lisboeta se sentia melhor. O Vitória conseguiu mais um sexto lugar e Ramalho entrou numa série de 75 jogos seguidos sempre como titular, entre uma derrota no Estoril a 9 de Abril de 1978 (0-1) e um empate em casa com o V. Setúbal, a 28 de Setembro de 1980. Mário Wilson, Daniel Barreto, Mario Imbelloni, Cassiano Gouveia, Fernando Peres, José Maria Pedroto, Artur Jorge… todos depositavam confiança no lateral que já estava feito capitão de equipa. Nesse longo percurso, Ramalho fez o que viria a ser o seu terceiro e último golo no campeonato, num empate a duas bolas com o Marítimo, nos Barreiros, em Agosto de 1980.

Em 1981/82, começou a faltar a Ramalho a continuidade que tanto prezava. Ainda acabou essa época como titular, mas foi tendo menos jogos com Pedroto, e menos ainda com Manuel José, em 1982/83. Acabou, por isso, pode sair para o Sp. Espinho, onde, primeiro com Álvaro Carolino e depois com Hernâni Gonçalves, se despediu da I Divisão. Saiu a ganhar, num jogo em casa, com o Salgueiros (1-0), a 12 de Fevereiro de 1984. Sem um minuto sequer nas últimas 13 jornadas, aceitou o convite de Nelo Barros para jogar na II Divisão. Passou um ano no Felgueiras, a meio da tabela na Zona Norte, e outro no Varzim, onde encerrou a carreira a festejar a subida ao escalão principal. Aos 32 anos, mesmo tendo tirado o curso de treinador por insistência de Pedroto, arrumou de vez com o futebol e passou a trabalhar na área da joalharia, aproveitando a porta que lhe tinha sido aberta pelo empresário vimaranense que fundou a Garcia Joalheiros. Vive atualmente na Sobreda, perto da Caparica, onde continua a ver futebol, mas apenas como adepto.