Foi o autor do primeiro golo do Vitória de Setúbal na I Liga, um abrir de portas para década e meia de dedicação em campo às únicas cores que conheceu enquanto futebolista. E que depois continuou a servir como dirigente.
2017-10-04

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1939

A história começa com uns 9-0. Os 9-0 com que a Espanha aviou Portugal, em Março de 1934, no apuramento para o Mundial de Itália. O resultado fez mexer a estrutura do futebol nacional e levou à adoção de um modelo diferente de competição, mais próxima da que tinham os espanhóis. A 20 de Janeiro de 1935 começava, então, o campeonato da I Liga, com oito equipas participantes. E entre elas estava o Vitória FC, que tinha sido campeão regional de Setúbal e por isso ganhara assento entre os participantes. Ora na primeira equipa que o Vitória apresentou na prova, para uma visita ao Benfica nas Amoreiras, estava um rapaz de 17 anos chamado Aníbal Rendas. Não só estava, como deixou marca: fez o primeiro golo vitoriano na história da prova, reduzindo para 3-1 a expressão da primeira derrota sadina.

Aliás, Rendas foi mais longe: marcou nos primeiros quatro jogos que fez, ajudando também à primeira vitória do clube no campeonato, ao inaugurar o marcador nos 3-1 ao Unidos de Lisboa, a 3 de Fevereiro. E alguns dos seus golos foram de perfil elevado: foi dele o golo da vitória sobre o FC Porto – que viria a ser campeão nacional – nos Arcos, por 1-0, como lhe pertenceu o tento que valeu um empate a uma bola frente ao Sporting no Campo Grande. E mesmo com o esgotar do goleador-surpresa – que não jogou depois o Campeonato de Portugal –, o Vitória acabou a competição num excelente quinto lugar, apenas atrás dos então quatro grandes (FC Porto, Sporting, Benfica e Belenenses). Estava dado o mote: ali havia material com golos. E a segunda época no escalão de topo confirmou-o, com o melhorar dos números e o primeiro bis: fê-lo a 1 de Março de 1936, nos 5-0 à Académica em casa.

O Vitória era uma força da região, mas resistiu mal à debandada de alguns jogadores. Acima de todos, o extremo João Cruz, que no Verão de 1936 se mudou para o Sporting. Rendas também teve uma terceira temporada abaixo do que já vinha sendo habitual: só entrou verdadeiramente na equipa na segunda volta do campeonato, fazendo apenas um golo. Insuficiente para um Vitória que acabou a Liga no penúltimo lugar. E que no regional de 1937 perdeu a primazia para o Barreirense, vendo-se assim obrigado a jogar o campeonato da II Liga. Por lá andou durante duas épocas, até que o berbicacho entre o FC Porto e a AF Porto levou a FPF a alargar o número de clubes no campeonato de oito para dez, dando mais um clube a Porto e Setúbal. Beneficiou disso o Vitória, que no entanto regressou com uma equipa claramente abaixo dos pergaminhos do clube: foi destacadamente último classificado, marcando apenas sete golos nas 18 jornadas e ganhando um único jogo. Rendas já era uma referência nessa formação, mas mesmo assim pouco dele se viu em termos goleadores: fez apenas um tento no campeonato, mais dois nos 5-1 em casa ao Carcavelinhos, na abertura da Taça de Portugal.

Até ser instituído o sistema de subidas e descidas, o Vitória andava muito entre a I e a II Divisão, fruto da rivalidade com um Barreirense que por esses tempos era superior. Aliás, depois desta época negativa, em 1939/40, a equipa sadina só voltou ao convívio dos grandes em 1943. Com ela vinha Rendas, na altura já um jogador experiente. Rendas não era um avançado fisicamente forte, mas impunha a garra e o espírito de luta que mais tarde vieram a ser destacados no poema que lhe foi consagrado na festa de homenagem que o Vitória lhe promoveu: “Ao desporto quiseste dispensar/Nas horas de ansiedade e de fervor/Imenso sacrifício sem cessar/Batalhaste nos campos com ardor/A sentires o desejo de ganhar/Lutando a defender a mesma cor”. Nesse ano de regresso, cedeu o papel de goleador a Francisco Rodrigues, que voltara a Setúbal após uma experiência de três anos no Benfica, mas falhou apenas um jogo em todo o campeonato, mostrando-se um jogador de equipa.

O Vitória acabou o campeonato na sétima posição. Galgou dois lugares em 1944/45, repetindo a que na altura era a sua melhor classificação de sempre, mas nesse ano Rendas apareceu menos. Estabeleceu-se na equipa na disputa da Taça de Portugal, onde foi um dos totalistas na caminhada até às meias-finais nas quais o Olhanense foi mais forte, entrando na fase madura da carreira, na qual baixou um pouco no terreno e ganhou consistência e regularidade. Os golos vitorianos vinham agora fundamentalmente de Cardoso Pereira, avançado que o clube tinha ido buscar ao Barreiro, forma de recuperar a supremacia regional e de arrancar para quatro títulos nos últimos quatro campeonatos de Setúbal que se disputaram. Rendas impunha-se agora pela continuidade. Falhou apenas quatro jogos no campeonato de 1945/46 (e desses o Vitória perdeu três), mantendo depois a regularidade nas temporadas seguintes, até à altura em que achou que era hora de deixar as tarefas de jogador. Mesmo assim, em 1948/49, já para lá dos 30 anos, ainda protagonizou a época mais goleadora da sua carreira, com sete golos no campeonato (incluindo um hat-trick nos 5-1 ao Atlético, a 20 de Fevereiro de 1949) e mais um em nova caminhada do Vitória até às meias-finais da Taça de Portugal. Coube-lhe, aqui, marcar o golo que eliminou o FC Porto nos quartos-de-final, não tendo depois estado na derrota perante o Benfica, no jogo de acesso à final.

No final desse ano de 1949, decidiu por um ponto final na carreira. Ainda marcou na jornada inaugural do campeonato – 2-1 ao Vitória de Guimarães, nos Arcos, a 9 de Outubro –, fazendo três semanas depois, no dia 30, o seu último desafio na prova: uma derrota por 5-1 com o Sporting em Alvalade. No dia de Natal, Vitória e Benfica defrontaram-se no Campo dos Arcos em jogo de homenagem merecida. Rendas jogou os primeiros 20 minutos e pendurou as chuteiras. Continuou a servir o Vitória como treinador e como dirigente, tendo sido elemento importante na estrutura da primeira equipa do Vitória a ganhar a Taça de Portugal, em 1965. Ao mesmo tempo, foi mantendo o emprego nos CTT de Setúbal, onde trabalhou toda a vida até se reformar e se dedicar a uma loja de fazendas que era propriedade da família.