Era uma espécie de Mandrake. Um homem-mistério, que citava Martin Fierro e em campo encontrava sempre as melhores soluções para cada caso. Marcou o período áureo do Torreense depois de surgir do nada em Portugal. E desapareceu da mesma forma.
2017-10-07

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1955

Quando começaram a vulgarizar-se na Europa, muitos futebolistas argentinos aproveitavam as digressões que os seus clubes faziam para por cá ficarem à procura de uma vida melhor. Não foi o caso de Forneri. Um dia, ninguém sabe muito bem como, apareceu em Portugal e começou a bater à porta de vários clubes, a ver se algum o aceitava. E não havia como não o fazer: este argentino, que era descendente de italianos, desempenhava bem qualquer posição em campo. Tinha toque de bola para jogar como médio interior, em apoio aos avançados, mas também garra e capacidade de marcação para se meter em posições mais recuadas, como médio-centro que o WM acabou por converter em defesa-central. E em tudo se destacava.

Acabou por ser o Juventude de Évora a abrir-lhe as portas e ali ele andou a lutar pela subida à I Divisão, perdida na fase final para a CUF, em 1954. Quem ficou mais perto de impedir a subida da equipa do Barreiro, nessa época, foi o Torreense, que já tinha Belén e se fixou em mais aquele médio argentino para compor o plantel que o também argentino Oscar Tellechea haveria de conduzir à subida na temporada seguinte, já com o contributo de mais um compatriota: o duro Pellejero. Foi um campeonato emocionante, decidido entre três equipas na última jornada. O Torreense seguia na frente da tabela a três jogos do fim, mas uma derrota nas Caldas da Rainha deixou a equipa a depender de terceiros. Na penúltima ronda, porém, enquanto o Oriental caía em Torres Vedras, o Caldas SC esparramava-se no Montijo. Tudo se compunha para o Torreense, que, impondo-se no último dia por 2-0 em Santarém à equipa dos Leões, pôde festejar a primeira subida à I Divisão e deu início a um cortejo de carros em festa de que ainda hoje se fala na cidade do Oeste.

O que ninguém esperava era a entrada fulgurante do Torreense no campeonato principal. Primeira jornada: 2-0 ao Lusitano de Évora, com estreia de Forneri na prova, a 18 de Setembro de 1955. Segunda ronda: 1-0 ao Sporting na Tapadinha, que funcionava como casa emprestada dos leões. E à terceira: 2-0 em casa à Académica. Em inícios de Outubro, o Torreense, recém-promovido, ia às Antas isolado no primeiro lugar da classificação, ainda sem golos sofridos, apresentar um desafio ao FC Porto de Yustrich. Aí, perdeu por 2-0, dando início a seis jornadas sem vitórias, mas a época foi globalmente muito boa. Não só por causa do sétimo lugar final ou do facto de ter tido a quinta defesa menos batida do torneio – e para isso muito contribuiu a garra defensiva de Forneri – mas sobretudo pelo que veio a seguir. Terminado o campeonato, era altura de se jogar a Taça de Portugal. E, eliminando sucessivamente o Desportivo de Beja (no único jogo em que Forneri não participou), o Sporting (1-0 no Campo das Covas, com um raro golo do médio argentino), o SC Braga (2-0 em casa) e o Belenenses (3-2 na Tapadinha, após prolongamento), o Torreense apurou-se para a final do Jamor.

Era o ponto alto da história do clube. A 27 de Maio de 1956, com Forneri entre os onze eleitos de Tellechea, o Torreense voltou a perder com o FC Porto. Um bis de Hernâni valeu um 2-0 e a dobradinha aos azuis-e-brancos (que já tinham sido campeões nacionais), mas não chegou para apagar aquele momento único de todos os torreenses que já viviam. Aquela equipa era especial. Na segunda temporada, já sem Fernando Mendonça – que seguiu para Braga – mas com Forneri a alinhar em todos os minutos do campeonato e da Taça de Portugal, o Torreense repetiu o sétimo lugar e atingiu os quartos-de-final da segunda competição, da qual foi eliminado pelo Benfica apenas ao terceiro jogo. E em condições excecionais: depois de um empate em casa (1-1), a equipa de Torres Vedras chegou a estar a ganhar na Luz por 2-0, mas os golos de Azevedo e Calado, na última meia-hora, forçaram um terceiro desafio, em campo neutro. Na Tapadinha, os encarnados levaram a melhor por 4-0 e acabaram com o sonho de uma segunda final para o Torreense. O peso de Forneri na equipa até já incluía golos: fez dois durante a época, um para o campeonato, a valer uma vitória por 3-2 sobre o Barreirense, e outro para a Taça de Portugal, também a permitir um sucesso (2-1) no terreno da CUF.

Era impossível negar a importância do argentino no rendimento do Torreense. Outra vez totalista em 1957/58 (foi o único jogador que não faltou a um minuto em campo durante todo o ano), conduziu a equipa ao oitavo lugar. Bem diferente foi a temporada de 1958/59. Forneri esteve indisponível até Janeiro, só entrou na equipa já na segunda volta, mas já não foi a tempo de evitar a descida de divisão. E tal como tinha aparecido, de supetão, desapareceu. Alinhou pela última vez com a camisola do Torreense a 29 de Maio de 1959, numa partida em Évora, contra o Lusitano, que marcou a eliminação da Taça de Portugal (1-1, depois de uma derrota por 2-1 em casa). Correspondeu em seguida à chamada de Pellejero, que bem o conhecia da sua passagem pelo futebol português, e juntou-se a ele no Granada CF, da I Divisão espanhola. É dessa altura a história que ficou famosa em Espanha, segundo a qual sempre que um avançado adversário se acercava da baliza vermelha e branca, Forneris – como passou a ser conhecido em Espanha – gritava a Pellejero: “Mate-o, que eu depois remato-o!”

Em Espanha, Forneris jogou três anos e meio no Granada CF e mais outros tantos no Elche CF. Em 1966, já veterano de muitas batalhas, perdeu espaço na equipa com a chegada de Tomeu Llompart e saiu para o RCD Maiorca, ainda a tempo de se tornar uma referência do clube. Em Palma de Maiorca foi jogador, treinador de todas as categorias e até técnico de equipamentos. Pode gabar-se de ter participado em quatro subidas de divisão, a primeira das quais em 1969, quando foi convencido pelos companheiros de equipa a ocupar o lugar de Vicente Sasot e optou por pendurar as chuteiras para melhor se concentrar na direção da equipa. Esteve depois ainda nas subidas de 1983 (como adjunto de Lucien Muller) e de 1986 e 1989 (em ambas como número dois de Lorenzo Serra Ferrer). “Joancho”, como era apelidado em Espanha, faleceu em 1993, e é recordado como um tipo de feitio peculiar. Uma vez, enviado por Serra Ferrer a observar um jogador que poderia vir a interessar ao clube, limitou-se a dizer-lhe: “Não serve”. E quando o chefe de equipa lhe pediu para explicar as razões num relatório, para apresentar à direção, respondeu-lhe com uma pergunta: “Mas para que é que vou estar a perder tempo se o rapaz não serve?”

Nota final – Não há certezas absolutas de que o Forneri do Torreense seja o Forneris de Espanha. Este foi ainda uma figura de média grandeza no futebol espanhol, mas em tudo o que encontrei publicado acerca dele se diz apenas que teve uma “breve passagem por Portugal”, sem citar os clubes por onde passou. Noutros textos diz-se que chegou diretamente do Quilmes Atlético. Optei por assumir que são a mesma pessoa porque há demasiadas coincidências entre ambos. O nome: Juan Carlos Forneri em Portugal, Juan Carlos Forneris Ocampo em Espanha. O facto de o Forneris “espanhol” ter aparecido por lá exatamente quando o Forneri “português” saiu de cá. A cumplicidade com Pellejero, que jogou com o Forneri “português” no Torreense e formou dupla indestrutível com o Forneris “espanhol” no Granada CF. Ou o espírito – ambos são apresentados como aventureiros e carismáticos – e a posição em campo. É verdade que a data de nascimento não é totalmente coincidente: o “português” nasceu a 7 de Outubro de 1930, o “espanhol” a 3 de Outubro de 1932. Mas num dos perfis que se fez em Maiorca após a sua morte, era dito de Forneris que não sabia “exatamente quando tinha nascido”. Agradeço, ainda assim, que se alguém tiver informações a este respeito as partilhe aqui.