Há uma contradição na carreira de jogador de Fernando Santos. Ficou o “Sono”, alcunha posta pelos colegas para lhe fustigar a preguiça nos treinos, mas caiu no goto a Jimmy Hagan, um treinador conhecido pela exigência extrema.
2017-10-10

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1975

Muitos jogadores que apanharam Fernando Santos na fase inicial do atual selecionador nacional como treinador ainda hoje riem à conta da expressão “quarta-feira europeia”. A “quarta-feira europeia” era um treino físico absolutamente arrasador, inspirado nos métodos de Jimmy Hagan, e incluía, por exemplo, sessões intermináveis a subir e descer degraus das bancadas. Um treino que Fernando Santos deixou de fazer quando se iniciou nas lides da periodização tática, no final da década de 90, mas no qual acreditou durante anos, porque Hagan foi, de longe, a personalidade mais marcante na carreira de futebolista deste rapaz da Penha de França com jeito para jogar à bola.

A influência de Hagan em Fernando Santos deu-se nos bons e nos maus momentos. Foi, por exemplo, a inflexibilidade do treinador inglês na festa de homenagem de Eusébio, em 1973, a levar Santos para onde acabou por fazer vida: o Estoril. Mas vamos ao início da história: filho de Francisco e Maria de Lurdes, dois benfiquistas ferrenhos, daqueles com lugar cativo no estádio, Fernando começou a jogar no Operário enquanto ia com o pai à Luz ver os craques da sua infância. Guarda-redes nas peladas de rua até ao dia em que um voo mais arrojado o levou a rasgar as calças e a optar por posições mais adiantadas no campo, foi aos 17 anos a um treino de captação no Benfica. Ali, entre dezenas de miúdos, Ângelo gostou dele e propôs-lhe que ficasse, oferecendo-lhe mil escudos por mês e ajuda nas despesas escolares. O pai aceitou, com renitência, desde que Fernando não descurasse os estudos: se chumbasse um ano, acabava-se o futebol. Não era descrença nas qualidades do miúdo, era mesmo um princípio de vida, do qual o “Ti Chico” não abdicava.

Fernando foi jogar para os juniores do Benfica, chegou a treinar com os seniores, mas ali a concorrência era enorme e as hipóteses de sucesso poucas. Havia Humberto Coelho, Messias, Barros, Rui Rodrigues, estava a chegar Eurico… E entretanto deu-se a bronca. Em início de época de ataque ao tetracampeonato, Hagan, que era adepto dos treinos em dia de jogo, pôs toda a gente a correr na manhã da festa de despedida de Eusébio. Alguns consagrados, mais dados à brincadeira, atrasaram-se e cortaram caminho. O treinador não gostou e castigou-os: estão fora da festa. Interveio aí o presidente, Borges Coutinho, que anulou o castigo. E Hagan bateu com a porta. O que tem isto a ver com Fernando Santos? É que, dois meses depois, Hagan – que entretanto tinha assumido o comando do Estoril, na III Divisão – lembrou-se dele e convidou-o para se lhe juntar, triplicando-lhe o salário que ganhava na Luz. Fernando, que já estudava engenharia no Instituto Superior Técnico, aceitou e mudou-se.

Com Hagan, Fernando Santos subiu no terreno. Jogava a médio-centro, às vezes até a extremo, porque a sua capacidade de cruzamento fazia-se notar na III Divisão. E o sucesso veio. Vencedor da Série D da III Divisão, o Estoril subiu logo em 1974 à II Divisão, perdendo o acesso à final do campeonato numa renhida disputa com o Estrela de Portalegre. À primeira época no segundo escalão, nova subida, desta vez juntando o primeiro lugar na Zona Sul à vitória na final, frente ao SC Braga, em Coimbra (1-0, com golo decisivo no prolongamento). Em 1975, ainda com 20 anos, Fernando Santos chegava à I Divisão. A 7 de Setembro, António Medeiros (que entretanto substituíra Hagan) deu-lhe a estreia na I Divisão, colocando-o a titular na vitória caseira (2-0) frente ao Farense. O Estoril, no entanto, contratara muitos jogadores e o jovem lisboeta passou grande parte dessa primeira época na sombra do veterano João Carlos (ex-União de Tomar) e do jovem Amílcar (chegado do Oriental).

O rigor de Santos na marcação era proverbial. Olhando agora para os dados, vê-se que o Estoril não perdeu nenhum dos primeiros sete jogos que ele fez como titular: 2-0 ao Farense, 1-0 ao Beira Mar, 3-1 ao Vitória FC em Setúbal, 1-1 em Faro com o Farense, 1-0 ao SC Braga, 0-0 no Barreiro com a CUF e 1-0 ao Sporting. Ao oitavo, no Bessa com o Boavista, com a equipa a perder por 1-0 ao intervalo, Medeiros substituiu Fernando pelo médio Canário – no fim, o Estoril apanhou 6-0. Foi, ainda assim, uma boa época, com o oitavo lugar a assegurar uma manutenção tranquila. Seria mais complicada a segunda, com mudança de treinador a meio: em meados de Janeiro, após uma derrota caseira com o Académico, Medeiros cedeu o lugar a José Torres, que passava a acumular a função de jogador com a de treinador. Fernando Santos, que na primeira volta falhara apenas dois jogos – esteve na vitória sobre o FC Porto e no empate contra o Benfica, na Amoreira, por exemplo – perdeu protagonismo.

Não era um problema com a nova equipa técnica e isso viu-se nos dois campeonatos que se seguiram, nos quais Fernando Santos fez todos os jogos. Aliás, entre 22 de Maio de 1977 e 9 de Setembro de 1979, o central lisboeta marcou presença ininterrupta em 65 jornadas do campeonato, tornando-se figura incontornável de mais duas manutenções do Estoril. Pelo caminho, fez até dois golos, ambos de penalti, em jornadas seguidas, contra o Beira Mar (a 25 de Março de 1979) e o Académico de Viseu (a 31 de Março). Na parte final dessa época, achou que podia mudar de ares e seguiu para o Funchal, onde ia ganhar três vezes mais dinheiro com as cores do Marítimo. Fez uma boa época, sendo titular absoluto quer com Manuel de Oliveira quer, depois, com António Medeiros, que chegou ao clube por alturas do Natal. Tem, ainda assim, a lamentar uma expulsão – que por aquelas alturas era coisa mais rara do que agora –, por protestos, quando um golo de Vítor Batista, de livre direto, provocou a derrota no Bessa, contra o Boavista, por 2-1, a quatro minutos do fim.

O Estoril, entretanto, caíra para a II Divisão e Fernando Santos, já casado e com uma filha, não esquecia os ensinamentos do pai. Quando foi abordado para voltar ao clube da linha, pensou duas vezes nos pais: ao equacionar a necessidade de um emprego a sério e ao recordar o momento conturbado que a mãe estava a passar, depois de ter sido assaltada em Espanha. Disse a Benito Garcia, à altura presidente do Estoril, que regressava, para jogar na II Divisão, se lhe arranjassem um emprego. E foi assim que baixou um patamar futebolístico. O emprego, porém, ainda demorou. Só em Janeiro de 1981 assumiu o posto de diretor de serviços técnicos do Hotel Palácio. O futebol, nessa altura, passou para segundo plano na vida de Fernando Santos, que trabalhava no hotel durante o dia e se treinava à noite, com mais alguns jogadores que também tinham outras atividades. A questão é que o Estoril subiu. E com a subida regressou Jimmy Hagan, o guru de Santos. E Hagan não ia em cantigas, controlando sempre a apetência do seu defesa-central para “enganar” nos treinos: o próprio Santos contou já uma história em que, achando que não estava a ser controlado, se limitou a dar duas voltas ao campo antes de ir para o duche, mas que lá apareceu Jimmy Hagan a perguntar-lhe porque não treinava. O inglês estava a espreitar, escondido, no pinhal.

Em mais três épocas na I Divisão, Santos nunca mais voltou a ser titular absoluto na equipa, mas ainda somou mais 44 jogos à sua ficha. Despediu-se da I Divisão com um travo amargo, jogando em vez de Vieirinha os últimos 18 minutos de uma goleada de 8-0 encaixada frente ao FC Porto nas Antas, a 12 de Maio de 1984. Aquele era já um Estoril desmotivado, com o carimbo no regresso à II Divisão bem posto no emblema. Dali, o Estoril só voltaria a emergir em 1991, já com Fernando Santos como treinador. Passara a integrar a equipa técnica de António Fidalgo, seu afilhado de casamento e grande amigo, e quando este saiu, para o Salgueiros, em 1988, assumiu ele a posição. Primeiro de forma interina, depois com licença sem vencimento passada pelo Hotel Palácio, que foi prolongando à medida que o trabalho de treinador se tornava mais exigente.

Seis épocas no Estoril mais quatro no Estrela da Amadora valeram-lhe o convite do FC Porto para atacar o pentacampeonato. Campeão nacional com os dragões em 1999, dirigiu ainda o Sporting (em 2003/04) e o Benfica (em 2006/07 e no início de 2007/08), sendo hoje quase tão grego como português, por força de ter trabalhado no AEK Atenas, no Panathinaikos e no PAOK Salónica. Em finais de 2010 assumiu a condição de selecionador nacional, primeiro na Grécia, que conduziu ao Europeu de 2012 e ao Mundial de 2014, e depois em Portugal. Fernando Gomes convidou-o para substituir Paulo Bento numa altura em que Santos enfrentava uma pesada suspensão internacional, por ter interferido com um desempate por penaltis depois de ter sido expulso do banco pelo árbitro, no Mundial do Brasil. Tudo passou e Portugal sagrou-se campeão da Europa em 2016. Com Santos aos comandos.