O primeiro marroquino a jogar futebol profissional na Holanda acabou por vir parar a Portugal. Era um dos preferidos de Quinito para o seu futebol lírico e deixou a ideia de ter ficado sempre aquém do que na realidade valia.
2017-10-03

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1983

Os holandeses viam nele um talento extraordinário e ficavam quase sempre incrédulos quando sabiam que Aziz Doufikar andava no futebol português em equipas que alternavam a primeira com a segunda divisão. Lembravam o jogador que conviveu com van Basten, van’t Schip ou Menzo nas equipas de base do Ajax e que não ficava a dever-lhes nada. Mas Aziz nunca chegou a impor-se na equipa principal. Lá como cá, mais tarde, faltou-lhe em competitividade o que lhe sobrava em futebol perfumado.

A história de Aziz começa em Casablanca, Marrocos, numa família numerosa: tinha quatro irmãs e cinco irmãos, todos com queda para o futebol. Desses tempos guarda ainda a paixão pelo WAC, onde não chegou a jogar, contudo. É que era ele ainda menino quando a família emigrou para Lelystad, na Holanda. Aziz começou, assim, a jogar futebol mais a sério no SV Lelystad. E foi com essa camisola que se destacou a ponto de, numa partida contra uma equipa das camadas jovens no Ajax, ter despertado o interesse do colosso de Amesterdão. Abordado por Hassie van Wijk, transferiu-se para a academia do Ajax, onde partilhou momentos inesquecíveis com os craques que germinavam para conduzir o clube à vitória na Taça dos Vencedores das Taças em 1987 e a seleção holandesa ao sucesso no Europeu de 1988.

O funil era apertado, mas Aziz conseguiu chegar à equipa principal. Só que a concorrência era tanta que não lhe permitiu chegar mais longe. Não tendo chegado a jogar partidas oficiais pelo Ajax, saiu em Novembro de 1984 para o PEC Zwolle, equipa mais modesta onde conseguiria mais continuidade, cujo treinador era Co Adriaanse. Afinal de contas, Aziz já era internacional júnior por Marrocos, equipa pela qual tinha ganho a Taça Palestina, em 1983, com a honra de receber a taça das mãos de Mohammed VI, na altura ainda o príncipe herdeiro ao trono de Marrocos. Em Zwolle, Aziz ainda foi a tempo de se destacar, acabando o campeonato holandês como melhor marcador da equipa, com sete golos. Não chegaram, ainda assim, para a permanência na I Divisão. Seguiram-se um ano na II Divisão (mais onze golos, dez no campeonato e um na Taça), com promoção, e uma terceira temporada no escalão superior (sete golos no campeonato e um na Taça), desta vez com permanência tranquila.

Aquilo não chegava, porém, para satisfazer o marroquino, que no Verão de 1987 correspondeu ao apelo de Portugal. Assinou pelo SC Espinho, que acabara de subir de divisão, pelo qual se estreou a 30 de Agosto de 1987, alinhando os 90 minutos do desafio da segunda jornada do campeonato, em casa contra o Sporting. O jogo acabou empatado a zero, demonstração de uma realidade nova à qual nem o facto de ser treinado por Quinito, um treinador “romântico”, trazia atenuantes. É que o médio criativo estava mais perto de Marrocos, o clima era melhor, mas uma coisa era diferente: o futebol em Portugal não era tão livre como na Holanda. Havia mais preocupações defensivas. Foi sempre isso a impedir que Aziz correspondesse aos elogios que chegavam a Portugal vindos da Holanda. Ainda fez um golo – a 1 de Novembro, num empate (2-2) com a Académica, em Coimbra – mas não foi dos jogadores mais influentes no oitavo lugar final do SC Espinho.

A troca de treinadores – saiu Quinito, entrou Carlos Garcia – acabou por ser benéfica para Aziz, que em 1988/89 assinou a melhor temporada em Portugal. Foram sete golos em 25 jogos, com destaque para os bis a Leixões e Farense ou para o facto de ter marcado nas três vitórias com que os espinhenses encerraram o campeonato. Insuficiente, mesmo assim, para escapar à despromoção. Aziz ficou mais um ano em Espinho, mas nem os seus dez golos chegaram para que a equipa regressasse ao escalão principal, pelo que no final do contrato optou por regressar à Holanda. Por lá passou dois anos entre o Fortuna Sittard e o FC Eindhoven, período marcado por um incidente com um árbitro, cujos colarinhos agarrou com mais vigor do que o recomendável, o que lhe valeu um cartão vermelho e sete jogos de suspensão.

Em 1992, porém, com o SC Espinho de regresso à I Divisão, Quinito – que também regressara – lembrou-se outra vez do marroquino. E Aziz voltou aos relvados portugueses. Passou um ano com Quinito na I Divisão, mas o SC Espinho voltou a descer. E o marroquino ficou então duas épocas no segundo escalão, até Quinito voltar a lembrar-se dele: em 1995, quando abraçou o projeto de devolver o Vitória FC ao escalão principal, levou-o para Setúbal. Conseguida a subida, Aziz teve ainda forças para, aos 32 anos, fazer mais uma temporada entre os grandes. Já com a permanência assegurada, despediu-se do campeonato a 15 de Junho de 1997, entrando para o lugar de Chipenda a dois minutos do fim de uma vitória (2-0) em Leça.

Aziz ainda prolongou a carreira em clubes de escalões inferiores, como o Esmoriz, chegando mesmo a jogar nos regionais dos Açores, de Aveiro e da Guarda antes de regressar à Holanda. Ali, assumiu funções como treinador – dirige atualmente o Batavia’90 – ao mesmo tempo que trabalha como assistente social com miúdos de famílias problemáticas.