Catalogado pela "Stadium" como "médio de rara ciência", Pedro Azeredo sempre viu para além do futebol. Escolheu a Académica para poder formar-se em medicina e acabou por servir o clube durante mais de uma década.
2016-01-05

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1949

Uma das figuras mais constantes na Académica das décadas de 40 e 50, Pedro Azeredo nunca teve dúvidas em relação às suas verdadeiras prioridades. Adorava futebol, chegou a perder o apetite quando um dia lhe disseram que teria de abandonar o passatempo por questões de saúde, mas aquilo que mais lhe interessava eram os estudos. Aquele que a revista “Stadium” chegou a considerar “um jogador de rara ciência” encontrou na Académica um simples meio de complementar a formação em medicina, com especialização em cardiologia. Era essa a ciência da sua vida.

Filho de um funcionário público, Azeredo nasceu em Lisboa. Foi treinar ao Benfica, mas não ficou por questões burocráticas. Entrou por isso nos juniores do Sporting, onde foi treinado por António Abrantes Mendes, que mais tarde haveria de ter um papel importante na sua carreira: ele próprio um ex-futebolista formado em direito, viu no pupilo mais do que um simples jogador da bola e, sabendo que Azeredo estava a jogar no Beira Mar – porque o pai tinha sido colocado profissionalmente em Aveiro – aconselhou-o a viajar até Coimbra. Ali chegado em Setembro de 1944, o jovem Azeredo, de apenas 18 anos, ficou instalado na Pensão Antunes, entrando na equipa de forma muito lenta: estreou-se apenas a 18 de Março de 1945, pela mão do treinador Albano Paulo, numa derrota por 2-1 no Campo Augusto Lessa, no Porto, contra o Salgueiros, que ainda lutava para ultrapassar os estudantes na fuga à descida de divisão. Azeredo fez mais dois jogos nessa época, mas foi um dos sacrificados após os 15-2 que a equipa apanhou do Belenenses, a 1 de Abril, naquela que é, ainda hoje, a maior derrota da história da equipa de Coimbra.

Outra goleada sofrida nas Salésias, frente ao Belenenses – desta vez 7-0, em Dezembro de 1945 – haveria de marcar o regresso de Azeredo à primeira categoria. Desta vez, porém, o treinador, que era Eduardo Augusto, manteve a confiança no jovem médio, que fez a maior parte dessa época como titular no meio-campo. Os cinco golos que marcou, a jogar a meio-campo – um num empate a três com o Benfica e dois numa vitória por 2-1 sobre o FC Porto – fizeram dele uma das figuras da Briosa, que acabou a época em décimo lugar, assegurando mais uma vez a manutenção. A época encerra com dois empates espetaculares com o Sporting, campeão nacional: 5-5 na última jornada da Liga e 3-3 na primeira eliminatória da Taça de Portugal, tendo este sido resolvido pelos leões com um 6-3 num prolongamento que mandou o futebol da Académica de férias logo ali. Eram, ainda assim, boas indicações, que a equipa, porém, não veio a confirmar em 1946/47, acabando o campeonato no 11º lugar. Azeredo, esse, já era titular fixo, quer para Sandor Peics, quer para José Maria Antunes, que substituiu o húngaro na ponta final do campeonato: participou em todos os jogos da época com exceção da goleada sofrida em Olhão, frente ao Olhanense (12-0), na última jornada.

A descida de divisão de 1948 – a Académica andou em último lugar desde a terceira jornada até final – foi revertida com a o título de campeão da II Divisão em 1949. E a Briosa voltou mais forte, alcançando um meritório sétimo lugar final, com Azeredo em campo em todos os jogos da prova. Novos valores chegavam à equipa, que em 1950/51 volta a fazer uma época tranquila – acabou em oitavo lugar, mas chegou a Dezembro em terceiro – e a atingir a final da Taça de Portugal, onde, liderada por Oscar Tellechea, perdeu com o Benfica por 5-1. Azeredo continuava a destacar-se pela “colocação e poder de passe”, conforme se lê na “Stadium”, pelo que a chamada à seleção B aparece com naturalidade. O médio corresponde num jogo contra a França, no Jamor, em Maio de 1951. Portugal ganha por 3-1, mas Azeredo nunca mais voltou a vestir a camisola das quinas. Diz-se agora que nunca se mostrou muito disponível para estágios que pudessem afetar-lhe os estudos e que só por isso nunca chegou à seleção mais representativa do país. É que nessa altura chegou a ser considerado por “A Bola” o melhor médio esquerdo do país, à frente de Serafim e Francisco Ferreira.

Como jogador, Azeredo foi perdendo apetite pelo golo. O último da sua carreira foi contra o V. Guimarães, a 29 de Outubro de 1950, numa vitória da Briosa por 3-2. Ainda assim manteve a importância na equipa, de que se tornou capitão: só falhou dois jogos em 1951/52 e foi totalista em 1952/53. Formava então com Wilson e Bentes um trio-maravilha que foi até celebrado em poema por Pedro Homem de Melo. Em 1954, porém, apesar de ter só 28 anos, começou a perder continuidade. Fez o último jogo de competição a 23 de Janeiro de 1955, empatando em casa a duas bolas com o Belenenses, o mesmo Belenenses que tanto lhe marcara os inícios e que nessa época viria a ser o dramático campeão nacional. Terminada a carreira de futebolista, partiu para Angola com a família, regressando apenas em meados da década de 70, depois da revolução de Abril, para se fixar em Penafiel. Ali veio a falecer, a 14 de Dezembro de 2014. Uma semana depois, foi homenageado com um minuto de silêncio no jogo que a Académica fez em casa, contra… o Penafiel.