Dotado de uma estatura invulgar, destacava-se pelo jogo aéreo e pelo pontapé longo, que lhe permitia abreviar processos quando a super-equipa que o FC Porto tinha nos anos 30 passava ao ataque.
2017-10-12

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1934

No filme “O Leão da Estrela”, Guilhar faz papel de mero figurante: limita-se a ser driblado por Travaços no “relato” que Anastácio (António Silva) faz antes de marcar golo e destruir a mesa da sala de jantar. Na vida real, não foi bem assim. O longilíneo defesa do FC Porto fez carreira longa e destacada numa equipa que, se naquele final da década de 40 já estava a entrar em declínio, tinha dado cartas quando ele esteve no auge.

Natural de São Tomé e Príncipe, Vítor Guilhar começou por jogar como extremo esquerdo e foi assim que, tendo feito o seu trajeto por clubes como o União de Paredes, o Boavista ou o Mirandela, chegou ao FC Porto. Já tinha feito 23 anos e andava sempre por equipas que jogavam em categorias inferiores, mas acreditava na potência da sua perna esquerda para fazer carreira no futebol a sério. Os inícios no FC Porto nem lhe correram mal: chegou no final do ano de 1936, para lutar por uma posição que tinha grande concorrência. O treinador, o austríaco Gutkas, fizera o campeonato regional alternando entre extremos-esquerdos. Ora jogava Ângelo, ora jogavam Lemos, Arnaldo ou Carlos Nunes. No início do campeonato nacional, a preferência foi para Acácio Mesquita, mas a terceira jornada, com o Sporting, no Ameal, a 31 de Janeiro de 1937, estreou Guilhar. O empate a dois golos tê-lo-á feito regressar à fórmula inicial, mas Guilhar acabou por regressar. E, fazendo um grande jogo frente ao Leixões (um golo e duas assistências, a 28 de Fevereiro), acabou por agarrar o lugar.

Guilhar foi o extremo-esquerdo mais utilizado no quarto lugar do FC Porto na Liga, mas já não jogou na campanha que valeu ao clube a conquista do Campeonato de Portugal, na ponta final da época: aí foi o regressado Carlos Nunes, com 10 golos, a grande figura da equipa. E, depois de ainda ter participado na conquista do campeonato regional de 1937/38, Guilhar saiu para o Boavista, onde foi jogar a II Divisão. Quando regressou ao FC Porto, no final desse ano de 1938, Mihaly Siska já vu nele outra coisa: um defesa. O são-tomense fez a re-estreia precisamente contra o Boavista, a 18 de Dezembro, num jogo que os portistas ganharam por 8-1, formando dupla defensiva com Sacadura e, apesar de ter alinhado apenas nas duas últimas jornadas, pôde festejar mais um título regional. No campeonato nacional começou por dar a vez a Carlos Pereira, mas acabou por lhe ganhar o lugar no lado esquerdo da dupla defensiva que se sagrou campeã nacional: jogou as últimas sete jornadas, após a única derrota que a equipa teve na Liga (1-4 com o Benfica, a 5 de Março).

Guilhar não mais perdeu o lugar, a não ser por impedimentos físicos ou disciplinares. Foi dos que esteve, por exemplo, na derrota por 6-0 frente ao Benfica, seguida de abandono de campo, que motivou o afastamento dos portistas da Taça de Portugal e o corte de relações entre os dois clubes. O defesa só falhou vários jogos do regional, por suspensão. É que Guilhar foi um dos primeiros expulsos no jogo entre o FC Porto e o Académico do Porto, o tal que não chegou ao fim por inferioridade numérica dos azuis e brancos e que gerou enorme confusão na cidade. Tendo terminado o regional de 1939/40 em terceiro lugar, os portistas não se apurariam para o campeonato nacional, onde naquela altura não havia sistema de subidas e descidas mas sim atribuição de vagas a cada associação regional. Para o campeão poder defender o título, a FPF mandou alargar a I Divisão. E não só o FC Porto jogou, como assegurou o bicampeonato. Guilhar foi totalista e líder da defesa menos batida da prova.

Com tanto destaque não espantou que tenha chegado à seleção nacional, na qual se estreou pela mão de Cândido de Oliveira, a 12 de Janeiro de 1941, num empate a duas bolas com a Espanha, nas Salésias. Viria a fazer mais um jogo com as quinas ao peito, em Março desse mesmo ano, igualmente contra a Espanha, mas desta vez em Bilbau e com derrota portuguesa por 5-1. Nesse campeonato, de 1940/41, que o FC Porto perdeu para o Sporting por três pontos, voltando a falhar o tri, Guilhar jogou todos os jogos menos o último, um empate frente ao Unidos de Lisboa, por ter sido expulso na partida anterior, contra o Boavista. O defesa são-tomense estava a chegar aos 30 anos, mas ainda teria muito para dar ao clube. Até aos 34 anos, foi sempre titular inamovível no setor mais recuado da equipa, só tendo perdido jogos pelas tais razões imponderáveis. Esteve afastado da equipa na segunda metade do ano de 1943, regressando apenas em Janeiro de 1944 e para um jogo a extremo-esquerdo, contra o Belenenses, antes de voltar à sua posição natural no resto do campeonato.

Na ponta final da carreira, mesmo alinhando atrás, voltou a saborear o prazer de fazer golos. Fez um em cada um dos seus últimos dois campeonatos, ao Boavista e ao SC Braga. Despediu-se do campeonato a 30 de Maio de 1948, com um empate a duas bolas frente ao Estoril, na Constituição, que vale ao FC Porto manter o quinto lugar final na tabela. Uma pálida imagem de uma equipa que já tinha sido muito mais forte. Guilhar ainda jogou essa edição da Taça de Portugal, no final do campeonato, mas nela o FC Porto não foi longe. A eliminação, frente ao Barreirense (0-1), a 13 de Junho de 1948, foi o último jogo oficial que fez pela equipa em que se notabilizou. Continuou a viver no Porto, onde era figura conhecida na zona da Foz. Não encontrei notícias acerca do seu falecimento.