A memória dos seus seus carrinhos, da forma como impunha o corpo-a-corpo na defesa ou no meio-campo, ainda perdura em Belém ou em Tomar. Cardoso era um daqueles jogadores que deixava tudo em campo.
2017-10-09

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1966

De Cardoso se diz que em campo era uma força da natureza. Não era extraordinariamente alto, mas tinha caixa. Tanto a meio-campo, onde nasceu para o futebol, como a defesa-central, posição para a qual muitos treinadores o fizeram baixar, impunha o físico, a robustez e todas as capacidades que costumam estar aliadas a jogadores mais importantes do ponto de vista defensivo. Mais rica, a história do Belenenses nem sempre lhe dá o devido destaque, mas em Tomar não foi esquecido, pois foi um dos jogadores mais importantes na passagem nabantina pela I Divisão.

A história, no entanto, começa antes, na Ajuda, de onde era natural este rapaz que começou a gostar de futebol de azul vestido. As suas cores eram as do Belenenses, cujos jogos continuou a seguir com interesse depois de abandonar a carreira. Entrou no Restelo para jogar nos iniciados, aos 11 anos, e por lá ficou até ser dispensado, aos 26, por Joaquim Meirim. O União de Tomar fez valer a cláusula de preferência que tinha sobre os dispensados da casa-mãe e levou-o para o Ribatejo, onde Cardoso passou seis anos como uma das referências de uma equipa que andou entre a primeira e a segunda divisões. Sempre com a mesma entrega e a mesma abnegação, por vezes dureza, levando a que ainda hoje em Tomar se recorde um jogador pelo qual, se passava a bola, não passava o homem.

Foi Fernando Vaz quem, em 1962, promoveu Cardoso ao plantel sénior do Belenenses. O médio vinha de participar no Torneio Internacional de juniores, na Roménia, em Abril, e Vaz deu-lhe mesmo a estreia em campo logo no início da temporada: a 23 de Setembro, Cardoso esteve no onze belenense que venceu fora o CD Montijo, por 4-2, na primeira mão da primeira eliminatória da Taça de Portugal. Essa seria, contudo, a primeira e última vez que Cardoso jogou pela equipa principal nessa época. Teve de esperar até Abril de 1964, já era Angel Zubieta o treinador do Belenenses, para regressar – o treinador basco, que viera terminar a temporada ao Restelo, fez dele titular na visita ao Vitória SC, em Guimarães, proporcionando-lhe a estreia no campeonato a 12 de Abril. Mesmo na derrota (2-1), Cardoso impressionou a meio-campo, ficando no onze para a última jornada (4-2 ao Sporting, no Restelo) e, depois, para o que faltava da Taça de Portugal: nesta prova, a 14 de Junho, Cardoso fez a Mourinho o seu primeiro golo como senior, num 2-0 ao Vitória FC Setúbal que valeu a passagem às meias-finais.

Nem a eliminação, pelo Benfica, parecia poder travar a ascensão do jovem médio. Só que a este prometedor final de temporada seguiu-se um ano inteiro sem jogar, no Belenenses de Fuchs e depois Mariano Amaro. Tardava a afirmação definitiva de um jogador que só quando ao Restelo chegou Jorge Vieira como treinador se tornou titular indiscutível. Um dia depois do Natal de 1965 fez o seu primeiro golo no campeonato, a fechar um claro 3-0 ao Leixões, no Restelo. Foi o tal médio voluntarioso até ao momento em que o acidente que tirou Vicente dos campos de futebol levou o treinador, que já era Ricardo Perez, a adaptá-lo a defesa central. Foi mais atrás no campo, ao lado de Quaresma, que Cardoso se tornou elemento fundamental na complicada época de 1966/67 do Belenenses: falhou apenas um desafio em toda a temporada (a derrota em casa com o Beira Mar, a 25 de Setembro, antes de a equipa perder Vicente), sendo de resto totalista no modesto 11º lugar no campeonato e na chegada aos oitavos-de-final da Taça de Portugal.

Este era um Belenenses a começar a aprender a viver com a perda de estatuto. Cardoso fez mais três épocas no restelo, sempre a meio da tabela, sendo a época de 1969/70, com Mário Wilson como treinador, ao mesmo tempo a mais produtiva que ali viveu em termos goleadores – de novo a meio-campo, fez dois, a CUF e Sporting – e a que simboliza a despedida do clube. Cardoso alinhou pela última vez com a camisola do Belenenses a 29 de Março de 1970, numa derrota por 1-0 em Braga, na qual se lesionou, acabando por ficar totalmente ausente na campanha azul até às meias-finais da Taça de Portugal. Finda a época, chegou Joaquim Meirim, prometeu dar ao Belenenses o título de campeão e dispensou vários jogadores. Entre eles, Cardoso, que foi parar a Tomar, onde o União, filial do Belenenses, aproveitou o direito a primeira escolha nas dispensas azuis para contratar o jogador.

Em Tomar, Cardoso ia viver as agruras da II Divisão. Nada que o assustasse. Com seis golos no campeonato, foi uma das figuras no segundo lugar que os nabantinos alcançaram na Zona Sul, ganhando o inesperado direito a jogar a Liguilha de acesso à I Divisão. A uma jornada do fim, o UD Tomar era terceiro, a dois pontos do CD Montijo. Sucede que os montijenses perderam por 5-0 em Sesimbra na última ronda, enquanto que Cardoso liderava os nabantinos numa vitória caseira sobre o GD Peniche (2-1), marcando inclusive o golo que valeu o empate, depois de Petita ter adiantado os forasteiros. Só mais tarde se soube que a FPF decidira alargar o campeonato da I Divisão para 16 clubes, abrindo mais duas vagas que a tal Liguilha viria a definir. Conseguido o sucesso na promoção, já em Setembro, Cardoso voltava assim à I Divisão, numa equipa que Fernando Cabrita conduziu a uma suada manutenção. Uma lesão tirou-o das saídas ao Restelo (0-2 com o Belenenses) e ao Bessa (0-2 com o Boavista), em Março, mas Cardoso estava em campo nas três importantes vitórias com que o UD Tomar encerrou o percurso caseiro no campeonato: 4-1 ao Barreirense, 1-0 ao Leixões e 3-2 ao Vitória SC.

O lisboeta manteve a importância na equipa tanto em 1972/73, ano de despromoção, como em 1973/74, alinhando 41 vezes em nova subida de divisão, desta vez direta, por ter sido primeira na Zona Sul. A segunda passagem pelo campeonato principal, no entanto, já não foi tão eufórica para ele. Já eram tantas as vezes em que jogava como aquelas em que o treinador, Artur Santos, o deixava de fora. A 15 de Dezembro de 1974, marcou o último golo na I Divisão, num remate de longe que valeu uma vitória por 1-0 frente ao Vitória FC. A 9 de Maio de 1976, Francisco Andrade deu-lhe a derradeira de 178 partidas na I Divisão numa derrota por 2-0 no terreno do Estoril que mantinha os nabantinos em lugar de despromoção, a duas rondas do fim. Já com ele no banco, o UD Tomar viu num empate (2-2) em Setúbal confirmada, por um ponto, uma descida de divisão da qual já não regressou, apesar da presença na Liguilha que ainda podia tê-lo salvo. Cardoso seguiu também para a II Divisão, mas para jogar no SC Covilhã. Passou dois anos na serra, mais dois na III Divisão, com as camisolas do Alcanenense e do Pêro Pinheiro, fechando a carreira pelo Monte da Caparica, nos regionais, já com 37 anos.