Mário Jorge era um jogador difícil de caraterizar. Porque a técnica apurada lhe permitia jogar como médio-ala, mas ao mesmo tempo a robustez assemelhava-o a uma locomotiva a carrilar jogo pelo meio.
2017-10-06

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1991

Se o grande sonho de qualquer aspirante a futebolista em Portugal é jogar pelos grandes, Mário Jorge esteve quase lá. Duas vezes. Aliás, a primeira chegou a concretizá-la, ainda que não em desafios oficiais. Veloz, apesar da perna curta, dono de boa técnica e de um pulmão invejável, passou um ano no Benfica, chegou depois a ser apresentado pelo Sporting, mas fez toda a carreira visível em equipas de menor dimensão.

Nascido em Luanda, foi na linha do Estoril que deu os primeiros pontapés a sério numa bola. Despontou em Carcavelos, formou-se no Estoril e aos 19 anos já estava na equipa sénior, que nessa altura andava pela II Divisão. Ali cresceu ao lado de outro angolano, Hélder, um ano e meio mais novo. Um na defesa, outro a meio-campo, os dois foram fazendo crescer a equipa que Fernando Santos devolveu, em 1991, à I Divisão. Mário Jorge estreou-se no campeonato a 18 de Agosto de 1991, com uma derrota em Chaves (0-1) e, descontando três jogos que falhou à conta de uma lesão em Aveiro, em Fevereiro do ano seguinte, esteve em todas as partidas no décimo lugar dos canarinhos.

Finda a temporada, era uma das sensações do futebol português: chegara à seleção de sub21 (conseguiu a primeira de três internacionalizações naquele escalão a 12 de Outubro de 1991, no Luxemburgo, intrometendo-se numa equipa de “tubarões” que tinham acabado de se sagrar campeões mundiais de sub20) e começava a ser cobiçado pelos grandes. João Lachever, à data o “faz-tudo” no futebol do Estoril, era conhecido por ser um grande adepto do Sporting e apressou-se alevar os seu dois meninos de ouro a Alvalade. É que além do mais, tanto Mário Jorge como Hélder eram sportinguistas. Só que entre reuniões e propostas, encontros e desencontros, ambos foram parar ao Benfica. O importante, porém, era dar o salto. E isso já estava conseguido. Só que, no caso de Mário Jorge, o salto terá sido demasiado grande. Ou pelo menos demasiado cedo. O médio passou o ano todo a treinar, mas só uma vez foi chamado ao banco, por Tomislav Ivic. Aconteceu num Gil Vicente-Benfica e mesmo aí não chegou a entrar em jogo.

No Verão de 1993, foi altura de dar um passo atrás, certamente com a intenção de em seguida voltar a dar dois em frente. Desfeita a parceria com Hélder, que se impôs como titular na Luz, Mário Jorge acedeu ao convite de João Alves e assinou pelo Estrela da Amadora. A 16 de Janeiro de 1994 obteve o primeiro golo no campeonato, marcado nos 3-1 ao FC Paços de Ferreira, na Reboleira. Nessa época, haveria de fazer três golos, todos com sabor especial. O primeiro, por ter sido o primeiro. O segundo, por ter sido no Estoril, a abrir um jogo louco, em que o Estrela chegou a estar a ganhar por 3-0 mas os estorilistas empataram mesmo no final. E o terceiro por ter sido na Luz, ao Benfica, a valer um empate (1-1), que deixava o Sporting com tudo para ser campeão – depois aconteceu aquela tarde mágica de João Pinto, os 6-3 de Alvalade, e o título foi mesmo para a Luz.

Mário Jorge, esse, voltava a dar cartas. Repetiu na segunda temporada na Reboleira o destaque da primeira. A equipa era agora comandada por Fernando Santos, que o conhecia bem dos tempos do Estoril, e mesmo tendo baixado uns furos na tabela, conseguiu a manutenção. Para isso muito terá contribuído uma vitória sobre o Sporting em Alvalade, sobre o Sporting (1-0), com um golo de Mário Jorge. No final da época, um dos grandes voltou a interessar-se por ele: chegou mesmo a ser apresentado, com pompa e circunstância, por Pedro Santana Lopes e Carlos Queiroz, na sala de imprensa de Alvalade, como reforço leonino. Só que não chegou a aquecer o lugar no Sporting: antes de começar o campeonato foi incluído como moeda de troca na transferência de Paulo Alves do Marítimo para os leões da capital. Foi, portanto, nos Barreiros que continuou a carreira. E os grandes não voltaram a cruzar-se com ele.

Um ano passado na Madeira, sem um rendimento excecional, redundou no regresso à Amadora, onde Fernando Santos voltou a abrir-lhe as portas. Ali jogou mais duas temporadas, mas já sem o destaque da primeira passagem. O brilho da esperança tinha-se extinguido no olhar do médio, que aos 28 anos aproveitou um convite e seguiu com Velic para o Leganés, da II Liga espanhola. Haveria de voltar para mais uma boa época no Campomaiorense de Carlos Manuel, mas após a troca deste por Diamantino Miranda, foi perdendo protagonismo na equipa, aparecendo quase sempre saído do banco. A 20 de Abril de 1991, despediu-se do campeonato, entrando ainda na primeira parte para o lugar de Nuno Gomes numa derrota em Braga, por 4-0.

A despromoção do Campomaiorense levou-o primeiro até ao Algarve, para jogar no Imortal de Albufeira, e depois à América. Mais uma vez, o médio não teve sorte. Assinou pelo Tampa Bay Mutiny, da MLS, mas a Liga decidiu fechar o clube. Tentou a sorte no New England Revolution, mas aqui não chegou a rubricar contrato. Foi então que Fonseca, ex-colega no Estrela, que era agora o treinador dos Vancouver Whitecaps, o chamou para jogar nos Vancouver Whitecaps, equipa canadiana que jogava no segundo escalão do futebol norte-americano. O fim estava próximo. Há ainda registos de uma passagem pelo Abrantes FC, na III Divisão, antes de Mário Jorge abrir a carreira de treinador, no Trajouce. Aqui, em São Domingos de Rana, o médio abriu uma escola de futebol e tem-se esforçado pelo desenvolvimento dos miúdos da zona que, como ele um dia, sonham jogar por um grande.