Chamaram-lhe “Formiga” ou o “Senhor Movimento Perpétuo”. Neto era um médio combativo, daqueles que não parava de correr e de morder os calcanhares aos adversários. Foi bicampeão europeu no Benfica, mas nunca chegou à seleção.
2017-10-05

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1958

José Neto era um operário. Em todos os sentidos da palavra. Trabalhava numa fábrica de cortiça, na margem sul do Tejo, e mostrava nos campos de futebol, ao domingo, com a camisola do CD Montijo, os mesmos atributos que se lhe viam durante a semana: voluntarismo total, um espírito gregário difícil de igualar. No futebol, era aquilo a que a dada altura passou a chamar-se um “carregador de piano”. E foi isso que, anos antes de se tornar selecionador nacional, na epopeia dos Magriços, nele viu Manuel da Luz Afonso, à data apenas dirigente do Benfica. E, importante, o dono da fábrica de cortiça onde trabalhava Neto.

O rapaz já não ia para novo, andava perdido na II Divisão, em cuja Zona Sul jogava o CD Montijo, mas mesmo assim, em 1958, o patrão conseguiu reunir as duas partes. Aproveitou um jogo amigável entre o CD Montjo e as reservas do Benfica para convencer Otto Glória, que era o treinador principal do Benfica, a atravessar o rio para ir ver um médio do clube local. O brasileiro viu, gostou, deu o aval e Neto transferiu-se imediatamente para a Luz, onde começou por fazer, sobretudo, trabalho físico, que a sua baixa estatura também não era servida de grande arcaboiço muscular. A estreia pela equipa principal dos encarnados, Neto fê-la a 26 de Outubro de 1958, lançado por Otto Glória numa vitória por 3-1 frente ao Barreirense. Uma semana depois estava a marcar o primeiro golo, num retumbante 5-1 em casa ao SC Braga.

Assim que teve Neto, o treinador raramente abdicou do poder de marcação que ele dava à equipa. Até final dessa época, o médio montijense só falhou um jogo, entre o Natal e a passagem de ano – e o Benfica encaixou nessa tarde, em Guimarães, uma das duas únicas derrotas que teve num campeonato que perdeu para o FC Porto por diferença de golos. Neto vingar-se-ia na Taça de Portugal, assumindo-se como totalista na caminhada até uma final ganha ao FC Porto (1-0) com um golo de Cavém logo aos 15 segundos de jogo. Ganhava ali o primeiro troféu dos muitos que veio a conquistar de águia ao peito: na época seguinte, já com Bela Guttmann aos comandos da equipa, foi uma das figuras mais utilizadas na reconquista do título nacional, impondo-se com galhardia no meio-campo.

O treinador húngaro também não abdicava do montijense a não ser para lhe dar repouso, que ele em campo não parava – daí a alcunha “Senhor Movimento Perpétuo” que lhe foi atribuída pelo autor do texto do programa do jogo com o Hearts, na Escócia, a 29 de Setembro de 1960. Ali começava a epopeia da primeira vitória benfiquista na Taça dos Campeões Europeus. E, entre esse primeiro jogo, em Edimburgo, e a final, ganha em Berna ao FC Barcelona, a 31 de Maio de 1961, Neto não falhou um único minuto de todo o percurso. Ele, Costa Pereira, Cruz, Santana, José Augusto, José Águas, Coluna e Cavém somaram os 810 minutos de jogo que levaram a esta primeira proeza encarnada. Mesmo no campeonato, raramente deixou de dar o seu contributo para a conquista de mais um título nacional: voltou a falhar quatro jogos, entre os quais as duas derrotas do Benfica na prova, em Guimarães e nas Antas com o FC Porto.

Guttmann gostava de Neto, mas a dada altura quis transformar o Benfica numa equipa mais lustrosa. A chegada de Simões ao onze, com o recuo de Cavém no campo, a meio da época de 1961/62, teve como grande sacrificado a formiga do Montijo. Imprescindível até essa data, Neto passou a ver quase sempre de fora a forma como os companheiros iam somando vitórias. Ainda fez 13 jogos nesse campeonato, que o Benfica perdeu para o Sporting, o último dos quais em Fevereiro, pouco depois do início da segunda volta. Participou igualmente nas campanhas que conduziram às vitórias na Taça de Portugal (seis presenças) e em mais uma Taça dos Campeões Europeus (jogou um desafio apenas, na neve de Nuremberga). Não alinhou em nenhuma das finais, porém: nem nos 5-3 ao Real Madrid, em Maio, nem nos 3-0 ao Vitória de Setúbal, em Julho. Jogara, sim, as três partidas com o Peñarol, ainda no início da temporada, nas quais o Benfica não logrou ganhar a Taça Intercontinental.

As coisas não melhoraram para Neto com a chegada à Luz do chileno Fernando Riera, o homem que o Benfica encontrou para substituir Bela Guttmann. A temporada de 1962/63 foi, para ele, um ano perdido: participou em apenas dois jogos, na Taça de Portugal, contra o modesto Luso do Barreiro, ganhos por 7-0 e 12-0. Lajos Czeiler ainda o recuperou em 1963/64, dando-lhe a dada altura o lugar de Santana, ao lado de Coluna, no meio-campo – Cavém já era defesa-lateral – e Neto até respondeu bem, com a temporada mais goleadora da sua carreira: fez três golos no campeonato, a Olhanense, Barreirense e Varzim, em três jogos que o Benfica resolveu com a mesmíssima “chapa oito”. E ao título nacional somou mais uma Taça de Portugal, ganha de forma retumbante ao FC Porto (6-2), mas numa final em que Neto não esteve – alinhara nas eliminatórias com o Salgueiros e o Lusitano de Évora, porém, assegurando que o seu nome iria figurar entre os vencedores.

Mas as coisas não estavam a ficar fáceis para ele. Neto não estava pior jogador: a equipa é que estava cada vez mais recheada de grandes valores. Em mais dois anos de Benfica, já não jogou com muita frequência. Marcou, a 10 de Outubro de 1964, o seu último golo pelos encarnados, numa goleada de 5-0 ao Lusitano de Évora, na Luz. Era agora Pérides quem alinhava ao lado do “Monstro Sagrado” no meio-campo do Benfica, mas quando chegou mais uma final da Taça dos Campeões, frente ao Inter, ainda por cima em San Siro, o treinador Elek Schwarz lembrou-se de Neto e deu-lhe a vaga. Serviu de pouco: foi o jogo do célebre frango de Costa Pereira e o Benfica perdeu por 1-0. Chegado Julho, Schwarz já não o colocou a jogar a final da Taça de Portugal, mas o resultado não foi melhor, pois o Benfica perdeu por 3-1 com o Vitória de Setúbal. E nem o regresso de Guttmann lhe valeu: Neto fez mais seis jogos pelo Benfica (três no campeonato), despedindo-se do clube a 13 de Março de 1966, num empate a duas bolas no Algarve, frente ao Portimonense, a contar para a Taça de Portugal.

Na temporada seguinte, Fernando Caiado, que bem o conhecia dos tempos da Luz, levou-o com ele para Braga, mas a experiência não durou muito. Imprescindível no arranque da época, Neto ainda ajudou os minhotos a ultrapassar o AEK Atenas na Taça das Taças, fez os seis primeiros jogos do campeonato, alinhando pela última vez pelo clube na Taça de Portugal, a 30 de Outubro de 1966, em Espinho, num jogo que os bracarenses empataram a uma bola. O futebol, para ele, acabava ali, com uma só mágoa: a de nunca ter sido internacional A por Portugal. Regressou ao Montijo, onde teve uma pastelaria e uma peixaria, até morrer, ainda relativamente jovem.