É impossível decretar se Damas foi o melhor guarda-redes português de sempre. Consensual é que o “Eusébio do Sporting”, como um dia lhe chamou Carlos Pinhão, está lá em cima, entre os quatro ou cinco que fizeram da baliza um lugar lendário.
2017-10-08

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1968

Houve uma altura em que, impulsionado por Eusébio e companhia, o Benfica ganhava três em cada quatro campeonatos. E depois havia Damas, o segredo por trás da interrupção cíclica dessa hegemonia benfiquista. O “Eusébio do Sporting”, como lhe chamou um dia o inspirado Carlos Pinhão, era um guarda-redes de charme, alto para a época, mas também ágil, felino e ao mesmo tempo seguro. Era um predestinado da baliza, que se aguentou no topo do futebol nacional durante 20 anos – da estreia à despedida – e nos deu histórias de exibições épicas para contar, como a noite dos penaltis contra o Glasgow Rangers ou a defesa à Gordon Banks em Wembley, a segurar a Inglaterra. Hoje dá nome a uma das balizas do Estádio José Alvalade, casa de um clube por quem tinha uma paixão que rivalizava com a que por ele próprio tinha, por exemplo, José Maria Pedroto.

A história, no entanto, começa muito mais cedo. Começa no Largo do Leão – local com um nome premonitório –, ali entre a Alameda D. Afonso Henriques e a Estefânia. Vítor Damas gostava de jogar à bola com os mais velhos, sonhava ser goleador no Sporting, mas a idade ali era estatuto e a ele apontavam-lhe sempre o caminho da baliza. Foi entre os postes que assumiu lugar no Neptuno, clube amador dirigido pelo jogador belenense Mário Paz. E foi entre os postes que começou a fazer falar dele, quando mantinha a mania de ser avançado mas fazia acorrer gente ao pelado de Alvalade só para o ver treinar com os principiantes, dirigidos por José Travaços. O “miúdo de borracha”, como lhe chamavam, dava espetáculo até a treinar. Pela elasticidade, pelos reflexos, pela coragem. Damas ficou conhecido como um guarda-redes elegante e sóbrio, mas isso só se deveu ao facto de ter tido uma carreira de mais de duas décadas e de a veterania, a dada altura, lhe ter temperado os excessos de juventude. Porque o Damas dos primeiros tempos era tudo menos discreto – brilhava com a intensidade de uma estrela de Hollywood ou de um bailarino do Bolshoi.

Sempre avançado em relação ao seu escalão, Damas estreou-se na equipa principal do Sporting com 19 anos, a 22 de janeiro de 1967, num Sporting-Benfica disputado no restelo para servir de homenagem a Vicente Lucas. O jogo acabou empatado a uma bola e o golo benfiquista foi marcado de penalti. Fernando Argila, o treinador que tentara – sem sucesso – segurar o título de campeão nacional que o Sporting conquistara no ano do Mundial de 1966, estava inseguro acerca dos guarda-redes que tinha (Carvalho e Barroca) e, a 12 de Fevereiro, numa receção ao FC Porto, deu uma oportunidade ao miúdo. Não correu muito bem: no início da segunda parte já os leões perdiam por 2-0, com golos de Bernardo da Velha e Djalma. O jogo ainda acabou empatado (2-2), os leões continuavam num modesto oitavo lugar da tabela, já bem longe do Benfica, e a chicotada psicológica não tardou. Argila ainda fez regressar Carvalho, mas com a chegada ao leme de Armando Ferreira, foi Damas quem acabou a época nas balizas. Em mais seis jogos, Damas só sofreu um golo, permitindo a recuperação leonina até à quarta posição final.

Poderia pensar-se que estava lançado o prodígio das balizas, mas Damas ainda teve de esperar. Fernando Caiado, o treinador de 1967/68, manteve a confiança no magriço Carvalho e o jovem guardião lisboeta só jogou uma vez em toda a temporada, num êxito caseiro sobre o Vitória de Guimarães (2-1), em Dezembro. O ano de afirmação definitiva de Damas foi 1968. Caiado mudou de ideias e deu-lhe a titularidade desde o início da temporada, ainda assim concluída com um dececionante quinto lugar. Pela primeira vez, Damas teve pela frente Eusébio num jogo oficial. Foi a 10 de Novembro de 1968 e, tal como aconteceu no jogo da segunda volta do campeonato, o ataque comandado pelo Rei não conseguiu sair do zero: ambos os desafios acabaram 0-0, constituindo-se como primeiros episódios de uma rivalidade pessoal que nunca destruiu o mais profundo respeito e admiração que Damas e Eusébio tinham um pelo outro. Enquanto foi vivo, Eusébio foi sempre garantindo que a melhor defesa que alguma vez alguém fizera a um remate seu tinha pertencido a Vítor Damas.

Com pouco mais de 20 anos, Damas lançava-se também internacionalmente. A 18 de Setembro de 1968 fez a estreia na então Taça das Cidades com Feira – antecessora da Taça UEFA e, mais tarde, da Liga Europa – com um retumbante 4-0 ao Valência. Mais perto do final da temporada, a 6 de Abril de 1969, estreou-se na seleção A, lançado por José Maria Antunes num particular contra o México que servia de preparação para a qualificação do Mundial de 1970 e acabou empatado a zero. Damas seria o futuro próximo da seleção: 23 das suas 29 internacionalizações ocorreram entre 1969 e 1975. E nessa altura contou algumas exibições épicas, como a que segurou o 0-0 contra a Inglaterra, em Wembley, em Novembro de 1974, num jogo em que os jornais ingleses chegaram a sugerir aos espectadores que levassem um bloco-notas para não perderem a conta aos golos que a sua equipa ia fazendo. O que levou Damas a perder a baliza da seleção, então? Muito simples: a saída para o Racing Santander, numa altura em que os jogos da Liga espanhola não chegavam cá e em que se tornava complicado, até do ponto de vista logístico, estar a chamar jogadores que defendiam clubes estrangeiros.

Mas já lá vamos, que antes da saída, Damas ainda teve tempo de se cobrir de glória com a camisola do Sporting. Em 1969/70, com Fernando Vaz aos comandos, Damas só falhou dois dos 39 jogos que os leões fizeram: a vitória caseira frente ao Salgueiros (2-0), para a Taça de Portugal, e os 5-2 ao Leixões em Matosinhos, na última jornada do campeonato, em que Vaz aproveitou para proporcionar a Carvalho uma despedida com um título de campeão. Apenas 15 vezes batido nos 25 jogos de campeonato que fez, Damas foi uma das estrelas do título leonino, impedindo mais uma vez o Benfica de chegar ao tetracampeonato. Vingaram-se os vermelhos na final da Taça de Portugal, que ganharam por 3-1, tirando ao Sporting o sonho da dobradinha. Aconteceria tudo ao contrário na época seguinte, em que o Benfica foi campeão, mas foram os leões a ganhar a final da taça de Portugal: vitória por 4-1, precisamente sobre as águias, na final. Mas tanto como a conquista da Taça de Portugal, a Damas – que em 1970/71 fez todos os jogos do Sporting, em todas as competições – creditavam-se muitas defesas impossíveis e um score impensável de apenas 14 golos sofridos em 26 jornadas. E 17 balizas virgens.

Perante um Benfica dominante, ao Sporting restava muitas vezes apostar na carreira na Taça de Portugal. Em 1972, comandados pelo seu guarda-redes, os leões voltaram a jogar a final, mas desta vez perderam-na, exatamente contra o Benfica (3-2). O ponto alto na temporada de Damas foi, no entanto, uma noite amarga para Alvalade: depois de ter perdido por 3-2 em Glasgow, com o Rangers, o Sporting repetiu o resultado em Alvalade, a 3 de Novembro de 1971. O jogo seguiu para prolongamento, os escoceses empataram, mas Peres estabeleceu, já perto do final, o 4-3 que ficou na história. Esquecendo-se que nessa época tinha entrado em vigor a regra que valorizava os golos marcados fora – e que, portanto, o Rangers estava apurado – o árbitro, o holandês Ravens, mandou toda a gente para o desempate por penaltis. E Damas brilhou: defendeu três grandes penalidades, deixando o estádio em delírio. Muitos espectadores saíram dali convencidos de que o Sporting seguia em frente na prova e já só em casa acordaram para a realidade, que era bem mais amarga.

Superada a novidade, esta era, contudo, a altura em que a Damas já se exigia mais. O guarda-redes era uma das estrelas da equipa e esta não era capaz de se sobrepor ao super-Benfica de Jimmy Hagan, que depois da dobradinha de 1971/72, chegaria ao tricampeonato em 1972/73. Ao Sporting, autor de um campeonato dececionante, sobrava a Taça de Portugal, que os leões ganharam, superando na final o Vitória de Setúbal (3-2). Damas fez, mais uma vez, todos os minutos da temporada na baliza leonina, recordando da época algumas recordações amargas, como os 6-1 encaixados frente ao Hibernian, na Escócia, em finais de Setembro, ou os 4-1 (com póquer de Eusébio) que sofreu do Benfica na Luz, em Outubro. Os tempos estavam, no entanto, para mudar – e não só politicamente. A época de 1973/74 foi pouco menos do que perfeita para o Sporting dirigido por Mário Lino: campeão, com Damas a jogar todos os jogos menos o primeiro, uma derrota em Setúbal; vencedor da Taça de Portugal, derrotando o Benfica na final (2-1 após prolongamento), àquele Sporting só faltou a final europeia que merecia. A equipa encalhou na meia-final da Taça das Taças, em Magdeburgo, na Alemanha de Leste, onde perdeu por 2-1 em véspera do 25 de Abril.

Muita coisa mudou daí para a frente. Percursor nalguns aspetos empresariais, o Sporting de João Rocha teve de atalhar pelos caminhos da revolução. Ao ano do título seguiram-se uma época confusa – com a chegada e partida célere de Alfredo Di Stéfano, um treinador que não chegou a aquecer o lugar – e outra desastrosa, pontuada com um quinto lugar que era a pior posição de sempre dos leões na tabela. Dama foi-se mantendo na baliza: totalista em 1974/75, só deu espaço a Matos, o seu suplente, em Março de 1976, quando se viu envolvido na situação mais polémica da sua carreira leonina. José Maria Pedroto ia deixar o Boavista, que transformara em Boavistão, para reassumir, com Pinto da Costa, o comando do FC Porto. Ora Pedroto tinha por Damas uma admiração enorme e queria aproveitar a liberdade que os futebolistas passaram a ter na sequência do 25 de Abril e do fim da lei da opção para o levar para as Antas. As coisas souberam-se, Damas ia-se recusando a renovar com o Sporting e a 14 de Março deu-se a bronca: em 24 minutos, a Académica fez três golos em Alvalade a um Damas irreconhecível. Pouco concentrado, o guarda-redes pediu para ser substituído antes da meia-hora, saindo para os balneários debaixo de uma vaia monumental.

Após um período de seis semanas de ausência, Damas ainda voltou para mais seis jogos nas redes do Sporting. Despediu-se a 30 de Maio, no Bessa, na última jornada do campeonato, com uma derrota por 3-1 frente ao Boavista de Pedroto. Só que, ao contrário do que chegou a supor-se, os destinos dos dois não estavam ligados: Damas assinou pelo Racing de Santander, equipa modesta, da segunda metade da tabela da Liga espanhola. Ali, durante quatro anos, Damas fez milagres. Nos primeiros dois, ainda evitou a despromoção. Ao terceiro caiu com a equipa, passando o quarto ano de contrato na II Divisão espanhola. De caminho, perdera a baliza da seleção para Bento e Fonseca, este o guarda-redes que Pedroto foi buscar para o FC Porto ao perceber que não ia poder contar com o seu predileto. Mas o “mestre” haveria de conseguir reunir-se ao seu guarda-redes desejado. Em 1980, depois de o FC Porto ter perdido a hipótese de tricampeonato para o Sporting, Pedroto e Pinto da Costa foram afastados pela direção do clube e encontraram guarida em Guimarães, como diretor-técnico e conselheiro do presidente, respetivamente. Uma das primeiras medidas da dupla foi resgatar Damas, que a 24 de Agosto de 1980 regressou à Liga portuguesa, mantendo invioladas as redes minhotas na receção ao Académico de Viseu.

Damas estava um guarda-redes diferente daquele que os portugueses recordavam – naquele tempo não havia sequer resumos televisivos disponíveis da Liga espanhola. Era agora um guardião mais sóbrio e menos dado às defesas espetaculares, mais discreto e menos irreverente. Defrontou por duas vezes o Sporting – 2-2 no Minho, 0-2 em Alvalade – e só cedeu as redes a Melo nas últimas seis jornadas de campeonato. Na segunda época, já com Pedroto como técnico, dividiu a baliza com Jesus, o que o terá levado a mudar de ares e a assinar pelo Portimonense, onde Artur Jorge lhe deu a primazia face ao jugoslavo Borota. Ainda foi peça chave na chegada dos algarvios à meia-final da Taça de Portugal de 1982/83 – derrota por 2-0 face ao Benfica, na Luz – justificando com a regularidade na segunda temporada o regresso ás lides da seleção. É verdade que, imediatamente após o regresso de Espanha, Damas ainda tinha feito um jogo, um empate a uma bola frente aos Estados Unidos, em desafio de preparação. Mas mais importante foi a sua inclusão, como único jogador que não vinha dos três grandes, no lote de convocados para a fase final do Europeu de 1984. Até final da carreira, Damas ainda jogaria mais cinco vezes na seleção: três em desafios particulares e duas no Mundial do México, onde tinha ido como suplente de Bento, herdando a baliza na sequência da grave lesão sofrida pelo guarda-redes do Benfica.

Nessa altura, já Damas regressara ao Sporting. Voltou em 1984, aos 36 anos, para o que se pensava viria a ser um breve epílogo de carreira. Não seria assim. Em Alvalade, Damas ainda jogou mais cinco anos, os três primeiros como titular absoluto. Não ganhou títulos, mas ainda jogou uma final da Taça de Portugal, perdida para o Benfica (1-2, com bis de Diamantino) a 7 de Junho de 1987. Keith Burkinshaw, o treinador inglês que o Sporting foi nessa altura buscar na tentativa de recuperar o fôlego de outros tempos, terá olhado para ele e achado que era velho, pelo que tentou substituí-lo por Rui Correia e por Vital, mas a substituição do inglês por António Morais, em Fevereiro de 1988, levou á recuperação da titularidade do veterano, que ainda faria mais uma temporada nas balizas leoninas. Despediu-se a 27 de Novembro de 1988, já com 41 anos, com um empate a duas bolas em Viseu, frente ao Académico local. O último golo, marcou.-lho José Alhinho, irmão mais novo de Carlos, antigo colega de Damas em Alvalade. Damas jogou, ao todo, 444 vezes pela equipa principal do Sporting, um total que só é batido em toda a história do clube por Hilário e que Rui Patrício poderá em breve superar.

Ainda foi treinador interino do Sporting em dois períodos (em 1988/89 e 1989/90), dedicando o resto da sua vida de técnico à preparação ds guardiões leoninos ou ao comando das equipas-satélite (assumidas ou não) que o clube ia tendo: passou dessa forma por Atlético, Lourinhanense e Sporting B, que dirigiu em 2000/01. Dois anos depois, viria a falecer, vítima demasiado jovem de cancro. Homenageado em vida, em dia de jogo em Alvalade, viu a mais duradoura homenagem ser-lhe feita a título póstumo: uma das balizas do Estádio José Alvalade carrega para todo o sempre o seu nome. Sempre que uma bola esbarrar ali num poste, conta mais uma defesa impossível para Vítor Damas.