Marcelo nasceu no Brasil, mas sempre soube que era português. Aprendeu a fazer golos no Tirsense, teve o azar de chegar ao Benfica numa fase má do clube, mas ainda ajudou a ganhar uma Taça de Portugal antes de emigrar.
2017-10-11

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1990

A anedota era das mais ouvidas no futebol português da década de 90. Num momento difícil do jogo, um adjunto abordava o veterano treinador Mário Wilson e perguntava-lhe o que fazer. Wilson respondia com a bonomia habitual: “Mete o Marcelo”. E quando o mesmo adjunto lhe dizia que Marcelo já estava a jogar, a resposta não tardava: “Então tira o Marcelo!”. A passagem pelo Benfica deste goleador foi curta, mas marcante, e chegou até para que se discutisse a sua chamada à seleção. Marcelo, que era português – nasceu no Brasil, mas os pais regressaram a Portugal ainda ele era criança – nunca conseguiu que isso ficasse bem claro para a opinião pública. E, numa altura em que a camada de naturalizados à seleção ainda era tema-tabu, não chegou a ser internacional.

Como jogador, talvez tivesse sido o avançado prático de que aquela geração de artistas precisava para chegar mais longe nas grandes competições. Confrontado nos dias de hoje com a anedota, Marcelo ri-se com gosto e responde: “A verdade é que não acabava muitos jogos e quando saía do banco, muitas vezes, acabava por resolver”. E lembra uma meia-final da Taça de Portugal gana no prolongamento com um bis assinado por ele. Porque, sem os primores técnicos do jogador português típico daquela altura, Marcelo era um avançado prático, que via sempre a baliza e procurava atingi-la. Foi por isso que, após uma época brilhante ao serviço do Tirsense, chegou ao plantel do Benfica, ou que mais tarde fez uma carreira ainda assim muito interessante no futebol inglês.

A história de Marcelo começa no Rio de Janeiro, no Brasil, para onde os pais, portugueses, tinham emigrado. Mas os primeiros pontapés a sério numa bola já aconteceram em Aveiro, para onde a família regressou quando ele ainda tinha apenas 12 anos. Formado pelo Beira Mar, fez apenas o último ano de júnior pela Académica, porque tinha entrado para a universidade em Coimbra. Foi assim que, a 18 de Setembro de 1988, com 18 anos, se estreou na equipa principal da Briosa, entrando para o lugar de Barry a 20 minutos do fim de um jogo em casa com o Oliveira do Bairro. O treinador da Académica era, curiosamente, o mesmo António Oliveira que, anos mais tarde, era selecionador nacional quando se falou da eventual chamada de Marcelo à equipa de Portugal.

A Académica estava na II Divisão e não conseguiu nesse ano subir. Marcelo não foi um dos destaques da equipa – longe disso. Fez um golo na primeira vez que foi titular – empate fora com o GD Mealhada, na Taça de Portugal, a 5 de Outubro – e mais outro no campeonato, na última jornada, outra vez na Mealhada, num jogo que também acabou empatado e no qual o novo treinador, Henrique Calisto, optou por fazer alinhar vários jogadores que tinha utilizado pouco desde que substituíra Oliveira. Calisto optou por emprestar Marcelo ao Sertanense, da III Divisão. O regresso a Coimbra deu-se em 1990, com José Alberto Costa como responsável da Académica, mas anda na II Divisão. Utilizado com mais regularidade, Marcelo acabou essa época com um golo na Taça de Portugal e quatro no campeonato, dois dos quais nos dois jogos com o Feirense, que lhe deitou a mão já depois do início da época seguinte, na qual chegou a integrar o plantel da Académica, mas sem jogar.

Na Feira, Marcelo despontou como goleador. Marcou 12 vezes no campeonato de 1991/92, sendo o melhor marcador da equipa de Henrique Nunes, e ganhou dessa forma o direito a entrar na I Divisão. Quem nele apostou foi o Gil Vicente, de Vítor Oliveira, que lhe deu a estreia no principal campeonato precisamente no Mário Duarte, o estádio aveirense que lhe servira para dar os primeiros passos. Aconteceu a 30 de Agosto de 1992, quando o treinador o chamou para ocupar o lugar do guineense Nogueira nos últimos seis minutos de uma vitória por 1-0 frente ao Beira Mar. O primeiro golo ainda tardou: chegou a 13 de Dezembro, num 5-2 ao GD Chaves, em casa, depois de Marcelo já ter participado na vitória sobre o Sporting (1-0) e num empate com o Benfica, sempre no Adelino Ribeiro Novo. Mais dois golos ao longo da época, porém, não chegaram para convencer os responsáveis do clube de Barcelos a ficar com Marcelo, que dessa forma regressou à II Divisão, para vestir a camisola do Tirsense.

E bem pode dizer-se que foi em Santo Tirso que a carreira de Marcelo arrancou realmente. Com Eurico Gomes aos comandos, os jesuítas foram campeões do escalão secundário (nove golos de Marcelo) e equipa-sensação da divisão principal em 1994/95, época em que lutaram por uma vaga europeia até à última jornada. Nesse campeonato, Marcelo marcou por 17 vezes, incluindo um “hat-trick” ao Farense e quatro bis (a Estrela da Amadora, Boavista, União da Madeira e Gil Vicente), sendo batido na lista de melhores marcadores apenas pelo marroquino Hassan (do Farense) e pelo portista Domingos. Não admirou, por isso, que começasse a falar-se dele para a seleção – que estava bem encaminhada para chegar à fase final do Euro’96 – ou para um clube grande. À seleção, Marcelo nunca chegou, muito por uma questão de preconceito à conta do facto de ter nascido no Brasil. Facto que, no entanto, não o impedira, alguns anos antes, de ser chamado para fazer a inspeção militar.

Chegou, no entanto, ao Benfica, levado por Manuel Barbosa, juntamente com Paredão, o central – esse sim – brasileiro que era também uma das traves-mestras daquele Tirsense. O Benfica, no entanto, passou por um período de convulsão impressionante, que em nada lhe facilitou a vida. Era o segundo ano da revolução de Artur Jorge, naturalmente prejudicado por o primeiro ter sido um fracasso em termos de resultados. Marcelo estreou-se oficialmente pelo Benfica a 26 de Agosto de 1995, alinhando em vez de João Pinto nos últimos 20 minutos de uma vitória (1-0) em Santo Tirso. Na primeira vez que foi titular, marcou: foi a 12 de Setembro, num sucesso por 3-1 frente ao Lierse, na Bélgica, a contar para a Taça UEFA. Além de ser a estreia “europeia” de Marcelo, aquele era também o jogo que assinalava o regresso de Mário Wilson ao banco do Benfica: ao segundo empate consecutivo para o campeonato, Manuel Damásio despedira Artur Jorge.

Marcelo ainda fez 13 golos naquela época, sete dos quais no campeonato. Foi, porém, na Taça de Portugal que mais deixou a sua marca. Se o Benfica ganhou a final frente ao Sporting – a tristemente trágica final do “very-light” – a ele o deve. Terá sido muito por isso que, a um minuto do final do jogo, já com o Benfica a ganhar por 3-1, Wilson o chamou ao campo, para ocupar o lugar de Bruno Caires. É que, antes, tina sido ele a pavimentar o caminho que permitiu ao clube estar naquele jogo. Nos oitavos-de-final, em Faro, fez o golo que permitiu ao Benfica trazer a decisão da eliminatória para a Luz (empate a uma bola), fazendo depois um dos tentos dos 3-0 com que o clube ultrapassou o obstáculo. Nos quartos-de-final, em casa com o Vitória SC, foi ele que, saído do banco, fez a Nuno Espírito Santo, já no prolongamento, o golo com que o Benfica venceu a partida (1-0). E na meia-final, também na Luz, voltou a jogar apenas a meia-hora de prolongamento face à UD Leiria, marcando os dois golos de um 2-0 que garantia a presença no Jamor. Há muito Marcelo naquela Taça de Portugal ganha pelo Benfica.

Ainda assim, a substituição de Mário Wilson por Paulo Autuori foi o suficiente para que Marcelo acabasse dispensado. O Benfica queria ser emprestado, ele exigiu ser libertado. Acabou a assinar pelo Alavés, da II Liga espanhola. A experiência correu-lhe mal – zero golos durante a época – e Marcelo seguiu para um futebol mais de acordo com as suas caraterísticas: o inglês. Passou duas épocas e meia no Sheffield United, sempre no escalão secundário, onde em 1998/99 chegou a fazer 16 golos. Um ano antes, confirmara a tendência de goleador de Taça, ajudando a equipa a chegar à meia-final da Taça de Inglaterra. A meio da época de 1999/00 mudou-se para o Birmingham, onde jogou uma final da Taça da Liga, perdida no desempate por penaltis com o Liverpool. Marcelo ainda representou o Walsall antes de regressar, em 2002, à Académica, com a ideia de terminar o curso de engenheiro civil. Jogou mais duas épocas nos conimbricenses, despedindo-se com um golo, a 9 de Maio de 2004, num 4-1 ao Estrela da Amadora, que assegurava a manutenção.

Com o curso terminado, Marcelo não conseguiu, no entanto, afastar-se do futebol. É hoje agente de futebolistas, liderando a sua própria empresa, a MC Striker, que tem em carteira alguns jogadores de I Divisão em Portugal.